Lula resiste e não se entrega a Sérgio Moro. Refugiado no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde tudo começou, ganha tempo. Quer tentar recursos judiciais e aumentar a mobilização. Mas é uma questão de tempo.

sindicato do ABC apoia Lula 01

Na porta do sindicato. Imagem TVT.

 

                                   O ex-presidente, após a decretação da prisão, foi buscar abrigo entre sindicalistas, movimentos sociais e militantes do PT em São Bernardo do Campo. Milhares atenderam à convocação de impedir a execução do mandado de Sérgio Moro. Lula e o PT foram surpreendidos pela velocidade da reação do magistrado de Curitiba, o xerife da Lava Jato. Enquanto os advogados de defesa conversavam, Moro atropelou os prazos legais e mandou prender.

                                   Lula e o PT acreditavam que ainda poderiam apresentar embargos dos embargos e coisas que tais. Mas o juiz atropelador entendeu que a recusa do STF ao habeas corpus do metalúrgico nordestino, duas vezes presidente do Brasil, transmitida ao vivo pela TV, tornava o feito um fato público e notório. O TRF-4, a segunda instância do processo, achou o mesmo. E autorizou Moro a agir, antes mesmo da publicação da decisão do STF. Daí adiante, a coisa se complica.

                                   Lula não se entregou. Apoiado por milhares em São Bernardo, desobedeceu. Para evitar um grave conflito, com cenas de violência que correriam o mundo, as autoridades resolveram esperar. Mas há negociações que a gente não entende muito bem. Lula evitou subir no carro de som e fazer um discurso que poderia ser entendido como uma senha para a resistência radical. Certamente, resultaria em conflitos de rua.

                                   Como tem um instinto conciliador (“Lulinha Paz e Amor”, slogan da campanha de 2002), preferiu jogar um jogo de paciência. A polícia não poderia (ou não deveria) invadir o sindicato para prendê-lo, sob pena de martiriza-lo. E ele não iria se render, sob pena de desmobilizar a militância. Sinuca de bico. No interior do sindicato, segmentos mais radicalizados do PT queriam o chamamento à resistência. A ala parlamentar do partido (e os advogados) argumentavam que Lula é um estadista, mundialmente reconhecido, e não poderia romper a estrutura   jurídica do país.

sindicato do ABC apoia Lula 02

O metalúrgico nos anos 1980;

                                   Em política, quando há um impasse, é melhor esperar mais um dia.

                                   Fato: Lula será preso, amanhã ou depois. Ele queria se entregar na segunda-feira (9 abril), mas a Polícia Federal recusou a proposta. Deve se render amanhã, sábado, após uma missa que comemora os 68 anos que Dona Maria Letícia faria nesta data. Vai haver um grande comparecimento ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde será a celebração. A prisão (ou a entrega) pode acontecer em seguida, em clima de grande comoção. E ele, finalmente, fará um pronunciamento público.

                                   Enfim, nos próximos dias, haverá uma forte alteração no quadro político e eleitoral. Em qual direção? Os historiadores do futuro é que devem comentar.  

                                  

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

PF aperta o cerco contra Temer: foram presos o coronel Lima, o advogado José Yunes e o ex-ministro Wagner Rossi, que a polícia diz serem cumplices na organização criminosa instalada no Planalto.

carne fraca 02

Temer e Gedel. As mesmas acusações. Foto Agência Brasil.

                                    Dezenas de agentes federais foram às ruas nesta 5ª feira (29 mar) para prender três amigos íntimos e conselheiros do presidente Michel Temer. José Yunes, advogado, apontado como cúmplice em operações de corrupção; o famoso coronel Lima, tido como “laranja” de Temer na recepção de dinheiro ilegal; Wagner Rossi, ex-ministro da agricultura, também chamado de “o ministro do agronegócio”; além do dono da empresa Rodrimar, Antônio Celso Greco e outros dois desconhecidos. Todos investigados no inquérito de propinas na edição de um decreto presidencial que beneficia empresas de transporte e cargas no poro de Santos.

                                   Este inquérito foi justamente aquele que o diretor-geral da PF, indicado por Temer, disse que deveria ser arquivado por falta de provas. O delegado caiu logo depois, em meio a uma revolta na corporação. Mas, em seguida, foi presenteado com um cargo na embaixada brasileira em Roma. Pelas prisões de hoje, nota-se: devem haver provas de sobra contra a gangue. As ordens de prisão foram pedidas pela procuradora-geral Raquel Dodge – e aceitas pelo ministro Luiz Roberto Barroso, do STF.

                                   A operação de hoje empurra Temer ainda mais contra a parede. Construiu um time de governo repleto de acusados (ou suspeitos) de crimes. Perdeu oito ministros e secretários no primeiro ano de ocupação do Planalto. Depois passou por uma resistência da própria base parlamentar, que temia a reforma da previdência, altamente impopular para um esquema de poder que amarga os piores índices de aprovação da história. Esses parlamentares precisam se reeleger para escapar da justiça comum. Agora vão abandonar Temer como uma manada em busca de salvação. Deve perder inclusive o primeiro-ministro Henrique Meirelles, da Fazenda, tido como autor de uma recuperação econômica que ninguém vê, abanada pela grande mídia.  

                                   Ou seja: o governo Temer acaba em abril. E como Michel diz que também será candidato (“seria uma covardia não me candidatar”), estaremos entregues ao Deus-dará. Rodrigo Maia, o primeiro na linha de sucessão, também anuncia candidatura. O presidente do Congresso, Eunício Oliveira, idem. Sobra Carmem Lucia, do STF, que só fica no cargo até setembro.  O que será, que será?   

                                   É uma mixórdia geral!

       

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

STF concede salvo-conduto a Lula até o julgamento final do habeas corpus. A decisão, com folga de votos, revela uma mudança na corte: está para cair a prisão em segunda instância.

stf-01

O Supremo Tribunal Federal. Foto da Agência Brasil.

            Por 7 a 4 ficou decidido que o habeas corpus de Lula precisa de julgamento. Os ministros passaram cinco horas debatendo se a medida era aceitável ou não. Foi um esforço de erudição acadêmica. Mas um tédio para quem teve que assistir. Enfim, decidiram que já era tarde e a sessão foi suspensa e remarcada para a tarde de quatro de abril. Só que isso viola um direito básico: julgamento de habeas corpus tem que se realizar em uma mesma sessão, porque pode representar perigo ou dano imediato ao acusado. No caso de Lula, até as crianças do primário sabem que ele seria preso na próxima segunda-feira.

                                   Diante do impasse, o advogado do ex-presidente pediu uma medida cautelar para evitar a prisão. E foi concedida. Lula tem um salvo-conduto até o fim deste julgamento. O TRF-4 não pode mandar prender o metalúrgico nordestino que governou o país por oito anos. Ordem neste sentido foi expedida imediatamente.

                                   O pronunciamento da corte dá o que pensar: permite imaginar que a Suprema Corte pode conceder liberdade ao ex-presidente até o último recurso. Ou seja: ao próprio STF. E isso demora muito, mesmo sendo contra o petista. Enquanto isso, o ex-presidente continua pré-candidato às eleições de outubro. Terá tempo para tocar a caravana pelo país e fortalecer alianças políticas. Pode até construir um nome para substituí-lo. Dentro ou fora do PT.

                                    Em uma sessão confusa, arrastada por horas a fio, a Suprema Corte não conseguiu julgar o pedido de habeas corpus preventivo da defesa do ex-presidente. Após toda esta discussão conseguiu apenas concluir que a medida cautelar poderia ser julgada, mas não entrou em nenhuma questão de mérito. Foi uma das sessões mais estranhas do STF. Posições opostas se misturaram. As “altas togas” encontraram uma solução técnica: in dubio pro reo. Se o tribunal não julga, o réu não pode ser punido.

                                   Mas é uma situação precária, que pode mudar no dia 4 de abril, quando os 11 de ouro voltam a se encontrar no plenário. No entanto, dá para perceber uma mudança de entendimento entre os ministros, especialmente quanto à sentença de outubro de 2016, que estabeleceu que todo réu condenado em 2ª instância vai imediatamente para a prisão. Parece que isso vai cair.

                                   É bom lembrar: se a eleição fosse hoje, Lula provavelmente venceria.   

 

                 

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Uma semana após as mortes de Marielle e de Anderson, as forças de segurança, com intervenção e tudo, não sabem nada. Nos bastidores, gente bem informada arrisca uns palpites.

marcelo freixo 01

Por que não mataram Marcelo Freixo, do PSOL-RJ.

                                    O desastre do programa das UPPs, a saída de José Mariano Beltrame da Secretaria de Segurança do Rio, a falência do Estado, as denúncias e as prisões de Sérgio Cabral et caterva, desorganizaram todo o esquema político fluminense, que vinha desde o velho MDB de Negrão de Lima e Chagas Freitas. Duas forças novas aparecem recentemente no cenário: o fundamentalismo evangélico de Marcelo Crivela (leia-se: Igreja Universal) e o socialismo com liberdade do PSOL, representado por Marcelo Freixo. Dois extremos de uma mesma decepção do eleitor que chegaram ao segundo turno das eleições de 2016.

                                   O desempenho de Crivela, ao longo do primeiro ano de mandato, foi pífio. Envolvido com questões menores, como cortar investimentos para as escolas de samba (coisas do demônio, com mulheres nuas), deixou de lado os grandes temas: saúde, transporte, educação. No carnaval, abandonou a cidade durante uma onda de violência e foi brincar na Europa. Tudo isso junto, somado ao naufrágio do MDB nas ondas da corrupção, deu força ao tal do PSOL.

                                   O submundo da corrupção administrativa e política, do narcotráfico e das milícias, apresentou as suas cartas quando Michel Temer decidiu recuperar a combalida figura pública à custa do Rio. Mandou seu ministro encarregado da segurança (antes da Defesa), Raul Jugmann, invadir o Rio com militares sem projeto e falsas promessas. E não aconteceu nada de positivo.

                                   O que houve foi a reação do porão. Mataram a vereadora do PSOL mais votada (46 mil votos). E a repercussão foi impressionante, no Brasil e no mundo. Por que não mataram Marcelo Freixo? Ele teve 1.164.000 votos no segundo turno. Seria impossível segurar essa onda.

E não deve parar por aí.

    

                                    

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Atentado que matou vereadora do PSOL e motorista foi ato terrorista. Foi uma advertência aos generais da intervenção. E uma ameaça à oposição no Rio de Janeiro. O submundo do crime, da corrupção e da venalidade administrativa mostra as garras em ano eleitoral.

marielle 01

Marielle estava no exercício do mandato. Foi crime político.

                                   As mortes de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes foram um crime profissional. Planejado nos mínimos detalhes, com todas as características de um ato terrorista. A vereadora, no exercício do mandato, estava sendo seguida há tempo. Uma das auxiliares dela foi abordada por um homem, de forma truculenta, dez dias antes do crime. O sujeito se apresentava como representante de um movimento social e queria saber detalhes da rotina da parlamentar do PSOL. Queria conhecer os apontamentos da agenda de Marielle. Mas a vereadora, aparentemente, não se sentia ameaçada. Sequer comunicou suspeitas ao PSOL ou à polícia. Foi atacada e morta no exercício do mandato popular, crime previsto na lei antiterror aprovada durante o governo de Dilma Rousseff. Terrorismo!

                                   No dia e hora do atentado a tiros (4ª feira, 14 de março, nove e meia da noite), câmeras de segurança registraram que ela estava sendo seguida por pelo menos dois carros. Os terroristas não se preocuparam com o detalhe das câmeras. Provavelmente, eram carros roubados e com placas clonadas. Isto não levaria aos autores. O terrorista que disparou 9 tiros de pistola 9mm, com certeza, era um especialista. Acertou 4 tiros na vereadora e 3 no motorista. Ou seja: 7 em 9, marca notável para veículos em movimento. Um atirador qualificado.

                                   No entanto, esse mesmo grupo profissional cometeu um erro básico. Deixou na cena do crime, centro do Rio, 9 capsulas de pistola 9mm. Tais capsulas, além de prováveis impressões digitais, possuem uma numeração que pode ser rastreada. Rapidamente, a Polícia Federal descobriu a origem das balas. Um lote de 1,9 milhão de munições compradas pela própria PF. Todas de calibre 9mm. Foram distribuídas por vários estados e registradas pelo Exército. Mas uma parte considerável desapareceu, desviada por um funcionário da própria PF.

                                   Os números de série dessa munição apareceram em uma das maiores chacinas ocorridas em São Paulo (23 mortos em Osasco e Barueri). Surgem também em enfrentamentos de facções rivais do tráfico no Grande Rio, especialmente em Niterói e São Gonçalo. E agora nas mortes do PSOL. O que isto significa?    

                                   Significa um desafio do mundo do crime aos generais da intervenção. Significa que a oposição da esquerda no Rio (e talvez no país) vai se transformar em alvo. E que a massa podre da sociedade brasileira arreganha os dentes para o país. A onda de ódio que varre as redes sociais corresponde ao ódio de classe que separa economicamente as pessoas. Pobre é feio e bandido. A classe média é bonita e inteligente. Mas a vereadora morta a tiros foi eleita pela classe média abastada, com renda superior a 10 mil reais.  Por que?  Porque Marielle Franco representava um ideal de igualdade que morro e asfalto desejam há décadas.  Foi vítima de um ato terrorista.

                                   Os autores foram nossos velhos conhecidos. Políticos venais. Chefes do tráfico e das milícias, que controlam o policiamento local. Os caras que faturam 1,5 milhão de reais por semana com o tráfico de drogas. Os caras que compram os PMs que ganham 1,300 reais por mês. Os políticos vagabundos que olham para o outro lado. É tudo uma grande farsa. 

                                  

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

TRF-4 decide destino de Lula nos próximos dias. O tribunal vai rejeitar os recursos do ex-presidente e expedir um mandado de prisão. A PF já tem um esquema montado para prender Lula. A saída para o petista está nas mãos de Carmem Lúcia.

carmem-lucia-01

Carmem Lúcia, do STF: ela tem a chave do cofre. Imagem TV Justiça.

                           Na semana que vem – ou no máximo na outra -, os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região julgam os embargos de declaração apresentados pela defesa de Lula. Tais recursos não têm força para mudar a sentença, unânime, que condenou o petista a mais de 12 anos de cadeia em regime fechado. Óbvio: os juízes terão que decretar a prisão. A Polícia Federal se antecipou e desenhou um esquema de captura do ex-presidente, envolvendo 35 agentes e delegados federais, com apoio de polícias locais. Lula está sendo discretamente monitorado. A PF quer saber onde ele estará no momento em que o mandado de prisão for decretado.

                                   Qual a saída para o ex-presidente? A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Carmem Lúcia, pode pautar uma sessão de julgamento da Suprema Corte para decidir se de fato uma decisão de segunda instância pode mesmo resultar em cadeia. Em Brasília, observadores argutos da cena política acreditam que a jurisprudência, aprovada há pouco tempo, pode mudar. Tanto que já existe um acordo político, envolvendo PT, MDB e PSDB, para derrubar a decisão anterior, que foi apertada. Se isso acontecer, Lula fica livre para recorrer às últimas instâncias do judiciário e pode ser candidato. E, se for candidato, pode ganhar.

                                   Em 5 de outubro de 2016, o STF decidiu que qualquer pessoa condenada em segunda instância iria imediatamente para a cadeia. Paulo Maluf foi um deles. A votação terminou empatada em 5 a 5. E a presidente da corte desempatou a favor da prisão. A manifestação da Suprema Corte, porém, dava aos juízes a condição de decidir caso a caso, considerando situações excepcionais. Mas, até agora, isso vale como regra para todo o país. Há no STF, nesses tempos bicudos, uma forte pressão política para rever o que foi decretado. E a revisão, se ocorrer a tempo, garante a candidatura de Lula. Seria a vitória do slogan “eleições sem Lula é fraude”. Metade do país aplaudiria – mas a outra metade iria considerar que foi uma vitória no “tapetão”.   

                                   O que acontece depois? Considerando os trâmites burocráticos da Suprema Corte, o metalúrgico nordestino pode até tomar posse como presidente. E como impedi-lo, após muitos milhões de votos?

                                   Só os historiadores do futuro serão capazes de responder.    

Publicado em Politica e sociedade | 1 Comentário

Cresce a presença de militares no governo Temer. Além da trinca de generais na segurança do Rio, o Ministério da Defesa passa a ser ocupado por um alto oficial do Exército, após 20 anos de poder civil. No ministério de Raul Jungmann, um brigadeiro é o responsável pela articulação com as Forças Armadas.

 

segurança na olimpíada 03

Tropas vão às ruas do Rio esta semana.

                                   Seria essa a intervenção sonhada pela classe média desiludida com Lula, Dilma e o PT? Vale lembrar: nos protestos contra o governo petista, as pessoas diziam: “primeiro a gente tira a Dilma, depois vê o que faz”. O que veio depois foi a tão reclamada “libertação” das garras petistas, partido classificado como “um bando de ladrões”? Depois veio o governo de Michel Temer. A prisão de Eduardo Cunha, o cai-cai de ministros acusados de corrupção e tudo o mais que a gente já conhece.

                                   Note-se: o “depois a gente vê” permitiu a ascensão do “centrão”, um grupo de 12 partidos ditos fisiológicos, antes chamado de “baixo clero”, garantindo a maioria de Temer no Congresso. Com apoio do PSDB, DEM e PPS, a maioria virou absoluta. Ergueu-se um Congresso ultraconservador, como jamais se viu no pós-ditadura. Temos a bancada do boi, a bancada da bala, a bancada evangélica e coisas do gênero. Além de reformas duvidosas, todas altamente impopulares (temos talvez o presidente mais mal avaliado da Nova República), Temer tentou acabar com reservas florestais, em favor de mineradoras, adotou e desadotou ações questionáveis, supostamente conspirou contra a Lava Jato.

                                   Nomeou um diretor geral da Polícia Federal que passou a agir como se fosse advogado do Presidente, provocando uma revolta na corporação. Participou de reuniões secretas com o presidente. No mínimo, fora da agenda oficial. O delegado teve o segundo mandato mais curto na história da PF, apenas quatro meses. Mas Temer deu a ele um emprego cobiçado em Roma, como adido diplomático policial, coisa jamais vista. Temer passou mais tempo tentando se livrar de acusações do que propriamente governando. E ainda teve o episódio quase ridículo de Cristiane Brasil, nomeada para o Ministério do Trabalho. Mas…  ”depois a gente vê”.

                                   Agora temos o reforço da presença militar no governo. Estiveram quietos desde o fim do regime uniformizado (1964-1985). Omitiram-se na discussão e na revisão crítica de todo o período, encerrando uma importante contribuição para a historiografia militar e para a própria compreensão do país. Praticamente não se ouviu mais falar da Escola Superior de Guerra, com sede no Rio, um importante centro de estudos da realidade brasileira. Estavam em silêncio, possivelmente remoendo crimes cometidos na ditadura. Envergonhados? Não. Eles não admitem os abusos do regime de exceção. De toda forma, tal silêncio produziu um vácuo na compreensão de 21 anos de história.

                                   Surpreendentemente, neste ano de eleições gerais, aceitaram a convocação de um governo acusado de crimes graves para voltar ao cenário político. Enquanto uma parcela considerável da opinião pública queria uma intervenção militar contra a ladroeira e a corrupção, os uniformes de quatro estrelas surgem em garantia da lei e da ordem.

                                   Incapaz de concluir um ciclo de reformas destinado a privilegiar o grande capital, nacional e estrangeiro, Temer resolveu tocar em um ponto sensível para a população, como forma de obter dividendos políticos: a segurança pública. E por que os militares resolveram embarcar nessa aventura, contrariando a boa imagem pública que têm? Porque querem garantir uma transição pacífica entre a porcaria reinante e o próximo governo, eleito pelo povo. Com tropas nas ruas, asseguram uma presença forte, que não pode ser desconsiderada por nenhuma das forças políticas envolvidas.

                                   No ambiente das Forças Armadas, tal papel regulador está bem afinado. Não permitirão rupturas constitucionais. Com Lula ou sem Lula. Principalmente, com povo ou sem povo nas ruas. Já que estão nas avenidas do país, supostamente a garantir a ordem pública, no Rio e em mais 7 estados, podem também se envolver na garantia do resultado das eleições de 2018.

                                   Em qual sentido? Isso não sabemos.

                 

 

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Crise de segurança no Rio começou com o fracasso das UPPs. O projeto inovador foi corroído pela violência e a corrupção.

mariano beltrame

José Mariano Beltrame, o “inventor” das UPPs. Foto com o BOPE.

                                   A crise de segurança no Rio começou com o retumbante fracasso do programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Criadas no primeiro governo de Sérgio Cabral (PMDB-RJ), e implantadas pelo delegado federal gaúcho José Mariano Beltrame, foram saudadas pela grande mídia como o fim do controle do tráfico em favelas e bairros pobres da região metropolitana da capital fluminense. Em um universo de cerca de 1.200 favelas, que abrigam um quinto da população, foram instaladas algo como 30 UPPs. Umas gotas no oceano. Mas a mídia batia tambores!

                                   O projeto prometia recuperar os territórios liberados do tráfico. Uma força de policiais militares foi organizada, usando boinas azuis, à semelhança dos capacetes azuis da ONU em áreas de conflito. Produziu grandes esperanças entre aqueles cariocas assolados pela violência, com farta cobertura midiática. Eu mesmo, nascido em Copacabana, percebi certo otimismo entre os meus conterrâneos. O crime organizado optou por um recuo tático, evitando conflitos e desaparecendo das áreas a serem ocupadas. Aliás, as operações policiais eram divulgadas com dias de antecedência, justamente para garantir que não haveriam choques armados. Tudo corria bem.

                                   O próprio Beltrame informava à imprensa que as UPPs, por si só, não resolveriam o problema. Era preciso que o poder de Estado entrasse nas favelas ocupadas, melhorando as condições básicas de sobrevivência: saúde, educação, saneamento, transporte. A polícia compareceu – mas o Estado ficou devendo, até porque os governantes não estão nem aí para o povo pobre. Resultado óbvio: o projeto afundou, naufragado em águas escuras, desmoralizando a força pública, fortalecendo a presença dos traficantes, gerando a crise atual.  

                                   Além do mais, a força destacada para as UPPs cometeu todos os erros que vemos há décadas. Violência gratuita, maus tratos aos moradores, revistas humilhantes até nas mochilas das crianças, assédio sexual às mulheres, corrupção em relação ao tráfico. Na ocupação do Complexo do Alemão, transmitida ao vivo para todo o mundo pela TV-Globo (o JN ganhou o prêmio EMI por causa disso), verificou-se, pouco mais tarde, que moradores foram vítimas de abusos e violação de direitos. Um tenente do Exército, formado pela Academia de Agulhas Negras, simplesmente roubou dois aparelhos de ar condicionado da casa de um favelado. Está sendo processado pela Justiça Militar.

                                   Em 70% das UPPs, houve denúncias de abusos. E o caso mais emblemático é o sequestro, tortura e morte do pedreiro Amarildo, na favela da Rocinha. Amarildo era suspeito de envolvimento com o tráfico. Em outro caso exemplar, foram encontradas drogas e armas em uma UPP. Ou seja: um modelo inovador com a velha polícia violenta e corrupta. Não podia dar certo. Mas Sérgio Cabral, surfando na onda das UPPs, foi reeleito. Agora está preso, condenado a décadas de cadeia por crime organizado, roubo, lavagem de dinheiro. Mariano Beltrame pediu demissão antes disso – e sumiu debaixo de um silêncio impressionante. Talvez reapareça como candidato a Câmara Federal este ano.

                                   Hoje sabemos que o Rio foi saqueado por seus próprios governantes. E dá para especular que as UPPs foram um golpe eleitoreiro. Agora também dá para imaginar que a intervenção militar, sem qualquer planejamento, é outro golpe publicitário.

                                   Quem viver, verá!     

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Jugmann não tem um plano para a segurança. Os militares, também não. A intervenção no Rio está reduzida a ações administrativas. Aparentemente, as Forças Armadas não querem entrar em combate direto com o narcotráfico.

                                   Michel Temer se reuniu com representantes de todos os estados nesta quarta-feira (1 mar), em Brasília, para discutir a questão da segurança pública. Ouviu uma choradeira: falta de verbas, salários atrasados, sucateamento das frotas, superlotação carcerária e a churumela de sempre. Não apareceu um único projeto de política de segurança. De sua parte, o novo ministro Raul Jugmann fez anúncio bombástico: iria aumentar em 500 agentes o efetivo da Polícia Federal, mais 500 para a Polícia Rodoviária, além de garantir que 29 delegados seriam deslocados para a área de investigação contra o crime organizado. Ah, sim: iria dobrar o efetivo de fronteiras, de 150 para 300 agentes. Temos 11 mil quilômetros de fronteiras secas e mais 8 mil quilômetros de litoral.

                                   Até agora, foi todo esse o arsenal de reação do Estado brasileiro contra a onda de violência que vitima o país: 61,6 mil homicídios; 37 mil desaparecidos; 6 milhões de assaltos a mão armada, cerca de 300 mil vagas faltando no sistema prisional e algumas cositas mais. O governo oferece um esparadrapo para quem levou um tiro de AR-15 na barriga. Pior: somos o primeiro consumidor mundial de crack e o segundo de cocaína. Nem uma palavra sobre isso.

                                   Toda vez que uma onda de violência intimida o país, como no carnaval do Rio, nossos governantes respondem com a incorporação de policiais e a compra de armamento e viaturas. Há nesses casos inúmeros episódios de superfaturamento e desvios de verbas. Exemplo: a compra de milhares de pistolas Taurus P40, que disparam sozinhas, sem que o gatilho seja pressionado. Outro exemplo: a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo adquiriu um carregamento de munição calibre 12, para uma corporação que não dispunha de armas deste tipo. A explicação: a GCM iria adquiria carabinas calibre 12, mas houve uma promoção da munição respectiva. É como aquele sujeito que não tem carro e se depara com a promoção de pneus em um supermercado.

                                   Vimos pela TV a coletiva da junta militar que tomou posse na segurança do Rio. Três generais do Exército, um coronel do Corpo de Bombeiros (entrou mudo e saiu calado) e um civil que sequer foi apresentado aos jornalistas. Deste encontro não surgiu nenhum projeto, a não ser resolver “gargalos” de infraestrutura e logística. Uma intervenção apenas administrativa. Parece que os militares não querem entrar em combate direto com o narcotráfico, em razão do dano político que iria produzir, da repercussão internacional e das baixas inevitáveis. A classe média, desiludida com os políticos, deve estar roendo as unhas. Foi enganada de novo.  

                                   Ninguém quer carregar cadáveres. Com quase certeza, virar o foco do governo Temer para a segurança, após a fragorosa derrota na reforma da previdência, é apenas uma ação marqueteira. Só que o crime está nas ruas, amado até os dentes. Não teme os uniformes. Ao contrário, pretende desmoralizar os governos e reforçar as suas bases sociais nas comunidades pobres. Temer ofereceu 42 bilhões de reais, via financiamentos do BNDES, para a segurança pública, pagáveis em 8 anos, com dois anos de carência. Mais um gesto administrativo, que não leva em conta as razões objetivas da violência instalada no país.

                                   Vamos dar mais dinheiro para governantes duvidosos, em troca de algum apoio político eventual? Vamos! É assim que a coisa funciona. Sobre esse negócio de pobres, pretos e favelados continuarem morrendo aos milhares, nem uma única linha nas reformas. No caso da reforma da previdência, também não havia nada sobre os sonegadores. Ficava tudo no ombro do trabalhador. Por isso não deu certo.

                                   O Brasil teve, historicamente, duas políticas de segurança. A primeira foi na ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945), durante o Estado Novo. A segunda foi no regime militar (1964-1985), com a Lei de Segurança Nacional (LSN), que estabeleceu inclusive a pena de morte. Mas as duas pretendiam a segurança do regime e do grande capital. Agora, quando se pretende a proteção da família e do cidadão, não há nenhum projeto viável. Por que?

                                     

                                  

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Como será o conflito armado no Rio, segundo a estratégia militar e os manuais da guerra urbana? Leia e veja se é isso que você quer para o seu país.

general walter braga 01

O interventor Braga Netto.

Os leitores deste site sabem que há muitos anos pesquiso e analiso questões relacionadas com a violência urbana e o crime organizado no país. E também sabem que fontes de informação em uniformes na ativa das Forças Armadas ajudaram a entender o noticiário relativo ao tema. Não seria possível desenvolver tantas teses sem a participação de agentes diretamente envolvidos na matéria. É com base nessas informações exclusivas que adianto acontecimentos que ainda iriam ocorrer. Alguns com anos de antecedência, como foi o caso do fracasso das UPPs.
Acrescento que não tenho filiações partidárias, nem patrocinadores. Este site é mantido por meu próprio esforço, tendo acumulado mais de 350 mil leitores ao longo do tempo. Digo isso para esclarecer: o que vocês vão ler a seguir é fruto dessa longa experiência. Não vou citar fontes oficiais. Não darei nome aos bois, sejam de que lado forem. Trato de rascunhar o cenário de como podem se desenrolar as operações militares no Rio, após a decretação da intervenção federal na segurança pública da capital do país mais conflagrada pelo conflito armado.
No ambiente das forças de segurança, desenha-se um modelo de operações de combate ao narcotráfico. Tudo sigiloso. Sempre a portas fechadas. Tento aqui iluminar um pouco o palco das decisões. Na semana que vem, o interventor, general Braga Netto, chefe do Comando Militar do Leste, vai falar publicamente. E deve esclarecer, revelando muito pouco, qual o plano genérico de ação. Ouso apresentar os principais itens deste manual.
Ao menos 20 mil homens das forças federais devem sem empregados. Acompanhem as etapas:
1. Cerco estratégico: vigilância e ocupação das principais rodovias de acesso ao Estado do Rio. Bloqueio de rodovias como a Dutra, a Rio-Santos, Rio-Bahia e outras menores. Bloqueio naval de áreas críticas, como as baias de Angra dos Reis, Parati e o fundo da Guanabara. Alguns navios de grande porte serão vistos. Vigilância e ocupação das principais vias de acesso à capital: as linhas vermelha e amarela, a Avenida Brasil, a zona portuária, a região do gasômetro do Rio e outras. As avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, o Aterro do Flamengo e as praias. Nesta fase estarão presentes forças do Exército e da Marinha, além de cobertura aérea e fechamento espacial em algumas regiões. As polícias estaduais e rodoviária federal, com ajuda da Força Nacional, estarão envolvidas, principalmente na Baixada Fluminense, Niterói e São Gonçalo. A Polícia Civil deve aparecer em ações na Região dos Lagos, especialmente em Cabo Frio, Arraial do Cabo e Búzios. Bloqueios de fronteiras com Minas, Espírito Santo e São Paulo são espera-os e devem ser simultâneos, empregando forças locais.
2. Cerco Tático: o comando das operações deve selecionar algumas áreas criticas sob controle do narcotráfico e das facções criminosas, talvez quatro ou cinco das mais importantes. Tropas especiais (Brigada Paraquedista, Fuzileiros Navais e o Batalhão das Forças Especiais do Exército, por exemplo, as melhores forças disponíveis) devem ser empregadas nesta fase. O cerco é reduzido a uma comunidade, um bairro, algo como cinco ou seis quilômetros de extensão e largura. Aqui se empregam tanques e veículos blindados. Sob comando do Exército, entram forças como o BOPE e o CHOQUE da PM, que conhecem melhor o terreno, incluindo cães farejadoras. O cerco tático é para inviabilizar a fuga dos criminosos, que ficam restritos a um espaço mais controlado.
3. Operação de Comandos: a partir do cerco tático, grupos especiais, aerotransportados, desembarcam no centro do perímetro, estabelecendo uma base segura. Dispõem de grande poder de fogo. Das laterais, em cinco ou seis pontos diferentes, as forças entram na direção do centro da ocupação. Quando for possível, com blindados. Caso contrário, com as botas no chão. São grupos pequenos, do porte de um pelotão: algo como 20 homens. Em cada um desses grupos há uma metralhadora tipo SW240, 7.62mm. Um lançadores de granadas, tipo RPG, 40mm, ou um lança-chamas. A convergência de todos os grupos para o centro do cerco tático vai produzir um enfrentamento cara a cara com os criminosos. E deve haver um grande número de baixas de parte a parte, com algumas vítimas civis.
4. Operação de limpeza: a última fase envolve uma operação de resgate de feridos e mortos, combate a incêndios, defesa civil e coisas do gênero. Inclusive recolher material bélico abandoado, como carregadores de fuzis e granadas não detonadas. É o rescaldo do conflito armado.
Se o governo brasileiro optar por tal tipo de ação, talvez tenhamos algum resultado temporário na luta contra o narcotráfico. Mas teremos que assumir as baixas civis e convocar uma nova Comissão Nacional da Verdade para investigar as violações da lei nesse período. Foi o que antecipou recentemente o comandante-geral do Exército, o general Eduardo Villas-Bôas.
Assumiremos o estado de guerra civil não declarado no país. Estaremos ao lado de Colômbia  e México.
Veremos um governo impopular como o de Michel Temer, acusado de crimes graves, decidir um conflito de tal magnitude social, a um custo de milhões de reais para um país falido, às vésperas de uma eleição presidencial.
Queremos isso?

 

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário