Câmara vota redução da maioridade penal. O Senado vota a reforma do código de menores. Está feita a confusão. Uma decisão bate de frente com a outra. O assunto é apenas parte da agenda política de oposição.

Enquanto a redução da maioridade penal para 16 anos é aprovada na Câmara dos Deputados, em votação chamada de “golpe regimentar”, que depende de mais uma apreciação, o Senado Federal caminha em direção oposta. Põe em votação um projeto de lei do senador José Serra (PSDB-SP), apoiado pelo governo, que pretende reformar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), uma lei benevolente com menores criminosos.

O ECA, saudado mundialmente como uma lei moderna, parte do princípio de que os infratores serão corrigidos com três anos de internação em instituições sócio-educativas, porque em tais instituições vão receber apoio e educação suficientes para abandonar a vida no crime. Não há nada mais equivocado do que isto. É pura bobagem. Todos os dias, às seis horas da tarde, os menores infratores confinados em casas de abrigo patrocinadas pelo governo paulista, cantam o hino do PCC, o Primeiro Comando da Capital, a maior organização criminosa do país.

O ECA padece de um pecado capital: confunde abandonados com criminosos. Menores abandonados, rejeitados pela família, merecem atendimento e podem até se “recuperar” nas chamadas instituições sócio-educativas, substitutas da antiga Febem. Mas os criminosos são um capítulo a parte. Para estes, autores de crimes bárbaros, deveria haver um capítulo diferenciado nas leis. No entanto, o que vemos no Congresso Nacional é um embate entre a agenda política do PMDB, representado pelos dirigentes das duas casas legislativas, e o governo Dilma.

Se a Câmara dos Deputados, comanda por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), aprova a redução da maioridade penal, e o Senado Federal aprova a reforma do ECA, baseada em proposta do senador José Serra (PSDB-SP), criamos um impasse jurídico. Qual decisão vale mais? A Câmara quer mudar a Constituição de 1988, para mandar menores criminosos para a cadeia. O Senado deseja reformar uma lei infraconstitucional, o ECA. Como vamos resolver essa confusão? Como os juízes vão decidir?

Se a Câmara dos Deputados aprovar, em segunda votação, a redução da maioridade penal, a decisão subordina todas as leis. Porque se trata de uma reforma da Constituição. Mas o Senado terá a palavra final.

É a fogueira das vaidades.

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

“El Chapo”, um dos maiores traficantes mundiais de drogas, escapou de um presídio de segurança máxima no México. É um dos principais responsáveis pela entrada de maconha e cocaína nos Estados Unidos. Um negócio de 5,4 bilhões de dólares.

O traficante mexicano

O traficante mexicano

Joaquim (“El Chapo”) Guzmán, poderoso chefão do Cartel de Sinaloa, no México, que atua nas fronteiras secas com os Estados Unidos (mais de 12 mil quilômetros entre um país e o outro), fugiu de um presídio de segurança máxima mexicano. Estava condenado a 20 anos de prisão e fora capturado em uma monumental operação policial de seu país natal, com apoio do FBI e do DEA. O governo mexicano informou, na manhã de hoje (12 jul), que as imagens de televisão da cela que ele ocupava na penitenciária de Altiplano I, na capital, haviam parado de funcionar.

“El Chapo” fugiu por um túnel de 1,5 quilômetro cavado sob o chuveiro de sua cela. Até agora, ninguém sabe onde está. No Brasil, os grandes traficantes estão soltos: são gente acima de qualquer suspeita e não moram em favelas ou bairros populares. Mas os que estão em penitenciárias federais de segurança, como Fernandinho Beira-Mar, não fogem. Pelo menos até este momento.

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Carta do jornalista Roberto Marinho ao presidente João Figueiredo, em 1979, explica como O Globo publicou com exclusividade o projeto original da anistia política. Um “furo” jornalístico que entrou para a história.

Roberto Marinho e o então presidente Figueiredo, o último dos generais;

Roberto Marinho e o então presidente Figueiredo, o último dos generais;

Na edição online do jornal O Globo de hoje (7 jul), como parte da memória dos 90 anos do diário carioca, aparece uma peça divertida e ao mesmo tempo notável: a íntegra de uma carta escrita pelo jornalista Roberto Marinho, proprietário do jornal e da TV Globo, ao então presidente João Baptista de Figueiredo, o último mandatário do regime militar. Tratando o general de forma íntima, Marinho explica como O Globo havia conseguido publicar o projeto original da anistia política de 1979.

A carta, segundo o próprio jornal destacou hoje, visava preservar os jornalistas responsáveis pelo “furo” de reportagem e impedir represálias do governo militar. Uma cópia do decreto desaparecera do gabinete do Ministro da Justiça, Petrônio Portella, após a visita de um redator de O Globo. Veja a íntegra da carta:

“Meu caro João:

“Desde que caíram as últimas chuvas os meus telefones 205-3788, 285-3511 e 265-0335 e as linhas diretas com O GLOBO e a TV Globo emudeceram completamente.

“Ontem, às 7h da manhã, tive um sobressalto quando li O GLOBO. Principalmente porque havia visto na TV Globo o hilariante episódio do desaparecimento de uma cópia do projeto de anistia no gabinete do ministro Petrônio Portella.

“Às 9h, já no meu gabinete, convoquei os responsáveis mais diretos da redação. Deram-me as seguintes explicações: que nem por um momento eu imaginasse que o redator do GLOBO presente no gabinete ministerial houvesse se apossado do documento desaparecido; que por volta das 24h o chefe da sucursal de Brasília havia sido procurado por um rapaz que pretendia interessar O GLOBO na posse do documento; que, verificada a autenticidade, imediatamente passou os seus termos pelo telefone para O GLOBO.

“Quem chefiava a redação, já com o jornal praticamente fechado, procurou falar comigo ao telefone. Verificada a impossibilidade, resolveu assumir a responsabilidade de publicar o projeto.

“Ante a minha reação desfavorável, chegada ao seu conhecimento, escreveu-me uma carta pedindo demissão do GLOBO, o que não aceitei. Isso é tudo quanto posso dizer.

“Com um abraço muito afetuoso do Roberto.”

A casa de Marinho, onde ocorreu o  atentado terrorista em  1976.

A casa de Marinho, onde ocorreu o atentado terrorista em 1976.

Roberto Marinho e seus veículos de comunicação (jornal, rádio e televisão) apoiaram o golpe militar de 1964, que derrubou o presidente João Goulart. No entanto, apesar de ferrenho opositor das esquerdas, defendia seus funcionários acusados de subversão. Há uma frase famosa, atribuída a ele, que diz o seguinte: “Não mexam com os meus comunistas – aqui são todos bons funcionários”. Mas o que ele queria realmente dizer, arreganhando os dentes para os radicais da ditadura, era: “Aqui, quem manda, sou eu”.

Roberto Marinho – assim como o seu diretor de redação em O Globo, Evandro Carlos de Andrade -, teve papel importantíssimo na abertura política do regime. Apoiou a “anistia ampla, geral e irrestrita”, iniciada por pressão popular no governo de Ernesto Geisel – e que iria significar o fim dos “anos de chumbo”. Por causa disso, a “tigrada” dos porões da ditadura praticou um atentado a bomba contra a casa dele, no Cosme Velho (Rio), quase matando seu filho mais novo, José Roberto, que passara pelo local da explosão de uma carga de dinamite instantes antes. Três funcionários do jornalista ficaram feridos. Foi durante a onda terrorista de agosto e setembro de 1976, que também atingiu  a OAB e a ABI.

Dom Ariano Hipólito, sequestrado pela "tigrada" do regime militar.

Dom Ariano Hipólito, sequestrado pela “tigrada” do regime militar.

Mas o jornalista foi contra as “Diretas Já”. Apoiava uma transição suave e controlada para um governo civil. Como de fato se deu com Tancredo Neves, que morreu antes de governar. Marinho era católico, esportista, e um liberar em matéria econômica. Foi um visionário, tanto que construiu o maior conglomerado de empresas de comunicação do país. É possível dizer muitas coisas desagradáveis a respeito dele, especialmente relacionadas com a eleição de Leonel Brizola, em 1982, para o governo no Rio. Ou o tão falado debate entre Lula e Collor, em 1989. Mas, quem observa os acontecimentos com isenção, sabe que não teria havido a transição democrática de 1985 sem Roberto Marinho.

As novas gerações de internautas podem não conhecer os detalhes dessa história. Quem não viveu aqueles tempos, terá dificuldade para fazer um julgamento exato. Eu estava na redação de O Globo na noite do atentado. Como repórter especial, cobria o sequestro do bispo católico de Nova Iguaçu (RJ), Dom Adriano Hipólito, levado por terroristas de extrema direita. Eles o chamam de “bispo vermelho”. Ainda naquela noite, bombas incendiárias foram detonadas na Avenida Atlântica, Praia de Copacabana, cartão postal do país. Foi nas proximidades do hotel Copacabana Pálace. Era o caos.

Tantos anos distante desses trágicos acontecimentos, que resultavam em mortes e mutilações, li divertido a matéria de O Globo. Como se fosse um pesadelo esquecido. Quem não esteve nos “anos de chumbo”, não faz ideia de que país bonito é esse. Nos anos recentes, os herdeiros de Roberto Marinho, filhos e netos, disseram publicamente que apoiar o golpe de 64 “foi um erro”.

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Ultrapassamos a marca de 150 mil leitores neste site. Aqui oferecemos um jornalismo independente e sem vinculações partidárias, focado nos temas relevantes da atualidade.

Somos contra a intolerância.

Somos contra a intolerância.

A equipe deste site e seus colaboradores agradecem ao público que nos privilegia com uma leitura atenta e muitos comentários. Algumas vezes, recebemos fortes críticas, que são sempre publicadas sem restrições ou cortes. Evitamos apenas os ataques de caráter pessoal e aquelas manifestações ofensivas ao código de ética dos jornalistas.

A nossa proposta é manter neste espaço uma tribuna independente, com ampla variedade de opiniões. Representamos um segmento de mídia alternativa aos grandes conglomerados de comunicação, muitas vezes orientados, do ponto de vista editorial, por interesses políticos e principalmente econômicos. Defendemos o estado democrático de direito e a liberdade de expressão. Acreditamos que uma informação de qualidade ajuda no entendimento dos grandes temas brasileiros e internacionais, especialmente daqueles assuntos globais que têm algum tipo de consequência para o nosso país e a nossa gente.

Contra a violência de Estado.

Contra a violência de Estado.

Não temos patrocinadores. Mas achamos que uma publicidade sem interferir no conteúdo de nossas publicações é saudável e bem-vinda, porque pode proporciona a ampliação e a melhoria dos serviços ao público. Nosso projeto é transformar este espaço em uma revista eletrônica semanal de atualidades, funcionando ainda como uma agência independente de notícias, voltada ao interesse do grande público.

Lula e Mário Covas, juntos, em comício.

Lula e Mário Covas, juntos, em comício.

Somos contra todas as formas de censura, inclusive a “classificação indicativa” de programas de televisão e as tentativas de criar uma “agência reguladora” da informação. Isto representa uma interferência inaceitável do Estado, acobertando razões duvidosas. Acreditamos na regulação de mercado, na qual o próprio consumidor decide quem deve ou não merecer a sua confiança. A grande mídia, ligada às intempéries do poder, vem sofrendo um processo de encolhimento, com o cancelamento de assinaturas e perdas nas vendas e audiência. O mundo virtual, livre e quase incontrolável, se afirma mais e mais. Em um cenário como este, a interferência governamental – nem sempre explicável – é censura pura e simples.

jo soares 01

O avanço deste nosso projeto depende de todos os leitores do site, que podem (e devem) contribuir com ideias e sugestões. Vamos procurar amparo nas leis de incentivo fiscal para encontrar financiamentos. E agradecemos a todos – sinceramente – pela atenção que nos têm dispensado.

A Equipe.

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

CNBB ataca Congresso, Judiciário e ajuste fiscal do governo. A Igreja Católica afirma que há no país uma política contra os pobres e os trabalhadores.

cnbb 01

Uma análise de conjuntura política da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), datada de 30 de junho e distribuída a todos os bispos católico do país, acusa o Congresso de criar uma agenda “hostil aos direitos humanos”. Critica a politização do Judiciário, especialmente em relação à “Operação Lava-Jato”, que investiga desvios de dinheiro público para partidos e políticos. De quebra, ataca o plano de ajuste fiscal do governo, que segundo os bispos penaliza direitos trabalhistas historicamente consagrados.

Com relação ao Congresso, dirigido por “aliados” do Planalto, o documento da Igreja Católica indica uma atuação parlamentar que visa interesses políticos e econômicos. Na opinião dos bispos, o Congresso trabalha para encurralar o governo, com uma agenda “refratária à garantia de direitos”. E mais: os bispos afirmam que há uma “sub-representação” popular na Câmara dos Deputados, em razão de problemas no sistema político brasileiro. Por meio de campanhas políticas milionárias, baseadas em doações de empresas e corrupção, são eleitos representantes do empresariado e de banqueiros, com baixa atuação popular.

Os bispos católicos do Brasil.

Os bispos católicos do Brasil.

A CNBB vai além: descreve um governo refém do Congresso, como se estivéssemos num regime parlamentarista. Para dar o tom exato dessa crítica, afirma o seguinte: “(o governo)… transparecendo aturdido, é na verdade beneficiário e indutor dessa agenda (conservadora)”. Da parte do Planalto, até agora, ninguém rebateu as acusações católicas. Já dizia o ditado popular: “Quem cala, consente”.

Nas críticas ao Judiciário, mas sem referências diretas à “Operação Lava-Jato”, que apura as bandalheiras na Petrobras, os bispos asseguram que há uma crescente politização na justiça. Informam que alguns elementos dos tribunais têm “uma atuação seletiva”, com “abstração dos princípios da imparcialidade”. Pior: “(…) se estabelece um rito sumário de condenação, agravando os direitos fundamentais da pessoa humana, seja ela quem for”. Mas não para por aí: “Não se faz justiça com açodamento ou com uma lentidão que possa significar impunidade”. Questionando as “delações premiadas” (inclusive com dinheiro), dizem os bispos: “Tais práticas, realizadas com os holofotes da grande mídia brasileira, transformam réus confessos em heróis”.

Um crítica severa ao regime político brasileiro.

Um crítica severa ao regime político brasileiro.

O documento da CNBB, com pouca repercussão na mídia, é um dos mais graves questionamentos políticos a respeito do período democrático no Brasil. Sobre a política econômica do Partido dos Trabalhadores (PT), comandada por um banqueiro, santa ironia, os bispos católicos afirmaram o seguinte: “Boa para o capital, ruim para o trabalho”.

Em um país de maioria católica, a opinião dos bispos da “Igreja de Pedro” deveria fazer algum sentido. Ou não? Tudo indica que não vai fazer sentido algum em meio à crise que vivemos. Somos todos surdos?

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Câmara aprova redução da maioridade penal durante a madrugada, quando quase ninguém estava vendo.

menores criminosos 01

Quase ninguém ficou sabendo. Só aqueles “corujões” que assistem aos canais de notícias durante a madrugada. Mas foi assim: com um “golpe” regimental, a Câmara dos Deputados aprovou a mais dura legislação contra menores criminosos da historia do país. Penas de até 30 anos de encarceramento, conforme a natureza do delito.

Em plena madrugada de quarta para quinta-feira (2 jul), quando a audiência de rádio e televisão é quase igual a zero, a Câmara dos Deputados tomou a polêmica decisão de reduzir a maioridade penal no Brasil para 16 anos. Os deputados jogaram para a arquibancada: 323 votos a favor, 155 contra e 2 abstenções. Atenderam, dessa maneira, ao clamor popular que quer severa punição contra jovens infratores.

As pesquisas de opinião (Datafolha, Ibope etc) informam que quase 90% dos brasileiros perderam a paciência com a enormidade de crimes violentos praticados por menores. Assaltos com mortes (latrocínio, segundo o Código Penal), sequestros, estupros, agressão seguida de morte, os chamados crimes hediondos, agora vão levar toda uma geração ao cárcere. Nesse país não construímos muitas escolas ou hospitais – e agora vamos ter que construir muitos presídios. O escritor francês Victor-Marie Hugo (1802/85, autor de “Les Miserables”), já dizia: “Quem abre escolas, fecha presídios”. Aqui vamos ao contrário.

Vi a notícia da redução da maioridade penal no jornal da Globonews das quatro horas da manhã desta quinta. Ou algo parecido – nem lembro. (Estava estudando um texto sobre a vida de Getúlio Vargas.) Durante 30 anos, pesquisei e escrevi sobre violência urbana e crime organizado (mais de 1.700 páginas publicadas em formato de livros). A minha primeira reação foi pensar: “isso não pode ser decidido por eles”. Deveríamos ter feito um referendo popular, porque dar a esses deputados o direito de decidir sobre toda uma geração de crianças e jovens não cabe muito bem no meu modo de pensar. E quem são esses parlamentares? Nem vale repetir a coisa já esgotada.

Durante a madrugada, a redução foi aprovada em primeira votação.

Durante a madrugada, a redução foi aprovada em primeira votação.

Uma decisão de tal importância, que prevê penas de prisão de até 30 anos para rapazes e moças, não deveria estar nas mãos (ou no botão de votação do plenário da Câmara) de uma gente acusada de crimes ainda mais graves. Cerca de 40% dos parlamentares respondem (ou já responderam) a inquéritos, alguns criminais. Qual direito eles têm? Procurei na mídia (TV, rádio, Internet) uma resposta para isso. Quem sabe algum “especialista” iluminado? Não encontrei coisa nenhuma.

Como fui vencido pelo sono, deixei a questão para mais tarde. Só que ficou o âmago da dúvida: “sou a favor da redução da maioridade penal?” Sou, sim! É preciso pôr um basta na banalidade da violência. Mas não dessa forma – e não por esses agentes, tão criminosos quanto outros. Mais uma vez, procurei explicações na TV. E não encontrei nada. Aliás, reduzir a maioridade penal terá pouco efeito sobre a criminalidade. Quem se interessa pelo assunto sabe que o envolvimento de menores com o crime começa bem antes, aí pelos 10 anos de idade.  Melhor seria reformar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê obrigações do poder público com os menores. Ou revisitar a Lei de Execuções Penais (LEP), que estabelece a progressão de penas e liberta criminosos perigosos. Os governantes estão mais interessados em esvaziar presídios (e reduzir custos) do que na redução dos índices de violência. E a violência no Brasil é uma epidemia.

A aprovação da redução da maioridade penal, recusada em primeira votação por apenas 5 votos, voltou a ser discutida na madrugada de quarta para quinta-feira. O presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), criador de uma pauta conservadora para o Congresso, utilizando uma manobra regimental que não se via desde 1996, apresentou à votação uma “emenda aglutinadora”. E o que é isso? Pegou pedaços de textos de alguém, somou com outros, e pôs a questão em votação, apoiado por uma “jurisprudência” anterior. O chamado “golpe regimentar”. Tecnicamente, não há como recusar a decisão: menores com mais de 16 anos vão para a cadeia.

O projeto de emenda à Constituição ainda vai passar por mais uma votação na Câmara e duas no Senado. Parece que não há como impedi-lo. E vai entrar em vigor no ano que vem. Como consumidor da NET HD Plus, à qual pago uma grana, esperava algum tipo de esclarecimento. Não encontrei nada.

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

IBOPE: governo Dilma tem a pior avaliação desde Sarney. A pesquisa mostra uma rejeição de 83%.

Dilma: números desastrosos.

Dilma: números desastrosos.

Uma nova pesquisa do IBOPE, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e divulgada nesta quarta-feira (1º jul), mostra a pior avaliação de um governo desde o fim do regime militar (1964-1985). A sondagem de opinião pública revela que 68% dos entrevistados consideram o governo Dilma “ruim ou péssimo”. A desaprovação pessoal da presidente alcançou inacreditáveis 83%.

Segundo o IBOPE, apenas 9% consideram o governo “bom ou ótimo”. E 21% acham que é “regular”. Ou seja: o governo é aceitável para algo como 30% das pessoas pesquisadas. Dilma Rousseff venceu por pouco a eleição de outubro do ano passado. Se fosse hoje – a se confiar nesses números -, teria sofrido uma derrota arrasadora. O governo petista não consegue dar respostas à crise econômica, enfrenta um desacerto político com seus aliados e tem pela frente um Congresso cada vez mais conservador. Desastre total.

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

“Jô Soares, morra!”. Ataques ao apresentador, após entrevistar a presidente Dilma, viram sensação na Internet e revelam tímida reação da TV Globo.

jo soares 01

Corre solta nas redes sociais a notícia de ameaças à vida de Jô Soares, depois que ele entrevistou a presidente Dilma Rousseff na biblioteca do Palácio da Alvorada, em Brasília, no dia 22 de junho. O encontro foi gravado e exibido pela TV Globo por volta da meia-noite. Foi um “Programa do Jô” especial, com mais de uma hora de duração, em horário em que a audiência popular é baixíssima. Teve “chamadas” no Jornal Nacional e em todos os intervalos da programação.

Os ataques começaram pela Internet, já na noite em que a entrevista foi levada ao ar. Em seguida, um grupo de xenófobos – ainda não identificado – fez uma enorme pichação na rua de Higienópolis (SP) em que vive o humorista. Xenofobia, pelos dicionários eletrônicos, é igual a racismo e intolerância. E é crime previsto pelo Código Penal. Quem viu a entrevista, como o locutor que vos fala, por obrigação profissional, porque foi chatíssima, sabe que não tinha nada demais. Dilma se comunica mal e suas frases são recheadas de números vazios de significado para o grande público. Nunca brilhou como Fernando Henrique ou Lula, os grandes comunicadores do período democrático.

No entanto, Jô Soares tratou a presidente com educação e respeito, como cabe a tal gênero de entrevista. Não a interrompeu sem motivo. Não fez muita graça, negando um pouco a sua condição de humorista. Mas – pecado capital na opinião dos radicais – deu a ela um espaço privilegiado de exposição pública, em um momento em que o governo é acuado pela crise econômica e pelas denúncias de corrupção.

Jô Soares se defende:

Jô Soares se defende: “assustaram as crianças”. Reprodução da TV Globo.

O próprio Jô se defendeu, na última quarta-feira, utilizando o espaço de seu próprio programa: “(a pichação) assustou as crianças do bairro”. O jornalismo da TV Globo reagiu timidamente – se é que reagiu. Eu mesmo não vi nada. Algum gênio da lâmpada deve ter imaginado que defender o humorista seria defender a própria Dilma. Engano lamentável. Tratava-se da liberdade de informação. Consequência direta da crise, infelizmente, temos um país dividido. Com radicalismos cada vez mais frequentes em ambos os campos da disputa política.

Quem perde com isso? Nós, os bons, os ingênuos, aqueles que pagam impostos em dia, o público carente de informações despolitizadas (e claras) para entender o drama do país. E quem ganha com isso? Os radicais de todas as cores. Essa gente que quer ver o circo pegar fogo.

(PS: este artigo foi publicado originalmente em Notícias da TV/UOL, site comandado pelo jornalista Daniel Castro, onde obteve grande audiência. Aqui, se aproxima de mil leitores.)

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Repórter da Folha de S. Paulo, em Londres, revela trágico equívoco da polícia britânica ao matar o brasileiro Jean Charles de Menezes. Ele foi confundido com um perigoso terrorista islâmico.

jean charls 01

Uma reportagem na edição online da Folha de hoje (22 de jun), assinada por Leandro Colón, correspondente do diário paulista em Londres, revela que a Scotland Yard matou Jean Charles de Menezes por engano. O mineiro, de 27 anos, foi confundido com um perigoso terrorista da Al-Qaeda. No dia 22 de julho de 2005, uma equipe da polícia britânica disparou 7 tiros contra Jean, a maioria na cabeça, dentro de um trem do metrô londrino, na estação de Stockwell, centro da capital inglesa. Londres, nos dias anteriores, havia sofrido violentos ataques terroristas.

Jean Charles de Menezes foi confundido com Osman Hussain, extremista islâmico procurado pelas forças de segurança do Reino Unido. Ao se aproximar do brasileiro no metrô londrino, os policiais não fizeram nenhuma pergunta, disparando para matar. Jean era um imigrante em situação duvidosa na Inglaterra, supostamente um clandestino. Fazia “bicos” como eletricista, em obras na capital, para sobreviver. Portava uma mochila nas costas, na qual os policiais achavam que havia uma bomba. Por isso atiraram na cabeça, para não dar a ele o tempo de acionar um detonador que não existia.

Os pais de Jean Charles, no interior de Minas.

Os pais de Jean Charles, no interior de Minas.

A Scotland Yard não encontrou nada comprometedor no interior da mochila, de acordo com a matéria da Folha. Muito menos uma bomba. Havia até uma ilustração de Nossa Senhora Aparecida, provavelmente obtida na basílica do interior de São Paulo. Os policiais que o mataram foram absolvidos. E o governo britânico fez um acordo com a família de Jean Charles de Menezes, um pessoal humilde de Gonzaga, no interior mineiro. Os valores jamais foram revelados. O crime foi há dez anos.

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Polícia Federal dá lição ao país e prende onze executivos das maiores empreiteiras. Inclusive os presidentes da Andrade Gutierrez e da Odebrecht. A nova fase da “Lava-Jato” ameaça PSDB e PT.

Delegados da PF durante a coletiva. Foto da Folha.

Delegados da PF durante a coletiva. Foto da Folha.

Na madrugada dessa sexta-feira (19 jun), centenas de agentes federais foram mobilizados para prender a elite dos executivos de empreiteiras brasileiras, inclusive os presidentes de duas das maiores companhias do país, a Andrade Gutierrez e a Odebrecht. Trata-se da 8ª fase da “Operação Lava-Jato”, que investiga o chamado “petrolão”. Em entrevista coletiva na manhã de hoje, os delegados da PF disseram: “ninguém está acima da lei, nem por seus altos cargos, nem por seu poder econômico”. Esses homens do poder são acusados de um desvio inacreditável de dinheiro público, em torno de 20 bilhões de reais.

As acusações: formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e formação de cartel para fraudar licitações públicas. Para quem não sabe, crime organizado é isso: gente acima de qualquer suspeita roubando descaradamente. E roubando bilhões! O mesmo tipo de pessoa que defende o endurecimento das leis contra os pobres. Nesse caso, os delegados federais disseram que os crimes ocorriam há mais de 15 anos. Portanto, atingindo governos do PSDB e do PT. Se 20 bilhões de reais virassem comida, não haveria mais famintos no Brasil.

Empreiteiros presos, em reprodução da Folha.

Empreiteiros presos, em reprodução da Folha.

Evidentemente, uma ação policial desta envergadura mostra que o Brasil está consolidando as instituições democráticas. Mas as dúvidas continuam: por que a PF ainda não investiu contra os políticos envolvidos na maracutaia? Porque precisa de autorização do Judiciário, uma vez que os políticos dispõem de foro privilegiado. E por que o Judiciário não dá autorização? Essa pergunta ainda não tem resposta. Mas a própria PF nos dá uma pista: “Estamos atrás dos empregadores, não dos empregados” (ver a edição online de hoje da Folha de S. Paulo). Isto significa que os políticos são apenas “empregados” do poder econômico. Quem manda mesmo são os empreiteiros. Quanto maiores, mais poderosos, controlando a política através de doações de campanha ou de propina.

Este é o nosso país, sem maquiagem. Os investigadores da “Lava-Jato” também informaram que os crimes cometidos vão além da Petrobras, atingindo muitas outras obras públicas. Entre elas, a construção da usina nuclear de Angra 3. Agora: imagine esse tipo de gente construindo uma usina nuclear.

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário