Reduzir a maioridade penal é necessário. Mas como?

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Vários dos meus leitores, além de pessoas conhecidas, têm perguntado a respeito da redução da maioridade penal no Brasil, hoje fixada em 18 anos. A pressão da criminalidade, na maioria dos casos envolvendo menores, leva a opinião pública a um verdadeiro clamor. A mídia faz campanha, em particular nos telejornais, para obter respaldo. Como estamos carecas de saber, nossos códigos penais são atrasados. Foram produzidos numa época em que não havia uma violência tão devastadora. O Código de Processo Penal é de 1941, época em que as maiores ameaças à segurança pública eram a navalha, a capoeira e o batedor de carteiras.

Há no país uma espécie de guerra civil não declarada: os que não têm nada contra os que têm alguma coisa. Mata-se por um tênis usado, um celular (no mercado negro vale 30 reais), um carro (os receptadores pagam 5 mil reais por um Honda Civic zero quilômetro). Qualquer coisa pode custar uma vida.

O número de latrocínios na cidade de São Paulo aumentou 70%, comparado ao mês de abril do ano passado. E o pano de fundo da onda de violência é o consumo de drogas e álcool, completamente fora de controle, lém do envolvimento de crianças e adolescentes.

Um menor que cometa um crime de morte, se apanhado pela polícia, coisa rara diante das estatísticas (a polícia só resolve 4% dos casos),  vai para a Fundação Casa. Lá passa no máximo três anos, cumprindo “medida sócio-educativa”. Depois sai completamente limpo. A reincidência, no entanto, é assustadora. Na maioria ds crimes, 70%. No tráfico de drogas: 90%. Os números revelam o fracasso total.

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O Estatuto da Criança e do Adolescente, no gênero, é uma das mais avançadas leis do mundo. Mas os legisladores confundiram carentes e abandonados com criminosos. Tratam os dois tipos da mesma maneira. E aí está o grande equívoco. Dito isso, aqui vai a minha opinião:

  1. Redução da maioridade penal para 14 anos.
  2. Os menores devem ser condenados pelas leis naturais do delito. As atenuantes previstas devem ser consideradas na condenação.
  3. Cumprir a pena em estabelecimento prisional especial. Regime de educação e profissionalização, com redução da pena para cada dia de estudo e trabalho.
  4. Aplicar as penas de detenção apenas aos crimes hediondos, cometidos com extrema violência (homicídio, latrocínio, sequestro, agressão incapacitante etc). Especialmente, devem ser aplicadas aos reincidentes, que perderiam o benefício das reduções.

Esse seria o melhor dos mundos. Teria consequências imediatas sobre a criminalidade. Os adultos que exploram crianças no crime também deveriam receber penas adicionais por isso. Com essas mudanças, surgem problemas enormes: construir as cadeias; contratar professores e educadores; capacitar os administradores e guardas. São muitas questões complicadas. No entanto, é uma ótima oportunidade para buscar parcerias com a iniciativa provada, oferecendo redução de impostos federais e estaduais àquelas empresas que se envolveram.

Mas tudo isso depende do Congresso Nacional. E esse talvez seja o pior dos problemas!

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Governo compra aprovação da MP dos portos por 1 bilhão

 

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A aprovação da medida provisória da modernização dos portos custou ao país a bagatela de 1 bilhão de reais. Foi por meio da liberação dessa polpuda quantia para as Emendas Parlamentares ao Orçamento da União, uma das maiores fontes de corrupção no país. Cedendo à pressão dos “aliados”, o Planalto abriu a bolsa. Conseguiu os votos necessários ao atendimento de uma necessidade real – a modernização dos portos -, mas foi vítima de uma chantagem cínica e indigna, praticada dentro do Parlamento.

Ficamos todos espantados ao ver uma sessão da Câmara se arrastar até altas madrugadas. Parecia que os senhores deputados estavam dando duro para o bem do Brasil. Mas, no fundo, rolava uma negociata inacreditável. Todo mundo sabe o que são essas Emendas Parlamentares ao Orçamento da União: é por meio delas que os deputados conseguem dinheiro para obras em seus estados, todas superfaturadas, sem fiscalização, que enriquecem uma camarilha que só vive disso. É assim também que conseguem dinheiro para as campanhas eleitorais, em troca de favores concedidos a empreiteiros.

A situação dos portos brasileiros é vergonhosa. Estamos carecas de saber. Embarcar uma carga custa três vezes mais do que nos portos mais importantes do mundo. E com um serviço vagabundo: gigantescas filas de caminhões, cargas perecíveis expostas ao sol etc. Tem fila até de navios. De Santos e Paranaguá saem containers lotados de cocaína e contrabando destinados à África e Europa. Mas isso é o de menos: o problema maior é que o custo e a demora detonam a competitividade de nossos produtos de exportação.

Tudo bem. Precisávamos fazer alguma coisa – e o governo editou a Medida Provisória para a nova “abertura dos portos”, desta vez ao capital privado. Sou favorável à parceria público-privada, mas é preciso não confundir essa “privada” com aquele objeto de uso nos banheiros.

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Juiz manda para casa o assassino de Hiromi

Sérgio Gadelha em foto da Folha de S. Paulo

Sérgio Gadelha em foto da Folha de S. Paulo

O advogado Sérgio Brasil Gadelha, preso na última segunda-feira (22 de abril), após confessar o brutal assassinato da mulher, Hiromi Sato, já está solto. Ficou detido por 48 horas, em cela especial da 31ª. DP. Cela especial por ter nível superior de ensino, mesmo tendo espancado e estrangulado a companheira num apartamento de classe média em Higienópolis. A violência do crime, que chocou até mesmo os policiais que prenderam o advogado, não foi suficiente para que a Justiça reconhecesse a periculosidade desse homem.

O juiz da 1ª. Vara do Tribunal do Júri decretou a prisão preventiva do acusado até o ano de 2022. Mas, no mesmo despacho, determinou que ficasse em “prisão domiciliar até o julgamento”. A primeira coisa que Sérgio Gadelha fez ao deixar a delegacia foi hospedar-se num hotel – e não foi para o seu “domicílio”, como mandou o magistrado.

Infelizmente, a verdade é que ele está livre. Ou alguém acredita que a polícia vá fazer um plantão na Rua Pará, onde fica o apartamento? Não somos capazes nem de proteger as escolas, quanto mais vigiar um criminoso que está nas ruas por ordem judicial. Aliás, essa prisão domiciliar até parece piada. Pimenta Neves matou a namorada com dois tiros pelas costas e passou onze anos “detido” numa mansão no Alto da Boa Vista.

Vamos ser realistas: há casos de homicídio em que a Justiça não julga o acusado em vinte anos, o que provoca a prescrição do delito. E os números da violência só fazem aumentar, soprados pelos ventos da impunidade.

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Morte de Hiromi Sato reacende a luta contra a violência doméstica

Hiromi e Sérgio Gadelha

Hiromi e Sérgio Gadelha

 

Escrevi este artigo em memória de Hiromi Sato, assassinada pelo marido no fim de semana (20/21 de abril). Foi no apartamento do casal, em Higienópolis, São Paulo. O crime brutal chocou o país. E levantou ainda mais alto a bandeira da luta contra a violência doméstica e o massacre de mulheres.

 

O holocausto de Hiromi Sato

Carlos Amorim

             Enterramos a Hiromi na manhã da terça-feira. Um dia luminoso e frio. Nós a colocamos na terra avermelhada do Cemitério da Paz, entre árvores antigas e vegetação bem cuidada. Os sons do sino de cobre budista perambulavam entre nossa dor e pesar. Como se viessem do próprio ar. Um alívio precário e sutil para tanto sofrimento. Os cânticos do sutra dos mortos, na voz perfeita do monge, se repetiam como um mantra. Versos que falam do nascimento e da vida – e não dos horrores que presenciamos nos últimos dias. Aquele sacerdote veio do mosteiro do Jardim da Saúde, bairro onde Hiró, como a chamávamos carinhosamente, passou a maior parte da vida.

Tive dificuldade para reconhecer a Hiromi Sato no velório. Protegida por maquiagem pesada, não era mais a mulher que conheci. O sorriso fácil que ela tinha –  ao mesmo tempo tímido – desapareceu. Os dentes dela foram quebrados. E a prótese mortuária que colocaram no lugar mantinha os lábios entreabertos numa súplica estranha. Cremes e tintas disfarçavam um trauma sofrido na face esquerda, além de incontáveis pequenos ferimentos no rosto.

Hiromi foi assassinada pelo próprio marido, o advogado Sérgio Gadelha, um homem ensandecido.

A violência que desabou sobre ela foi tamanha, que os peritos disseram que vai ser difícil precisar a hora do crime. Tantos foram os ferimentos e lesões por todo o corpo. Estava arrebentada na parte posterior do crânio. No colo e no pescoço havia um enorme hematoma roxo, resultado do estrangulamento. Entre o tórax e a barriga, outra grande mancha escura, possivelmente por conta e uma hemorragia interna, talvez consequência de um pisão ou de pontapés.

Assim foi o holocausto de Hiromi Sato.

Ela não tinha ferimentos nas mãos. Nem unhas quebradas. Isso seria típico de quem tentou se defender. O marido assassino, bem maior e mais pesado do que ela, não apresentava um único arranhão que se saiba. Hiró não pode se defender. Ou não teve tempo. Ou não estava consciente. Talvez a pancada na cabeça a tenha desacordado. E o massacre veio depois, covardemente.

Os dois se conheciam há uns trinta anos, trabalharam juntos. Mas estavam casados há pouco tempo. Talvez uns dois anos. Sérgio disse que era apaixonado e a matou por ciúmes de um antigo namorado. Nem o calçamento de pedra do cemitério acredita nisso.

Eu gostava do Sérgio. Era um cara brincalhão, divertido, piadista. Contava histórias de suas viagens, citava poesias de memória. Falava um inglês macarrônico, porém corretíssimo. Quando bebia – e o sujeito bebia muito -, mancava ainda mais da perna direita e ficava mais engraçado. Sérgio e Hiromi estiveram na minha casa várias vezes. Mariê e eu os recebíamos com satisfação. Nunca vi um gesto que fosse de agressividade entre eles. Mas Hiromi foi morta a pancadas. E o Sérgio que eu conhecia se dissolveu numa névoa de malignidade. Para mim, o monstro apareceu de repente, no último fim de semana. Agora só o vejo pela televisão e nas fotos dos jornais. Está calmo e distanciado. Traz no rosto uma arrogância inexplicável. O policial que o prendeu contou que estava sentado no sofá da sala assistindo a TV. Enquanto a mulher, caída no chão do quarto e quase nua, queimava o seu último carma. De Sérgio, os vizinhos falam barbaridades. Inclusive que correu com uma faca atrás de uma das suas ex-mulheres. Têm medo dele. Nós não sabíamos dessas coisas. Tinha até outras passagens pela polícia.

Algemado e sendo colocado no camburão da polícia, diante das câmeras, falou aos repórteres sumariamente: “não tenho nada a dizer”.

A confusão no apartamento da Rua Pará começou na sexta-feira. Os viszinhos ouviram gritos e coisas se quebrando. Os vizinhos – repito – tiveram dificuldade para dormir, tão grande foi a barulheira. E os desentendimentos continuaram na madrugada do sábado. Depois, o silêncio sinistro. Todos nós achamos que foi aí que ela morreu. Por volta da meia-noite de domingo para segunda, a filha do Sérgio  chegou de viagem. Juliana telefonou para o apartamento e o pai teria dito a ela: “venha rápido para cá, porque fiz uma grande bobagem”. Imaginem: uma bobagem. Hiró já estava morta. Há quanto tempo, não se sabe.

Sérgio não fez qualquer tentativa de pedir ajuda para a mulher. Curioso: o porteiro reparou que ele saiu do prédio duas vezes. Mas não pediu socorro a ninguém. Foi comer alguma coisa? Quem sabe um cinema? Ou comprar outra garrafa de uísque? Ninguém sabe.

Ao chegar à cena do crime, Juliana ligou para Tomi, irmã da mulher trucidada. Disse que era preciso chamar uma ambulância, porque Hiromi “está muito mal”. Tomi ligou e disparou em seu carro para o apartamento de Higienópolis, imaginando que fosse uma crise glicêmica da irmã diabética. Mas, como sabemos, Hiromi já era. Tomi viu o corpo da irmã jogado no chão, ensanguentado. Ao chegar ao apartamento, os paramédicos que lá estavam já haviam se dado conta de que era um homicídio e chamaram a polícia.

Este é – resumidamente – o roteiro da tragédia que caiu sobre todos nós no último fim de semana. É o texto de uma violência desmedida que nos deixa sem saídas. Espero que os juízes que vão decidir o caso tenham piedade de nós. Tenham pena de nós, que ficamos por aqui.

Para a pequena Hiromi, que tinha mãos de criança, desejo a luz e um silêncio delicado que possa lavar seus gritos em nossas mentes. E deixar só o sorriso fácil e meio tímido.

A você, Sérgio, desejo sinceramente que apodreça no fundo de uma cela. E que nunca mais veja a luz do sol.

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Forças Armadas a passo de tartaruga

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O reaparelhamento das Forças Armadas brasileiras, prometido desde o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, caminha a passos de tartaruga. Reafirmado por Lula e Dilma, o projeto de modernização mal saiu do papel.

Houve investimentos nas áreas de pesquisa e formação de comando, mas o cofre do governo ainda não se abriu, como estava previsto. E pelo jeito também não vai se abrir em 2014, porque o dinheiro não está previsto no orçamento da União.

À medida que o Brasil se desenvolve – somos a 6ª. economia do mundo -, aumentam as exigências e as preocupações na área da defesa. Temos vizinhos instáveis, como Colômbia e Venezuela. O narcotráfico é um problema gravíssimo em nossas fronteiras. Comandamos uma força internacional de paz no Haiti que já consumiu bilhões de reais. E o mais grave: boa parte das reservas de petróleo do pré-sal estão fora das águas territoriais brasileiras, no oceano Atlântico, o que demandaria uma força militar de dissuasão que não possuímos. Além do mais, o Brasil pretende um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, pressupondo que tenha uma força de intervenção rápida.

O país firmou um acordo de cooperação com a França para a construção de cinco submarinos, Um deles, movido a propulsão nuclear, poderia ficar até um ano submerso, sem precisar vir à superfície para reabastecimento. A França prometeu transferir ao país a tecnologia da moderna guerra não visual, passo decisivo ao desenvolvimento da indústria do setor. Mas o governo não presta contas e a opinião pública não sabe a quantas anda o projeto.

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A compra de jatos supersônicos de combate para a FAB, avaliada em muitos bilhões de dólares, também não aconteceu. Nossos F-5 e Mirage, fabricados nos anos 1960/70, estão em petição de miséria. Desatualizados e inseguros, não servem mais para missões de ataque e interceptação.  Houve uma forte discussão acerca de quem forneceria os aviões: americanos, russos, franceses, ou suecos? Nada se resolveu. Aparentemente o mais adequado ao tamanho de nosso país era o Sukhoi russo, que tem autonomia de voo para cobrir todo o território nacional ou chegar às capitais dos vizinhos. Com Obama, a pressão foi grande para comprarmos o F-18 Hornet. E os franceses, durante um encontro presidencial com Lula, anunciaram a venda de Mirages ao Brasil, o que foi desmentido pelos fatos seguintes. Há quem comente que Lula havia se comprometido com os franceses, o que interrompeu todas as negociações.

O Sukhoi russo

O Sukhoi russo

 

 

Em fevereiro deste ano, Dilma, num encontro com o primeiro-ministro russo Dmitri Mevedev, acertou a compra de lançadores de mísseis antiaéreos Pantsir-S1, capazes de atingir alvos em movimento a 15 quilômetros de distância. O Pantsir dispõe de seis tubos de lançamentos de foguetes, montados sobre um veículo especial onde há radares com alcance de 36.5 quilômetros. A compra é da ordem de US 1 bilhão. Se destina à proteção do espaço aéreo brasileiro durante as Olimpíadas de 2016. Os russos são famosos por não cumprir os prazos de entrega de seus brinquedinhos militares.

O Brasil acertou também a compra de 3.000 blindados para reaparelhar as brigadas mecanizadas do Exército, especialmente no sul do país. Alguns tanques pesados da classe Leopard, fabricados na Alemanha, já chegaram. Outro dia vimos pela televisão a passagem de quatro deles pela Marginal Pinheiros, em São Paulo, armados com canhões de 105mm e metralhadora. Mais uma vez, o público não tem informações sobre isso. O que é uma grande bobagem, porque no mundo da indústria bélica não há mais segredos.

Conseguimos desenvolver um novo fuzil leve de assalto, o IA2 5.56mm, totalmente nacional. A nova arma padrão das Forças Armadas veio substituir o antigo FAL 7.62mm. Este foi um passo importante, apesar de críticas de muitos especialistas, alguns dos quais se manifestaram aqui no site. De todo modo, dá início à produção de armas de infantaria com tecnologia nacional.

Compramos quatro aviões não tripulados da classe Predator (modelo SQ-450), que deveriam equipar a Polícia Federal e a FAB na proteção das fronteiras. Durante os testes da aeronave, pistas clandestinas do narcotráfico foram localizadas e destruídas. Mas os Vants têm muitos problemas e os da PF estão parados por falta de um contrato de manutenção. As aeronaves não tripuladas devem ser empregadas durante a Copa do Mundo.

Ou seja: algumas coisas avançaram, mas o grande projeto de reaparelhamento das Forças Armadas vai devagar e aparentemente sem um plano estratégico.

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O povo quer justiça. Os políticos, continuar a bandalheira

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Há um clamor público contra a banalização da violência que atinge o país. E um clamor ainda maior para tornar a Justiça mais rigorosa, com penas mais severas. A mídia não fala em outra coisa. Na televisão, os programas de jornalismo, especialmente os vespertinos, que duram horas e horas, tratam desse tema todos os dias. Os apresentadores, quase todos gordinhos e vociferantes, pedem pena de morte e prisão perpétua. Chamam os criminosos de “canalhas”, “covardes” e “monstros”. Exigem sangue em troca das vítimas cada vez mais frequentes. Um desses programas mostrou um ladrão preso numa grade de ferro, pontiaguda, que atravessou o homem pela virilha. Enquanto o ladrão gania de dor, o apresentador, sorrindo, dizia: “Agora a lança dele não sobe mais”.

                      Chegamos a um clima de barbárie. Mulheres grávidas e crianças são baleadas por assaltantes impiedosos, muitos dos quais são apenas crianças. O sentimento popular é de vingança, linchamento, encarceramento definitivo dos criminosos. E não é à toa: no ano passado foram registrados 6 milhões de assaltos a mão armada – e nós sabemos que menos da metade dos roubos chegam ao conhecimento da polícia; 36 mil pessoas foram mortas por armas de fogo, de um total de mais de 50 mil homicídios; a Polícia Federal apreendeu 26 toneladas de cocaína e crack, além de 400 toneladas de maconha – e nós sabemos que as apreensões representam apenas 10% do movimento total das drogas. É o inferno na Terra.

                      Nas ruas das grandes cidades uma legião de viciados se amontoa nas calçadas. É mais fácil – e mais barato – comprar drogas do que remédios. O alcoolismo virou uma epidemia entre jovens de 12 a 18 anos. Temos meio milhão de criminosos trancafiados em presídios (170 mil só em São Paulo), mas isso parece não adiantar em nada. Há na capital paulista quase 200 mil mandados de prisão para serem cumpridos – e outro tanto no Rio de Janeiro. Se fôssemos prender todos eles, não haveria cadeias, num país que não constrói nem escolas. Se fôssemos matar todos eles, não haveria onde enterrá-los. É um beco sem saída.

                      O povo quer punições mais duras. Mas as nossas leis são ultrapassadas. O Código de Processo Penal foi escrito em 1940 e publicado um ano depois. Naquela época não havia nada do que vivemos hoje. Nossas leis ainda não definiram o que é crime organizado ou organização criminosa. Por que? Porque nossos legisladores – os deputados e senadores – não querem fazer isso. Eles não fazem nada que possa eventualmente cair sobre as suas próprias cabeças. E não custa lembrar: 40% de todos os parlamentares respondem a processos, muitas vezes criminais. É por isso que rico não fica preso. Cadeia é lugar para os PPFs: pobre, pretos e favelados.

                      A Justiça tem uma dissimetria de classe. Você pode pagar bons advogados? Ah, então vai tudo bem. Não pode? Azar o seu. As leis foram feitas pelos poderosos e para os poderosos. E mesmo quando são boas, não são aplicadas ao populacho em geral. Dá vontade de desistir.

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                      Mas é bom lembrar de uma coisa importante: o  cidadão possui uma arma única e decisiva. É o voto! Em vez de eleger deputados em troca de farinha e dentadura, votar nos representantes das causas populares, dos movimentos sociais, minorias e gente disposta e defender as mudanças necessárias. Porque para combater o crime e a violência é preciso três coisas essenciais: emprego, educação e decência. Ou não haverá luz no fim do túnel.

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Santa Catarina em chamas: o PGC ataca

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Nas últimas duas semanas, mais de oitenta atentados atingiram 26 cidades de Santa Catarina. Com medo, a população não sai mais de casa depois de escurecer. Os ataques foram feitos para gerar o caos: dezenas de ônibus incendiados, postos da polícia e viaturas foram alvo de bombas e tiros, até o comércio sofreu com incêndios. De repente, um dos estados mais tranquilos do país vira um inferno. Por que?

                      O governo catarinense admite que os ataques começaram depois que detentos do presídio central sofreram violências após um protesto. Todos viram pela televisão que os presos foram amontoados em um pátio, vestindo apenas cuecas. Sobre eles a tropa de choque lançou gás de pimenta e balas de borracha, disparadas por carabinas calibre 12. Foi o estopim da crise.

                      O governo catarinense também diz que a onda de violência foi “ordenada por uma facção criminosa”. Ou seja: criminosos aprisionados teriam poder suficiente para mobilizar bandos armados nas ruas e encurralar a segurança pública. É uma confissão de falência da autoridade. Mas que facção criminosa seria essa, capaz de tamanha demonstração de força? As autoridades não falam e a mídia não explica. Como era de se esperar, os políticos locais ficam em completo silêncio.

                      Vamos esclarecer: essa organização se chama Primeiro Grupo Catarinense (PGC), aliada do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital, o temido PCC paulista. O grupo se dedica ao tráfico de drogas,  contrabando de armas e roubo de veículos e cargas. Todas as cidades onde ocorreram os atentados ficam no litoral de Santa Catarina, justamente onde a venda de drogas é intensa. O PGC existe há alguns anos, mas a opinião pública não sabe. Certos membros da organização cumpriram pena em São Paulo e no Rio. Isso explica a ligação com o CV e o PCC.

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O Ministério da Defesa adverte: terroristas cibernéticos podem atacar na Copa 2014

                      A notícia, publicada pela Folha de S. Paulo no dia 31 de janeiro, parece alarmista. Mas tem uma fonte segura: o  coronel Eduardo Wallier Vianna,  coordenador do Centro de Defesa Cibernética do Ministério da Defesa. Segundo o militar, terroristas internacionais e criminosos podem aproveitar o campeonato mundial de futebol para nos atacar.

                      Os alvos principais da ação dos piratas de computador seriam a base de dados das empresas responsáveis pelos ingressos dos jogos e o controle de tráfego aéreo dos principais aeroportos. Ingressos falsos, porém perfeitos, invadiriam o país. “Isso pode gerar confusão, tumulto, mortes” nos estádios, disse o coronel.

                      Se o controle de energia dos aeroportos for atacado, o sistema de tráfego aéreo para. Os voos não chegam a seus destinos. Passageiros não embarcam. É o caos. O Brasil passaria por um vexame mundial, com enormes riscos de segurança.

                      Os crimes cibernéticos crescem a uma velocidade absurda no Brasil. Violações de privacidade, fraudes bancárias, contrabando de dados sigilosos, espionagem… tudo isso e muito mais atormentam o cidadão e as empresas.

                      O Ministério da Defesa só não explicou o que pode ser feito para evitar a tragédia.

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O massacre em Newtown recoloca a questão da venda de armas nos EUA

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Todos nós acompanhamos – estarrecidos – pela televisão, ao vivo, a nova matança de inocentes nos Estados Unidos. Dessa vez, numa escola de primeiro grau, para crianças de cinco a 12 anos de idade. Foi na pequena cidade de Newtown, com apenas 20 mil habitantes, bem menor do que alguns bairros paulistas, no estado de Connecticut, a 60 e poucos quilômetros de Nova York, também chamada de “capital do mundo”.

                      E mais uma vez – tragicamente – foi um jovem de 20 anos o autor do novo massacre. Adam Lanza, segundo a mídia americana, era considerado “brilhante, genial, inteligentíssimo”. Talvez a ponto de se armar com duas pistolas e um rifle semi automático, calibre 223, munição de alta velocidade inventada pela Remington, um dos maiores fabricantes de armamentos do mundo ocidental. E genial a ponto de invadir a escola onde a mãe dele, Nancy, era professora primária. E de trucidar 20 crianças, num total de 28 mortos, onde se inclui o próprio Adam. Esse rapaz ensandecido disparou mais de 110 vezes contra as crianças, trocando os carregadores das armas. Matou também a diretora da escola e um psicólogo. Vestia roupa de combate, camuflada, com colete à prova de balas. Tudo vendido legalmente nas melhores lojas do gênero.

                      Todos nós vimos, pela televisão, o presidente americano, Barak Obama, chorando diante das câmeras. Mas nenhum de nós ouviu dele uma única frase contra a indústria de armamentos nos Estados Unidos. Aliás, as armas usadas no massacre na Sandy Hook Elementary School haviam sido compradas, legalmente, pela mãe daquele monstro.  

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                      Uma informação da correspondente do Jornal Nacional (TV Globo) em Nova York, na noite do massacre, 14 de dezembro, dava conta de que há nos Estados Unidos 30 milhões de armas de fogo nas mãos de cidadãos comuns. Isso sem contar os arsenais militares e das forças policiais.

                      É bom lembrar que um, entre cada dez trabalhadores americanos, é empregado de empresas ligadas à indústria bélica. Ou seja: 10% da força de trabalho da maior economia do mundo, cujo PIB, apesar da crise, é superior a 13 trilhões de dólares. Acho que Obama se lembrou disso ao falar à imprensa mundial.

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PCC faz “conference call” na cadeia

 

A liderança do Primeiro Comando da Capital (PCC) realizou um encontro anual da organização, com criminosos presos e também com aqueles que estão em liberdade, para tomar decisões a respeito do futuro da facção criminosa. Foi uma “conference call” (conferência por telefone), prática muito usual em grandes empresas. Todos os participantes podem falar e todos escutam, através de um sistema de telefonia celular com um software que reúne todos os números numa mesma chamada.

A “Convenção do PCC” teve início às 16h31m no dia 2 de fevereiro de 2011 – e só terminou às duas e meia da manhã do dia seguinte. A operação telefônica, centralizada no Presídio 2 de Presidente Venceslau, penitenciária dita de segurança máxima, no interior de São Paulo, foi acompanhada – e possivelmente gravada – pela Polícia Federal, com a participação de agentes da polícia paulista.

Cinco criminosos da elite da facção estavam na “conference call”, dois encarcerados naquele presídio e três nas ruas. O tema dominante foram negócios ligados ao tráfico de drogas e aos investimentos da organização. A história fantástica desse episódio está publicada nos jornais “Folha de S. Paulo” e “Agora”, nas edições de hoje (5 dezembro 2012).  

A pergunta que não quer calar é a seguinte: como algo assim poderia ocorrer sem a conivência dos agentes penitenciários? De janeiro até outubro, foram apreendidos mais de 8 mil telefones celulares dentro das cadeias paulistas. Como entraram esses aparelhos? A resposta é simples: corrupção e mais corrupção! O governo paulista alardeou as 8 mil apreensões, mas isto só revela a dramática fragilidade do sistema penitenciário.

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