Acordo de partidos assegura quórum para cassar Eduardo Cunha. Mas o “centrão” conservador conspira: quer evitar a perda dos direitos políticos do deputado. Teremos uma segunda-feira agitada.

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Cláudia e Cunha: o casal acusado de ter contas secretas na Suíça. Foto de divulgação.

                                    Pela primeira vez nos últimos anos, partidos políticos opostos, como o PSDB e o PCdoB, ou o PSOL e o PDT, se unem para garantir a cassação de Eduardo Cunha na próxima segunda-feira. Ao todo são 9 legendas, que devem assegurar 216 dos 257 votos necessários à condenação definitiva do ex-presidente da Câmara dos Deputados. O PT já fechou questão – é claro.  Outros partidos, mais oportunistas, como o PMDB de Michel Temer, decidiram liberar suas bancadas. Cada um vota como bem entender. Isso significa: pode fazer acordo com Cunha; pode faltar à sessão de julgamento; pode fazer o que achar melhor. É uma demonstração clara de que cassar Dilma foi diferente de cassar Cunha. No caso da ex-presidente, o verbo aplicado foi “caçar”, com cedilha, que significa abater.

                                   Para consumar a derrubada de Cunha,  faltam 41 votos. Dá-se como certo que ele não vai escapar. Nem  o  próprio deputado acredita que vá sobreviver. Como todo carrasco após a execução (de Dilma, no caso), Cunha deve cumprir o destino dos carrascos: o lixo da história. Ele não interessa a mais ninguém. Muitos dos aliados de ocasião já se afastaram, incluindo Temer. Ficaram apenas os cúmplices. No entanto, a política brasileira é feita de surpresas. Grandes surpresas!

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STF não deve mudar decisão do Senado sobre Dilma. Não vai revogar o impeachment, nem cassar os direitos políticos dela. Movimento “Fora Temer” cresce em todo o país. E Eduardo Cunha pode cair de vez já na segunda-feira.

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São Paulo – Manifestantes no central da capital paulista protesta contra o governo(Rovena Rosa/Agência Brasil)

 

O presidente Michel Temer não vai ter descanso. Passa por constantes contrariedades. Teve que afastar três de seus ministros, acusados de corrupção. Enfrentou um racha na base aliada, no episódio da preservação dos direitos políticos de Dilma. Países vizinhos mandaram chamar seus embaixadores, o que é uma forma de protesto. O Parlamento europeu ameaçou adotar sanções contra o novo governo. Foi recebido friamente na reunião do G-20, na China (foi chamado de “líder brasileiro” – e não de presidente do Brasil). A lista de dissabores é enorme, incluindo uma campanha contra a mulher dele nas redes sociais.

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O presidente Michel Temer e a primeira-dama Marcela Temer sob vaias durante desfile de 7 de Setembro na Esplanada dos Ministérios (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

                                    O presidente vê o movimento do “Fora Temer” crescer diante de seus olhos. No feriado do 7 de Setembro, foi vaiado durante a parada militar da Independência e anotou grades protestos em 25 capitais brasileiras. Houve uma vaia estrondosa na abertura da Paraolimpíada, à qual compareceu. O governo agora tem dúvidas se conseguirá aprovar quaisquer das medidas econômicas neste ano de eleições. São todas impopulares. Aliás, o famigerado slogan das “Diretas-Já” contamina setores importantes da política que é feita nas ruas. E o cenário vai piorar muito quando o Planalto começar a mexer em direitos históricos dos trabalhadores, como a previdência, a desindexação do salário-mínio e das aposentadorias, a flexibilização da CLT e outras cositas.

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Os mascarados estão de volta às ruas. (Rovena Rosa/Agência Brasil)

                                   O que hoje é um movimento de estudantes e militantes políticos, amanhã será engrossado por sindicatos e categorias sociais inteiras. Inclusive o funcionalismo público. A barra vai pesar. E Temer ainda tem pela frente outras ameaças: um pedido de impeachment contra ele na Câmara dos Deputados; um processo de cassação da chapa Dilma-Temer no TSE, referente a irregularidades no financiamento da campanha presidencial de 2014; e as decisões do STF acerca do julgamento de Dilma no Senado.

                                   Do outro lado da Praça dos Três Poderes, começa a se firmar no STF uma pequena maioria no sentido de que a Suprem Corte não deve modificar as decisões do Senado. Vários ministros acreditam que o impeachment da ex-presidente é definitivo, até porque uma mudança laçaria o país em uma tremenda confusão. No entanto, os magistrados também estão firmando posição no sentido de que não podem cassar os direitos políticos de Dilma, uma vez que o julgamento do Senado é soberano, como diz a Constituição. Além do mais, há um problema grave: foi o STF que determinou o rito do impeachment nos mesmos moldes do ocorrido contra Fernando Collor, em 1992.

                                   Como a história registra, Collor renunciou na manhã do julgamento. Com o gesto extremo, interrompeu o impeachment. Deveria ter interrompido todo o processo. Mas os senadores resolveram que iriam votar a cassação dos direitos políticos dele, fatiando o ato jurídico. E o STF referendou aquela decisão. Como mudar agora? Esta poderá ser a derrota mais dolorida para Michel Temer. E ainda tem o problema da cassação de Cunha, antigo aliado, que a partir de segunda-feira começa a subir no cadafalso.

                                   Que viver, vera!

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Dilma está fora. Temer tomou posse duas horas depois da sentença. É presidente do Brasil. Mas nem tudo saiu como combinado: o PMDB rachou e Dilma manteve os direitos políticos. Ela vai embora do país e pode voltar como candidata em 2018.

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Michel Temer recebe cumprimentos após posse como presidente da República em solenidade no Congresso Nacional (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

                                                Exatamente às duas horas e 13 minutos desta quarta-feira (31 ago), o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Levandowski, na condição de condutor do processo de impeachment, leu a sentença: Dilma teve o mandato presidencial cassado por 61 votos a 20 no Senado, após ocupar o Planalto por 5 anos e meio. Uma votação acachapante, já esperada, confirmando uma ampla aliança de forças partidárias contra a ex-presidente e o PT de Lula. Os senadores, empenhados em derrubar o longo ciclo de poder petista, nem quiseram saber de provas, quase todas duvidosas. Foi um julgamento político, com um leve verniz jurídico, fartamente contestado pela defesa. O que se julgou foi o “conjunto da obra” – e não pedaladas e decretos.

                                   Por “conjunto da obra”, entenda-se: um modelo de desenvolvimento com distribuição de renda e justiça social. O pretexto: responsabilizar a ex-presidente por toda a crise econômica e a corrupção que grassam no país. Como se deputados e senadores vivessem em uma planície de virtudes, maculada por uma mulher mentirosa, desonesta e autoritária. E qual é o modelo alternativo, previsto no documento-base do movimento anti-PT, cuja autoria é atribuída a Michel Temer e é chamado de “Uma ponte para o futuro”? E o que isto propõe? Um programa de governo voltado ao interesse do grande capital, com ampla privatização de empresas e do patrimônio público, fora os ajustes ficais nas costas do trabalhador e de pequenos e médios empreendedores.

                                   O novo projeto prevê a desindexação do salário mínimo e das aposentadorias, a flexibilização da CLT, a regulamentação da terceirização de mão de obra nas empresas, sem carteira assinada. Fica o Planalto desobrigado de investimentos em saúde e educação. Fica o governo livre para gastar 30% do orçamento como melhor entender, mas proíbe o aumento de investimentos públicos por 20 anos, abrindo as portas para a iniciativa privada. Quer diminuir a máquina governamental, atingindo diretamente o funcionalismo, quando se sabe que em países pobres o Estado é o maior empregador. Trata-se de reescrever a Constituição de 1988.

                                               No discurso que fez no Senado, ao tomar posse, logo após defenestrar Dilma Rousseff, o presidente de fato Michel Temer disse que no governo dele a oposição será bem-vinda. Então, me sinto à vontade para escrever esse artigo. Aliás, por falar em discurso, imediatamente depois da posse de Temer, o Ministro da Fazenda deu entrevista coletiva no Planalto. Disse que a confiança estava restaurada e a segurança jurídica do país garantida. O banqueiro Henrique Meirelles discorreu sobre o roteiro de recuperação da economia, sem indicar uma única medida concreta. Entre os pontos citados, a recuperação do emprego ocupou o último lugar.

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Uma aliança que vai durar pouco. Aécio e Temer têm projetos diferentes. (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

                                   O projeto econômico se destina a garantir o superávit primário, de modo a poder pagar os juros da dívida pública. E pagar a quem? Aos bancos, que ele representa, e ao capital internacional. Simples assim. Mas esses temas são muito enfadonhos. Voltemos à política:

                                   O segundo mandato de Dilma foi um desastre. Um mês após sentar no trono, sofreu uma derrota abaladora: a eleição de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para presidir a Câmara dos Deputados, lançado às alturas pelo “centrão”, um conjunto de deputados e partidos até então desprezados, mas que hoje é maioria na casa legislativa. No episódio, e nos que se seguiram, Dilma revelou uma inacreditável incapacidade de se relacionar com o Congresso. Nunca foi até lá para tomar um cafezinho. Aí começou a cair, à semelhança de Fernando Collor, que desprezou os parlamentares. Veio a pressão do grande capital e da mídia, que se associaram à oposição, inclusive apoiando Cunha. E a classe média, indignada com a corrupção, foi para as ruas. O vice Michel Temer rompeu com ela, dando a senha para a rebelião da base aliada. Seria tedioso descrever o resto.

                                   Dilma não conseguiu se desvencilhar da herança que recebeu de Lula. Havia “mensalões” e “petrolões”. Algumas das mais expressivas lideranças do PT estavam nos tribunais (ou já na cadeia). A Lava-Jato se tornou o principal programa de oposição – e para este não havia resposta competente. O momento mais marcante da atuação política de Dilma Rousseff foi no fim da linha, quando se apresentou ao Senado para enfrentar os acusadores, na segunda-feira passada. Ali ela brilhou, em depoimento de 11 horas e meia, cara a cara com os golpistas. Mas já estava tudo perdido. Era um jogo de cartas marcadas. No entanto, a coragem da primeira mulher chefe de Estado no Brasil produziu um resultado surpreendente: não foi completamente derrotada.

                                               Após a esmagadora votação pela perda do mandato, os mesmos senadores viraram o jogo ao decidir se Dilma deveria ter os seus direitos políticos cassados por 8 anos. Eles disseram que não: foram 42 votos a favor, 36 contra e 3 abstenções. Isto quer dizer: não foi alcançado o quorum mínimo de 54 senadores contra ela – ou 2/3 da casa. Escapou da pena pior. Dilma deve deixar o país por um bom tempo. Pretende escrever um livro de memórias. No entanto, pode voltar como candidata à Câmara Federal ou ao Senado em 2018. Será eleita, com certeza. Também pode deixar o PT, onde não é bem-vinda, e retornar ao PDT de Leonel Brizola, ainda querido pelo eleitor gaúcho.

                                   É esperar para ver!  

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Dilma foi ao Senado enfrentar seus acusadores. Um gesto dramático, endereçado (e filmado) para a História. Sabendo que não iria convencer nenhum de seus opositores. Ela vai perder o mandato e os direitos políticos.

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Dilma chega ao Senado. Imagem da TV Senado.

Se Dilma Dana Rousseff tivesse agido em seu governo da mesma maneira corajosa com que enfrentou os acusadores no Senado, talvez este Brasil fosse hoje um país diferente. Leu um discurso de 45 minutos, na abertura da sessão de julgamento, tropeçando em algumas palavras, como é de seu estilo. Mas cresceu ao responder de improviso ao fraco (diria pobre) questionamento de um conjunto de senadores que teme por sua própria segurança face à Lava-Jato. Mesmo Aécio Neves (PSDB-MG), principal opositor nas eleições de 2014, pegou leve. Apenas repetiu trechos do debate eleitoral derrotado nas urnas. Decepcionou.

No discurso formal, no início, Dilma foi até enfadonha, mastigando uma narrativa já exposta à exaustão. Mas – repito – cresceu quando abriu o coração fora do texto. A primeira mulher chefe do Estado brasileiro cometeu o disparate de enfrentar as raposas da política, face a face. Em geral são representantes de oligarquias e fisiologismos, sem falar que usufruem do grande capital. O Congresso Nacional, conforme a descrição de um autor português, é uma espécie de assembleia-geral de bandidos, comandada por um criminoso. E por falar nisso, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente afastado da Câmara Federal, foi o nome mais citado por Dilma, que poupou outros, como Romero Jucá e Michel Temer. A presidente, que ainda tem o cargo (por pouco tempo) mas não o mando, foi muito econômica em matéria de nominar os autores daquilo que chama de “golpe” parlamentar.

Concentrar a ira de Dilma sobre Cunha não representa nenhum progresso em matéria de impeachment. Já disse aqui, inúmeras vezes, que é um jogo de cartas marcadas. Para mais ou para menos, ela perde por 60 votos a 20, com a omissão do presidente da casa, o senador Renan Calheiros, ele mesmo acusado na Lava-Jato. Se Renan votar, será uma surpresa. O cara gosta de ficar em cima do muro. Só que não poderá ficar em cima do Moro. Isso não dá – até agora. Como seria o roteiro para pegar Renan? Primeiro: perder o cargo no Senado. Segundo: ser cassado por falta de decoro. Terceiro: o STF o manda para o juiz curitibano de primeira instância, especializado em crimes do colarinho branco. Isso não vai acontecer. Podemos esquecer.

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Em seu enfrentamento com os senadores acusadores, a maioria da casa, Dilma Rousseff defendeu algumas teses:

  1. 1. As acusações de crime de responsabilidade não têm base legal. É um golpe parlamentar, modalidade aperfeiçoada após o fim da Guerra Fria. Nada de forças armadas. Presidentes anteriores editaram decretos de suplementação de crédito e nunca foram incomodados por isso.
  2. O Plano Safra, destinado a estimular a agricultura familiar e o agronegócio, é regido por lei de 1992 e não depende de aprovação da Presidência. Ela nem sabia (?) o que acontecia nessa área da economia. Era assunto dos ministros específicos.
  3. Os bancos públicos pagaram as contas dos projetos de distribuição de renda (bolsa família, minha casa etc) porque esta era a rotina. O atraso no repasse de verbas do Tesouro Nacional para as instituições financeiras não significaram operações de crédito. Isto é discutível, mas também não forma motivo para impedir o mandato popular.
  4. As “pedaladas” fiscais somam apenas 0,18% do total das contas públicas. Ela se enganou e disse que eram apenas 0,15%. No Parlamento europeu, não se discute divergências nas contas inferiores a 2%. Por que discutimos essas taxas em um país em desenvolvimento? Assunto para economistas e advogados. Ou parte da argumentação para um golpe?

A argumentação da presidente afastada, baseada na tese do golpe parlamentar, peca pela atuação do Supremo Tribunal Federal. A presença do presidente do STF no comando do Senado, transformado em tribunal, empresta legalidade ao processo. Qual golpe poderia prosperar sob a Suprema Corte de um país? Os golpistas de 1964, que não eram só militares (costumo chamar de movimento cívico-militar contra Jango), derrubaram o presidente eleito e todo o ministério, cassaram dezenas de mandatos parlamentares, dissolveram os partidos políticos e fecharam o Congresso. Aposentaram compulsoriamente três ministros do STF, todos juristas notáveis, para assegurar maioria na corte. Fora outras tramas. Tínhamos tanques nas ruas, sequestros, prisões ilegais, torturas e mortes. Mergulharam o país em 21 anos de atraso e trevas. Isso a gente entende.

Mas, e agora? Acusar um bando de golpistas parece coisa simples, reforçada pelo vandalismo político de certos deputados e senadores. A sessão da Câmara Federal de 17 de abril é uma vergonha que o país de pouca memória custará a apagar. Mas é só isso? Somos mesmo uma republiqueta de bananas? Mandamos uma presidente para os quintos, apesar de ter sido reeleita por 54 milhões de brasileirinhos? Isso também parece um pouco demais.

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A advogada de acusação, Janaína Paschoal, sempre destemperada. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Esperava que Dilma desse nome aos bois. Quem são os golpistas, afinal? Esperava que ela jogasse na cara de um Congresso de larápios e oportunistas de última hora: os nomes, o endereço partidário e o CPF dos golpistas. Ela não o fez. Queria um discurso fora do script. Não aconteceu. A defesa de Dilma recorreu ao senador petista Lindberg Farias (PT-RJ). Este senador deu o nome aos bois: os ultraconservadores, os fundamentalistas religiosos, a burguesia ansiosa de obter mais lucros em cima da redução dos direitos trabalhistas (e não da competitividade na produção, porque custa caro), os que querem privatizar tudo (do petróleo aos bancos públicos), a conspiração da grande mídia, capitaneada pela Rede Globo. Lindberg fez carreira política no movimento estudantil de esquerda. Foi presidente da UNE.

A presidente afastada, na véspera da cassação de seu mandato e de seus direitos políticos, concordou: assinou abaixo das palavras do líder estudantil que virou político de renome. Disse que era isso mesmo. Poderia tê-lo dito com palavras próprias, mesmo tropeçando nas letras. Usou um subterfúgio? Com palavras de outro? Pode ter sido orientada pelos advogados. Para evitar questionamentos judiciais paralelos ao impeachment. No dia 13 de março de 1964, duas semanas antes do golpe militar, meu pai me levou ao comício de Jango na Central do Brasil. Foi um encontro com 200 mil trabalhadores, em frente ao quartel-general do Exército. O presidente falou sobre as reformas de base: tributária, política ampla, voto dos analfabetos, o direito de todo cidadão brasileiro a concorrer a cargos públicos. O governo dele só durou mais duas semanas. O resto a gente já sabe. Mas foi na voz do presidente.

Quando Dilma transferiu a Lindberg Farias a nominação dos golpistas, a partir do discurso do senador, digno de um Daniel Cohn-Bendit da Paris de 1968, abriu mão de fazer o que Jango fez. Não se trata de fraqueza pessoal dessa mulher que passou pelos porões da ditadura em nosso país. Trata-se de uma equivocada tentativa de querer convencer golpistas a desistir do golpe. Eles estão mais preocupados com benefícios pessoais e – se possível – faturar algum. O resto é bobagem. Dilma perdeu a oportunidade de afirmar quem são eles.  Acusou Eduardo Cunha – mas omitiu Michel Temer, seu  vice por acordo político,  agora presidente interino. Falou lateralmente sobre o Congresso, responsabilizando  a Câmara Federal em geral, um bando de canalhas. Como afirmou um escritor de Lisboa, que já foi a nossa metrópole colonialista.

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O senador Aécio e o Lewandowski, durante o segundo dia de julgamento de Dilma Rousseff (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Os opositores de Dilma afirmam que o governo petista produziu a crise econômica: incompetência, desmandos e corrupção desenfreada. Nada disso faltou ao último governo do PT, que agora se encerra. Mas responsabilizar a presidente pela crise capitalista mundial é um pouco demais. O superciclo das commodities, baseado na compra de produtos brutos pelas maiores economias (petróleo, ferro, grãos, coisas não industrializadas, que favoreciam o Brasil) começou a afundar em 2013. A desaceleração da economia chinesa pegou o Brasil pela proa. A Europa afundou na crise financeira, atingindo especialmente a Grécia, a Espanha e Portugal, os elos mais frágeis. Desde o ano de 2008, o sistema bancário americano vinha numa rotina criminosa de quebradeiras. A chamada “bolha imobiliária”, que arrastou a banca mundial, era acostumada a financiar imóveis para quem não podia pagar.

Quando o tsunami da crise chegou ao litoral brasileiro (definido por Lula como uma “marolinha”), não estávamos preparados. O governo do Tio Sam optou por elevar as taxas de juros, atraindo investimentos globais e derrubando as moedas em todo o planeta. Deu incentivos de Estado à produção. Obama disponibilizou 1 trilhão de dólares para resolver o problema de insolvência dos bandos. E acredite: estatizou algumas instituições financeiras, em um país que defende a liberdade de mercado. Aqui: optamos por taxas irreais, produzindo enorme desvalorização do real frente ao dólar. A Selic (taxa oficial de juros) estava em torno de 8%. Agora chega a 14.25%. Sob FHC, já chegou a 26,5%. O aumento da cotação do dólar acelera a subida dos preços no mercado nacional, porque muitos insumos à produção são rastreados em dólar. A inflação sobe, na forma de preços. O consumidor se encolhe, ameaçando a produção e o emprego. Digo isso de forma genérica, porque o quadro real é muito mais complexo.

Afirmar que tudo isso é obra de Dilma, Lula e do PT é totalmente absurdo. Vamos responsabilizar a presidente pela crise dos imigrantes na Europa? Só faltava isso. Que tal o terrorismo? Brincadeiras à parte, o fato é que o segundo mandato de Dilma foi um desastre. Sem iniciativa, abandono total dos movimentos sociais, fixação na política parlamentar e no monetarismo, se esquecendo que há um mundo real que nada tem a ver com isso. Nem se fala mais em reforma agrária, que poderia criar 20 milhões de postos de trabalho no campo e desinflar as favelas urbanas, reduzir a violência e coisas que tais. Dilma, Lula e o PT erraram demais. Os golpistas, meus caros amigos, são os mesmos de sempre: de Vargas, de JK, Jânio, Jango e Dilma. E sob a suspeita do capital estrangeiro, ávido por petróleo, ferro, manganês, soja e trigo. É sempre a mesma porcaria.

É tudo a mesma coisa. O que  eu esperava era um modelo transformador. Partido dos Trabalhadores.  Conquistou a Presidência após quatro  tentativas. Representava um novo tempo. Falhou no básico: a ética. Deveria fazer, afinal, as tão famosas reformas política, tributária e da previdência. Mudanças estruturais no capitalismo brasileiro, que é mesmo o nosso caminho, até porque não há outro.  Desde menino, ouço a mesma churumela. Parece que não tem fim. Sem Dilma, pode ser ainda pior. Quem duvida disso?

 

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Julgamento de Dilma no Senado vira circo de horrores. Ofensas. Agressões. Ameaças. Mas nada disso vai mudar o resultado final. É um jogo de cartas marcadas.

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Aécio Neves e o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, durante o segundo dia da sessão de julgamento do impeachment de Dilma Rousseff ( Marcelo Camargo/Agência Brasil)

                                    O país de pouca memória já tinha esquecido a sessão da Câmara dos Deputados que autorizou abertura do processo de cassação contra Dilma Rousseff. Naquela ocasião, foi uma cena dantesca. A etapa escura da vida política nacional parecia ultrapassada. Parecia. Os dois primeiros dias de julgamento da presidente no Senado foram um novo espetáculo de baixarias de parte a parte. Xingamentos, ironias, agressões pessoais, ameaças de pugilato entre os senadores da República. Tanto que as sessões foram suspensas quatro vezes, para se evitar um conflito mais grave. Mais grave – e ao vivo – o que desmoralizaria de vez o Parlamento brasileiro, que já é visto como um antro de larápios e aproveitadores, na opinião do populacho em geral.

                                   A minoria que apoia Dilma entre os senadores, cerca de 20 parlamentares, enfrenta fortemente os 60 outros que querem o impedimento e a cassação do mandato da primeira mulher chefe de Estado no país. É um combate desproporcional. Para cada voto a favor da presidente, há três contra ela. O mesmo escore já observado na Câmara. Nada mudou, nem com argumentos eloquentes. O fato é que tudo já está decidido: Dilma perde de 60 a 20. O placar pode ser ainda pior.

                                   Michel Temer vai governar o Brasil até o dia 1º de janeiro de 2019, quando toma posse aquele que for eleito poucos meses antes. E este não será Temer. Supostamente, está enquadrado na “Lei da Ficha Limpa”, porque tem condenação de segunda instância do TRE de São Paulo. Alguns dos apoiadores de Michel Temer já articulam mudanças nas leis, para garantir que a candidatura dele possa ser admitida. Mas as chances de uma coisa assim passar são remotas. Curioso: a grande mídia não explora esse ponto.

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Confusão entre os senadores Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e o presidente do Senado, Renan Calheiros.(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

                                   Vamos reconhecer: Dilma já era. O segundo mandato, até agora, é péssimo, abaixo da crítica. A presidente reeleita perdeu apoio parlamentar e – principalmente – dos eleitores. O governo dela não foi capaz de reagir aos desafios da crise econômica do sistema capitalista mundial, que se repete em ciclos históricos. Em quase todas as vezes, a crise capitalista desaba mais fortemente sobre aqueles países que vivem da venda de produtos brutos, como grãos, frutos, ferro, petróleo etc. São países de média industrialização, baixa competitividade e em busca de uma troca de patamar: chamados “em desenvolvimento” ou “emergentes”.

                                   Dilma e equipe cometeram erros imperdoáveis em matéria econômica. O principal deles, em nome de um ajuste fiscal, que agrada aos “especialistas” da mídia e do “mercado”, foi reduzir em 30% o investimento público nos últimos dois anos. Não há economia emergente que sobreviva a tal decisão. Com o governo reduzindo investimentos, o empresariado pisa no freio. A falta de investimentos públicos e privados reduz a arrecadação do governo (180 bilhões de reais só em 2015), porque há menos impostos a pagar, justamente porque cai a produção, venda direta e o faturamento das empresas. Dilma e equipe não souberam escapar desse redemoinho. Ele provoca uma escalada cambial, inflacionária e atinge diretamente o mercado de trabalho. É o caos. Deveria ter feito o oposto: aumentar o investimento em grandes projetos públicos.

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A advogada de acusação, Janaína Paschoal. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

                                   Seja como for, o cenário descrito acima, que é uma tradução jornalística de um complexo quadro técnico, resultou numa coalizão oposicionista. As elites econômicas do país, o grande capital, inclusive estrangeiro, além da grande mídia, se juntaram à baixaria política para impedir o mandato de Dilma. Não que ela tivesse cometido crimes de responsabilidade por “pedaladas” fiscais (representam apenas 0,18% das contas públicas) ou três decretos de suplementação de crédito (um deles no valor de 300 mil reais). Mas por causa do quadro geral da economia, onde as empresas viram ameaçadas as suas taxas de lucro, incluindo as empresas públicas. A isto se somam os escândalos de corrupção, o pecado capital dos governos petistas. Certamente, não foi o PT que inventou a corrupção política, mas foi apanhado com a boca na botija e deu o pretexto para o golpe parlamentar em curso.

                                   Os sujos (o ambiente político) se uniram aos maus lavados (o empresariado sonegador), na opinião do senador conservador Magno Malta. A dobradinha responde pelo impeachment de Dilma, cuja autoria pode ser questionada, mas que coincide com uma boa parcela da opinião pública. Dilma já caiu. Seremos governador por Michel Temer e o PMDB, que concentra uma série de acusações judiciais. É um fato já consumado. Um jogo de cartas marcadas, que confirma uma máxima da política: “A gente só se reúne quando tudo já está combinado”. Toda a acirrada discussão no Senado é uma perda de tempo.

                                   O jornalista Renan Miranda, que foi meu chefe em O Globo, nos anos 1970, me deu a melhor definição sobre o que é um tobogã: “Lá vou eu, sem mim”. É assim que vai este país.  

         

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O jornalismo brasileiro perde dois de seus grandes nomes: Luís Felipe Goulart de Andrade e Geneton Moraes Neto. Morreram do coração – como viveram do coração. Dói demais.

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Goulart de Andrade: uma perda irreparável.

                                   Em suas longas carreiras, esses jornalistas deram dignidade à profissão de repórter. Criaram estilos próprios, inconfundíveis. Goulart praticamente inventou o plano-sequência na TV, com o famoso “Vem comigo”, fazendo com que a câmera o seguisse sem cortes. Nos  conhecemos no Globo Repórter, início dos anos 1980. Produziu e dirigiu o famoso “Comando da Madrugada”, que foi ao ar na Globo, na Manchete e na Band, colocando inteligência nos fins de noite da telinha. Eu o chamava de “o homem que inventou a reportagem”.

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O repórter passou toda a vida na TV.

                                   Goulart de Andrade filmou a própria morte, quando teve um enfarte ao fazer uma matéria no Incor, em São Paulo. Foi salvo pelo médico Euclydes de Jesus Zerbini, que realizou o primeiro transplante de coração no Brasil. Goulart me contou: “Fiquei três minutos apagado”. E acrescentou: “Mas o médico se chamava Jesus…”. A cena foi exibida no Globo Repórter. Uma das coisas mais notáveis da carreira dele foi a entrevista que fez com um carroceiro no centro de São Paulo. O homem falava cinco idiomas e era leitor de Dostoiéviski e Sartre. Vivia na rua por opção. Goulart tinha fixação nos personagens do povo, gente desconhecida, anônima. Eu e ele costumávamos nos encontrar, na minha casa ou na dele. Podíamos passar uma noite inteira conversando.

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                                   Geneton fez proezas. Inventou a reportagem-dossiê, uma marca registrada. Era um pesquisador implacável. Os entrevistados tinham medo dele. Publicou 11 livros com temas jornalísticos. Foi um dublê de repórter e editor no Fantástico, na época em que fui diretor-geral do programa. Na Globonews, produziu dezenas de documentários, todos criados por ele. Escrevia, filmava e editava as suas matérias. Falava baixo, era calmo e doce. Ele me deu a honra de escrever o prefácio de um dos meus livros, “Assalto ao Poder”, publicado pela Editora Record em 2010. Quase em todas as vezes que falei em público, em palestras ou reuniões profissionais, lá estava o Geneton. Era um amigo incondicional. Um dos livros de Geneton, “Cartas ao Planeta Brasil”, é um clássico da história recente do país, um retrato sem retoques do regime militar através dos personagens mais importantes da trama.

                                   Os dois morreram do coração, como viveram do coração. Dói demais.

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Faltam 3 dias para o início do julgamento de Dilma. Ela quer ir ao Senado, enfrentar seus adversários, olhos nos olhos. Vai registrar o encontro fatal com câmeras de cinema. Dilma pretende entrar para a história do Brasil.

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Temer e Dilma, aliança fracassada. Ironia da história.

 

                                   Uma das minhas boas fontes em Brasília, um cara ligado por tabela ao governo petista, apesar de não ser ele mesmo do PT, me garantiu que Dilma Rousseff decidiu cair de pé. Vai ao julgamento de seu mandato no Senado, encarando seus agressores. Com tal atitude, renuncia à ideia de renunciar. E comete mais um erro – ao menos na minha modesta opinião. A minha fonte, o jornalista aposentado Pinheiro do Vale, que já assessorou ministros e parlamentares, é um observador atento das tramas palacianas e congressuais. Ele me mandou um longo email explicando o motivo da resistência extremada da chefe do Estado brasileiro, a primeira mulher a ocupar o posto. Pinheiro costuma contribuir voluntariamente para este site de opinião e tem enorme taxa de acertos nas análises que faz.

                                   Sendo assim, acompanhem o artigo do jornalista, sob o título de “O último ato: Dilma sem medo”:

“A presidente afastada Dilma Rousseff decidiu protagonizar o último ato do momento histórico que vive: comparer à sessão final do Senado, que decidirá sobre o impeachment (29 de agosto).
Dilma vai ao Congresso para fazer o registro histórico de seu papel na vida do país, aconteça o que acontecer.
No plenário, vai enfrentar as raposas felpudas, os chacais sanguinários da política, os adversários leais e os pusilânimes. Todos estarão à sua frente. Ela estará olhando para a História e se colocando como a imagem da “Dilma Guerreira do Povo Brasileiro”, bordão de campanha e que agora se cola à sua biografia. ‘Dilma sem medo’ é o título de um filme.

A decisão de ir ao plenário firmou-se por sugestão do marqueteiro João Santana, que está por trás do documentário sobre o impeachment, que produtora dele vem rodando desde antes do golpe chegar ao ponto em que chegou. Percebendo que poderia acontecer o pior, há meses, os cinegrafistas e produtores já começaram a captar imagens e sons, fazendo um registro minucioso dos acontecimentos em todos os palcos, nos palácios e nas ruas.
Nos últimos dias, essas equipes têm trabalhado intensamente: no plenário do Senado, a produção colhe assinaturas de anuência de imagem entre os assessores parlamentares que frequentam aquele recinto. Não querem problemas com a Justiça sobre eventuais ações tentando obstar a exibição da obra.

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O Congresso Nacional, cenário da batalha política.

Mesmo preso, Santana criou a obra derradeira. Dilma vai olhar seus algozes, olho no olho. Vai chamar os traidores às falas, vai ameaçar seus adversários com o facão da História.

Para Dilma, não vai ser aquele passeio diante das câmeras da TV Senado, em que parlamentares interpretam suas pantomimas diante de depoentes intimidados, muitas vezes humilhando nos interrogatórios, aquele festival de platitudes para se mostrar nas telas.
Ninguém ficará impune. Dilma vai com tudo. Esse documentário correrá o mundo. Será uma obra de grande competência técnica e artística. Terá a força para vencer festivais importantes, como Cannes, Veneza etc. Talvez um Oscar.

Cada um terá de pensar muitas vezes antes de abrir a boca. Podem preferir o mutismo. Ou mesmo a ausência. Neste caso, pode-se alterar o placar? É uma última esperança de criar um constrangimento. Os apressados que se cuidem. Naquele plenário há pessoas com biografias a zelar, como ex-governadores de estados importantes, acadêmicos de prestígio, políticos com futuro. As imagens e os sons ao vivo e a cores são indeléveis.

Não há como manipular um plano em sequência. Dilma está preparada para a grande cena. Sua carta aos senadores é um texto para a História, disseram alguns analistas. Isto deve ser lido como um roteiro e um script para os acontecimentos.

Foi para dar esse recado ao mundo e à História que Dilma incluiu no texto as referências às prisões e torturas, aparentemente menções descabidas num documento dessa natureza. João Santana, do fundo de sua cela, enquanto se curvava a carcereiros e interrogadores, criava o movimento mais brilhante de sua carreira de marqueteiro político”.

                                   O texto de Pinheiro do Vale me sugere a seguinte pergunta: será o projeto do filme a obra-prima do marqueteiro político do PT? Ou a derradeira tentativa de sobreviver de Dilma, a Luíza da luta armada contra a ditadura? Quem viver, verá.

 

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Deu tudo certo: fizemos uma Olimpíada memorável. Os Jogos da Paixão, no Rio, impressionaram o mundo. A festa teve a cara do povo. Mas não se sabe quanto custou a brincadeira.

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O brasileiro mostra a cara e faz a olimpíada da alegria. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

 

A Rio 2016 foi um colírio para um pais que não tinha boas notícias há vários anos. Vimos espetáculos grandiosos, como a festa de abertura, fruto da criatividade brasileira. Houve competições sensacionais. Para os torcedores nativos, show de bola no futebol e no vôlei. Ganhamos 19 medalhas: 7 de ouro, 6 de prata e 6 de bronze. Na classificação geral, 13º lugar. Melhor do que em Londres, mas muito abaixo do esperado. Atletas de renome mundial declararam amor ao Rio, enquanto quatro palhaços americanos inventaram assaltos para esconder farra e bebedeira.

O carioca confirmou a facilidade com que recebe gente de fora, para deleite dos estrangeiros. Com a presença do maior dispositivo policial-militar da história do país, os índices de violência despencaram nesses 19 dias de provas. E não apenas pelo aparato de segurança. Foi porque o povo estava mobilizado, curtia a festa e ainda faturava algum em meio à pior crise econômica que já vivemos. Uma turista americana, que havia perdido o celular na praia de Copacabana, ficou espantada ao ter o aparelho devolvido: “Se fosse no meu país (USA), talvez não o tivesse de volta”. Terrorismo, então, nem pensar.

Mas as contas da Olimpíada ainda não fecharam. A estimativa é de 37 bilhões de reais. Dava para construir uma enormidade de escolas e postos de saúde. Na verdade, parece que há uma vontade deliberada de que os detalhes do preço não sejam conhecidos do grande publico. Só para variar. Apesar da desconfiança – melhor seria dizer suspeita – a respeito de governantes e comitês organizadores, vimos bandeiras inimigas tremulando juntas. Lado a lado. Pacificamente. O Patropi parece ser  um lugar especial no mundo. Mas vem viver aqui pra você ver!

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Dilma será julgada pelo Senado na semana que vem. É o último ato do governo petista. Ela não tem nenhuma chance. E tem sido aconselhada a renunciar, para evitar a cassação dos direitos políticos.

Dilma divulga carta aos senadores e aos brasileiros. Foto Agência Brasil;

 

                                   Muita gente – inclusive este locutor que vos fala – acredita que Dilma Rousseff vai renunciar à Presidência na próxima quarta-feira. Na véspera do início do julgamento no Senado. Até as crianças da escola primária sabem que ela não tem chances de sobreviver no cargo. Mulher corajosa, apelidada de “Coração Valente”, Dilma resiste à ideia. Quer, inclusive, ir ao Senado para enfrentar cara a cara seus opositores. Será um massacre, transmitido ao vivo pela TV. A menos que ela use a oportunidade para revelar os podres de certos senadores, que ela conhece bem. Coisa muito difícil de acontecer. Neste pais, a podridão na política é discutida enter quatro paredes – e em voz baixa.

                                   A renúncia encerra o processo. Dilma, cuja pessoa física não é acusada de nada, poderia se candidatar ao Parlamento, em 2018, como deputada federal ou senadora. E teria boas chances. Mas a mulher é turrona, agressiva, e talvez prefira cair de pé. Se optar por tamanho gesto desabrido, será esquecida em pouco tempo. Se quiser continuar na política, vai sobreviver por um bom tempo. Conselheiros, amigos e familiares insistem na tese da renúncia. Mas Dilma é uma personalidade difícil. Ela detesta a ideia de perder no tapetão de Brasília. Só que vai. Vai mesmo.

                                   Dilma Vana Rousseff nasceu mineira, dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o episódio mais dramático da historia humana. Tinha 17 anos quando houve no Brasil o movimento cívico-militar que derrubou o presidente João Goulart. O Golpe de 1964. Militante da juventude estudantil rebelde, pregou a luta armada contra a ditadura, a tomada do poder pela violência e o socialismo. Fez parte de organizações de extrema-esquerda, como a Política Operária (Polop) e o Comando de Libertação Nacional (Colina). Foi dirigente da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), cujo nome se reporta à maior rebelião de escravos no Brasil colonial. Foi chamada de Lúcia, Luíza e dezenas de outros codinomes. Esteve na liderança da VAR, onde propunha ações revolucionárias contra os militares. Vem daí a alcunha de “Coração Valente”.

                                   Dilma foi apanhada pelos militares no dia 16 de janeiro de 1970. Estava em um bar na Rua Augusta, centro de São Paulo, onde esperava um companheiro que havia cedido à tortura. Ela não sabia. Estava armada, mas não teve nenhuma chance de resistir à abordagem dos agentes de segurança. Foi levada para a sede da “Operação Bandeirantes”, na Rua Tutóia, mais tarde conhecida como DOI-CODI. Um centro de torturas do regime militar. Como descreve o jornalista Percival de Souza no livro “Autópsia do Medo”, biografia do delegado do DOPS paulista Sérgio Fleury, ao chegar na OBAN, Dilma, algemada, foi recebida por um coro de “mata, mata”. Apanhou durante 22 dias. Bateram nela com a palmatória, instrumento de tortura usado no tempo dos escravos. Foi pendurada no pau-de-arara, instrumento de tortura inventado por brasileiros. Levou choques elétricos na boca.

                                   Não se sabe o que Dilma revelou em tais “interrogatórios”. Se fosse algum grande segredo da guerrilha, os militares já o teriam divulgado. A própria Dilma não comenta esse assunto. Ela faz de conta que nada disso aconteceu.

                                   Agora: tentar fazer essa mulher renunciar será tarefa quase impossível. Ou não? Parece que ela vai para a forca de cabeça erguida. Como é do seu estilo.  

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Olimpíada vai custar quase 37 bilhões de reais e supera a Copa do Mundo em 43%. É dinheiro que não acaba mais. E ainda tem a Paralipíada, que está exigindo verbas complementares. Justiça bloqueia novos repasses públicos.

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Ginasta Arthur Zanetti é prata nas argolas. ( Fernando Frazão/Agência Brasil)

                                    Enquanto vemos o Brasil despencar no quadro de medalhas olímpicas (hoje estamos em 29º lugar), os custos da festa mundial dos esportes atingem proporções astronômicas. É a velha história de sempre. A Rio 2016 pode custar 43% a mais do que a Copa do Mundo de 2014, onde naufragamos por 7 a 1 contra a Alemanha. Somando os dois eventos, poderíamos cobrir uma boa parte do déficit público brasileiro. A Rio 2016 está avaliada em 37 bilhões de reais, muito mais do que o dispêndio anual do Bolsa Família, para citar só um exemplo. Curioso: recentemente a cidade de Estocolmo, na Suécia, decidiu não realizar jogos olímpicos de inverno em 2018: um plebiscito escolheu construir habitações populares de baixo custo. Cada um responde por cada qual!

                                   E assim vamos nós. A Justiça Federal determinou o bloqueio de repasses públicos para o Comitê Organizador do Rio, por “falta de transparência nas contas”. Não se sabe exatamente quanto estamos gastando do dinheiro público. Na Suécia seria assim? Duvido. É bom frisar: o nosso problema não é de povo – é de governantes. O brasileiro faz a sua parte para abrilhantar a grande festa.

                                   Algumas coisas que não aconteceram na Olimpíada de Londres: nenhuma câmera de televisão do COI caiu sobre as pessoas (aqui tivemos 7 feridas, 4 hospitalizadas); nenhum nadador estrangeiro foi assaltado em uma falsa blitz, onde ladrões armados usavam coletes iguais aos da polícia; não havia esquemas de prostituição ao redor da vila olímpica, envolvendo meninas de 13 e 14 anos; os narradores da BBC não gritavam histericamente nas provas onde havia ingleses, especialmente diante de resultados duvidosos. Há, com certeza, muitas outras diferenças. No entanto, os brasileiros fornecem o tempero de paixão à torcida, tanto que espantou a mídia americana. Aliás, reclamam de barriga cheia: se você assistir a um jogo de beisebol entre o “New York Yankees” e o “Boston Red Sox”, vai ficar impressionado com as vaias.

                                   O tom da imprensa dos Estados Unidos dá a entender que ainda somos tupiniquins.  

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