Pedido de prisão de Renan, Cunha, Jucá e Sarney é o naufrágio do modelo político brasileiro, destruído pela corrupção. É a falência da própria República.

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Sarney, Renan, Jucá e Cunha na cadeia? Imagem do portal O Globo.

Já não temos presidente eleito. Dilma foi afastada e não deve voltar. O vice Michel Temer virou interino e não tem substituto. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, está suspenso e também afastado. Agora a Procuradoria-Geral da República pede a prisão dele e do presidente do Congresso Nacional, senador Renan Calheiros. E do presidente do PMDB, Romero Jucá, que foi ministro por alguns dias e caiu por acusações de obstrução da justiça. E Janot, o procurador, também pede a prisão do ex-presidente José Sarney, 86 anos, cuja detenção seria substituída por medidas restritivas da liberdade, como o uso de tornozeleira eletrônica e confinamento domiciliar.

A cúpula do PMDB, partido do presidente interino Michel Temer, é acusada de receber 70 milhões de reais em propinas. A prisão dos líderes peemedebistas está nas mãos do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF). O pedido da PGR chegou ao STF há duas semanas e estava sendo estudado pelo ministro com cuidado, dada a gravidade das consequências. O magistrado vinha, inclusive, consultando seus pares, para sentir o pulso da corte. Ontem (6 jun), estranhamente, o pedido de prisão “vazou” para o jornal O Globo. Foi manchete na edição de hoje. Pode ter sido uma forma de pressionar Teori Zavascki. Mas quem conhece o ministro sabe que ele não decide sob pressão. Teori deve levar o caso ao plenário do STF.

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O procurador Rodrigo Janot. Imagem TV Justiça.

Colocar essa gente na cadeia, ainda que por um dia, dará ao brasileiro uma alegria de final de campeonato. Algo para comemorar. Por outro lado, representa a falência do modelo político brasileiro, o presidencialismo de coalizão, submetido ao poder econômico e corroído pela corrupção. É tão grave, que seria preciso refundar a República e começar tudo de novo. O país não pode prosseguir com governantes e políticos dessa espécie.

O Congresso, apesar de eleito livremente, não presta contas ao país e legisla em causa própria. Não aprova nenhuma reforma que atenda ao interesse nacional. Principalmente, não aprova nada que possa resultar em ameaças aos privilégios da classe política. E os governantes eleitos? Não conseguem governar sem fazer acordos com esse Parlamento. E acordos significam: grana no bolso deles e mais privilégios. É um círculo viçoso e insolúvel. Se o país não romper esse impasse, não tem futuro.

O governo interino de Temer está afogado em acordos, loteando cargos e tentando apagar as marcas dos 13 anos do PT no governo. Demite 100 funções de confiança por dia. Isso não é para fazer economia. É para passar uma borracha na história petista e abrir espaço para a nova ordem conservadora. O governo do PT foi derrubado a propósito de combater a crise econômica e o desequilíbrio das contas públicas. Até agora Temer não apresentou uma proposta clara de mudança na política econômica – e continua dependendo do Congresso para aprovar as medidas necessárias, um dos motivos do fracasso de Dilma. Ou seja: depende de agradar esses políticos.

Deputados e senadores se beneficiam imediatamente das fraquezas do novo governo. Além de exigir participação no poder, para si ou para os apadrinhados, aproveitam o vácuo político para aprovar as chamadas pautas-bombas, todas contrárias ao interesse do país. Nas últimas semanas já aprovaram gastos que podem somar mais de 60 bilhões de reais. Isso é umm terço do rombo nas contas públicas. Abriram 14 mil novas vagas no funcionalismo. E tramam aumentos para os seus próprios vencimentos. São como hienas farejando sangue.

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General vai auxiliar Michel Temer a monitorar movimentos sociais e grupos radicais. O novo ministro do GSI quer evitar surpresas como as grandes manifestações de 2013, que pegaram o governo desprevenido. Temer terá informações exclusivas sobre o quadro político.

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O general Sérgio Etchegoyen.

 

                                   O general Sérgio Westphalen Etchegoyen vem de uma família de militares gaúchos. Tem 64 anos, é casado, pai de três filhos e avô. Seus colegas de farda o consideram um comandante linha dura, um dos responsáveis pelo Plano Nacional de Defesa. Tem experiência de comando de tropas e missões no exterior. Era chefe do Estado Maior do Exército quando foi convidado para o cargo de ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Temer recriou o gabinete, extinto por Dilma, por sugestão do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, e do ex-ministro da Defesa Nelson Jobim. Com a nomeação, Michel Temer fica bem na foto com os militares.

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Ele foi um dos criadores do Plano Nacional de Defesa.

                                   O general Etchegoyen assume também o comando da Agência Brasileira de Informações (Abin), que tem tarefas de informação, contrainformação e espionagem. O general será o interlocutor do governo com toda a área de inteligência militar. Caberá a ele o monitoramento dos movimentos sociais, especialmente no campo, e de grupos radicais nas cidades. Entre os alvos na zona rural estão o MST, a Liga dos Camponeses Pobres (atua na região amazônica), a Via Campesina e outros grupos menores, todos de esquerda. Nas cidades, a preocupação é com o MTST, o MEPR (Movimento Estudantil Popular Revolucionário), os black blocs, anarquistas e tendências jovens dispostas a recorrer à violência durante protestos.

                                               Os militares acreditam que grupos radicais de direita podem surgir. Estão preocupados, inclusive, com o fato de a lei brasileira antiterror ainda não ter sido completamente regulamentada, mesmo às vésperas dos Jogos Olímpicos. O acompanhamento dos grupos de direita e de esquerda prevê a infiltração de agentes. Em relação a partidos políticos (PSTU, PCO, PCB etc), às centrais sindicais e grandes movimentos como a UNE, o GSI terá papel de “análise de posições, com vistas a antecipar ações em futuro imediato”. O presidente Michel Temer, enquanto ocupar essa posição, vai receber relatórios e explicações da inteligência a respeito do cenário político.

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O diretor da Abin, o general e o presidente. Foto PR.

                                   O general Sérgio Etchegoyen foi o primeiro militar da ativa a protestar contra o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, em 2014, que apontava seu pai, o também general Leo Etchegoyen, como envolvido em supostos crimes políticos durante a ditadura militar. O novo ministro do GSI, à época, divulgou uma nota em nome da família. Disse que a CNV era leviana, covarde e baseada em falsas acusações. Pouco depois, um grupo de 27 generais assinou um manifesto com teor semelhante.

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Henrique Meirelles, superministro de Temer, assume protagonismo do governo. Fala mais do que todo mundo e aparece como a face da “salvação nacional”. No entanto, até agora, o projeto econômico não tem nada diferente de Joaquim Levy ou Nelson Barbosa.

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Meirelles aparece mais do que Temer e assume protagonismo do governo.

 

                                   Estou com a sensação de que já vi esse filme. O Ministro de Fazenda assume a liderança do governo para implantar um plano mirabolante de salvação das finanças do país. Foi assim quando Itamar Franco convidou Fernando Henrique Cardoso para “conduzir” o Plano Real, cuja formulação econômica não tinha nada de FHC. Deu certo. O projeto era muito bom, reunia algumas das melhores mentes do país. O resto da história a gente já sabe.

                                   Com Henrique Meirelles acontece algo semelhante: todas as esperanças de brasileiros e brasileiras estão depositadas em seus ombros. Só que não tem o plano. Até agora, não apresentou nada diferente do que havia sido proposto por Joaquim Levy e Nelson Barbosa. Estabeleceu uma meta de déficit fiscal e agora quer aprovar uma nova DRU (desvinculação de receitas da União). Dilma já tinha feito isso, mas o Congresso se recusou a ajudar. Na época do Itamar, deputados e senadores apoiaram decisivamente o Plano Real. Essa mesma atitude pode se repetir com Michel Temer. Mas, cadê o plano?

                                   Enquanto um governo “sério” parece se restringir à área econômica, no plano político a trapalhada só faz aumentar. O ministério de Temer é um castelo de cartas, soprado ao vento de gravações de conversas comprometedoras, cujos atores são os colaboradores mais íntimos. Em 19 dias, caíram dois ministros. Outros dois estão ameaçados. Pior: as revelações deixam claro a existência no governo Temer de um forte sentimento contra a Lava-Jato. As gravações indicam que um grande acerto estava na base das articulações para afastar Dilma Rousseff. É preciso não esquecer que este é um governo formado por congressistas – e sabemos que a maioria deles responde a ações penais, dezenas delas nos inquéritos da Lava-Jato. Tudo que eles mais gostariam seria o fim dessas investigações. Fariam qualquer coisa por isso.

                                   O ambiente de confusão e bizarrice no governo começa a ter consequências graves. Alguns senadores que votaram a favor do impeachment de Dilma estão revendo as suas posições. Vou citar apenas três nomes: Romário (PSB-RJ), Acir Gurgacz (PDT-RO) e Cristovam Buarque (PPS-DF). Além do mais, cresce no ambiente do Senado a mobilização em torno da convocação de novas eleições. Tudo isso é ruim para Michel Temer. E complica o afastamento definitivo de Dilma.  

 

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Governo Temer não tem projeto e repete o velho discurso monetarista. Com apenas uma semana no poder, empresários e sindicatos ameaçam retirar apoio. Fiesp não aceita aumento de impostos e a Força Sindical não concorda com os planos para a previdência.

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Temer monta governo conservador e não revela planos. Foto Agência Brasil.

                 Um problema de saúde – repentino e grave – me impediu de acompanhar o epílogo de Dilma Rousseff. Tive que fazer uma cirurgia de emergência e ainda estou hospitalizado. Ao reentrar na atmosfera, esperava um país mudado. Que nada! O governo de Michel Temer não tem projeto e fica repetindo o discurso monetarista de controle das contas públicas para produzir superávit primário. Ou seja: pagar juros da dívida interna. Isso todo mundo sabe. Esperava alguma ideia genial, um novo Plano Real, sei lá o que. Pelo tom da oposição nos últimos dias de Dilma, amplificado pela grande mídia, parecia que teríamos outro país já no dia seguinte. Mas da cartola do velho Temer não saiu nenhum coelho.

                                   A equipe econômica, chefiada por Henrique Meirelles, é aquela clássica: banqueiros e economistas que acreditam no controle da inflação através da recessão e com juros altos. Eles querem cortar despesas públicas, inclusive pessoal, e privatizar o máximo que for possível.  Pretende enxugar programas sociais e retirar incentivos fiscais à produção. Desejam reescrever a Constituição para desindexar a economia, reduzindo as despesas obrigatórias na saúde e na educação e alterando os critérios de correção automática do salário-mínimo e das aposentadorias. Meirelles já disse que não descarta aumento de impostos, incluindo a volta da CPMF, como queria Dilma. Disse que previdência é problema econômico e não social. Que o desemprego vai atingir 14% e que as leis trabalhistas devem ser alteradas.

                                   Em apenas seis dias de governo, o Ministro da Fazenda provocou a ira da Fiesp e da Força Sindical, dois dos maiores aliados da mudança que não houve. Meirelles também disse que não pode propor medicas concretas porque não sabe exatamente qual é o tamanho do rombo nas contas públicas. Alguém no novo governo arriscou  um número: 150 bilhões de reais. Ao que tudo indica, com este cenário, não haverá nada de muito especial em matéria econômica. Meirelles e seus economistas vão tourear a crise no dia a dia e sem grandes acontecimentos. E este governo vai acabar antes que surja qualquer sinal contundente de retomada do crescimento, coisa esperada apenas para 2019, tal foi o estrago da administração petista. Portanto, nada de novo no horizonte.

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Marcela e Temer preparam mudança para Brasília. Foto de divulgação.

                                   Agora: em matéria de conservadorismo político, Temer já mostrou a que veio.  O lema do governo será “ordem e progresso”, baseado no positivismo europeu do Século 19, presente na Proclamação da República, quando já era velho. Faltou imaginação? Não tinha marqueteiro para pensar em algo na linha de “Brasil: país de todos”? O novo presidente decidiu fechar 9 ministérios, entre os quais vários que refletiam o avanço dos diretos civis no país, como a pasta das mulheres, direitos humanos e igualdade racial. Nada doeu tanto, porém, quanto o fim do Ministério da Cultura, provocando revolta no meio artístico e intelectual. O fim do MinC foi saudado pela bancada evangélica, porque era considerado um “antro de esquerdistas”. Para os 23 ministérios restantes, Temer nomeou 13 congressistas (57%), um recorde.

                                   Ou seja: o presidente vai governar com os olhos voltados para o Congresso. Talvez isto sirva para aprovar algumas medidas de ajuste fiscal, que Dilma não conseguiu, mas vai produzir um dramático isolamento social. Será um governo impopular e marcado por protestos.                          

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Decisão unânime do STF derruba Eduardo Cunha. A Suprema Corte manda recado claro: Cunha já era! Deputado diz que foi uma punição política e promete recorrer. Por outro lado, STF legitima o impeachment e facilita a vida de Michel Temer.

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O ministro Teori Zavascki derruba Eduardo Cunha. Imagem da TV Justiça. Reprodução do portal O Globo.

                                    O Supremo Tribunal Federal (STF), na sessão desta quarta-feira (5 maio), decidiu suspender o mandato do deputado Eduardo Cunha e afastá-lo da presidência da Câmara. Foi unânime. Cunha é acusado de usar o cargo para obstruir a Justiça – o mesmo Cunha que já é réu na corte por evasão de dividas, sonegação, lavagem de dinheiro e outras cositas. Foi decisão unânime, porém liminar, atendendo a relatório do ministro Teori Zavascki, que foi seguido por todos os outros e apoiado pelo procurador-geral, Rodrigo Janot.  

                                   A tradição do STF indica: quando a decisão é unânime, é difícil apresentar recurso que tenha qualquer esperança de ser acatado mais tarde. Ou seja: fim de linha para o presidente da Câmara. Se for esperto, renuncia, para tentar voltar eleito em 2018, escapando de perder os direitos políticos por oito anos. No entanto, após a decisão, o deputado já mandou dizer que não vai abrir mão nem do cargo, nem do mandato. É uma provocação inútil para um STF que já virou essa página, tanto de Cunha quanto de Dilma. E Lula ainda está pendurado na pena de Teori Zavascki.

                                   Falta resolver o problema de Renan Calheiros, presidente do Senado, também réu na Suprema Corte, e do novo presidente da Câmara, o deputado Waldir Maranhão (PP-MA), que tomou posse hoje, também investigado. Isto sem falar em outras dezenas de senadores e deputados, entre os quais Aécio Neves e Romero Jucá. Vamos ver se haverá Teori para toda essa gente. Na Câmara, o deputado do Maranhão pode renunciar ao cargo sem qualquer viabilidade e convocar novas eleições. Seria uma saída decente. Vamos ver. E se as investigações forem levadas às últimas consequências, não vai restar ninguém de pé.

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Brasília – O deputado afastado Eduardo Cunha fala à imprensa sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal de manter seu afastamento da Câmara (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

                                   O outro lado dessa moeda é que o STF acaba de legitimar o impeachment da presidente. A tese do golpe parlamentar se esfarela. Antes era uma vingança de Cunha – e agora é o que? O processo segue no Senado, com desfecho previsto para o dia 11. E o próprio Temer, o maior beneficiário da crise, respira aliviado. Agora só terá que tomar cuidados para não nomear políticos investigados na Lava-Jato para o seu “governo de salvação”. Ou vai vestir de novo a carapuça do golpe. Só que, ao lado dele, há vários indigitados por corrupção. Temer terá inteligência política bastante para resolver o impasse? Ou prefere ser chamado de golpista?

                                   Quanto a Dilma, Lula e o PT, o cenário é confuso. Ela e seu partido descem a rampa do Planalto. Mas o metalúrgico nordestino é um dos favoritos para 2018.  

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A terra treme em Brasília: Janot denuncia Dilma, Lula, José Eduardo Cardozo e a cúpula do PT por obstrução da justiça e organização criminosa. O Procurador-Geral disse que Lula “é o chefe da quadrilha”. Ministros do STF mandam recado para Eduardo Cunha: renuncie já! E o PSDB mente ao dizer que não vai participar do governo Temer. Terá ao menos 3 ministros pós-Dilma.

 

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Rodrigo Janot denuncia Dilma, Lula e toda a cúpula do governo petista. Foto de divulgação.

Um terremoto, seguido de tsunami, varreu Brasília nesta terça-feira (3 maio). O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciou a linha de frente do governo petista ao Supremo Tribunal Federal (STF). As acusações: obstrução da justiça, com tentativas de prejudicar as investigações da Lava-Jato, e organização criminosa. Dilma Rousseff, Lula, José Eduardo Cardozo, Jaques Wagner, Ricardo Berzoini e outros 30 nomes estão na denúncia de Janot. Também há acusações contra parlamentares, alguns ex-ministros, do PSDB e do PMDB. A lista completa, infelizmente, não vazou para a mídia. Porque está tudo sob segredo de justiça.

A decisão do procurador é inédita na história republicana. Acusa pessoalmente a presidente Dilma. Na pessoa física, quando ela já responde a processo de impeachment no Senado. E quando o fim do governo já tem data marcada por acordos políticos. Janot chuta cachorro morto. Acusa o ex-presidente mais popular na história deste país, Lula, com vistas a torná-lo inelegível em 2018. Diz que Lula comanda a organização criminosa que assalta os cofres públicos desde o “mensalão”. Afirma que tem gravações telefônicas (legais?) que atestam a participação do ex-presidente como “chefe da célula criminosa”. Acusa o ex-ministro da Justiça, atual Advogado Geral da União, Cardozo, de tentar deter a marcha do judiciário. E de quebra joga a lama da denúncia sobre importantes ministros do governo, entre os quais Wagner, Berzoini, Mercadante, Edinho Silva e não se sabe quantos mais.

Curioso: mesmo sob segredo de justiça, a denúncia saiu nos telejornais da noite, incluindo os nomes mais importantes. Vazou? Rapidamente, ganhou a mídia digital, com opiniões contra e a favor da medida. Mais curioso ainda: o mesmo procurador enviou ao STF, em dezembro do ano passado, um pedido de afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, por corrupção, evasão de divisas, fraudes fiscais e lavagem de dinheiro. Não foi julgado até agora, quatro meses depois do pronunciamento de Janot contra Cunha. Muito mais curioso ainda: Cunha e Renan Calheiros, juntos, respondem a 18 inquéritos penais no Supremo. Nada decidido até agora. Mas Dilma deve deixar o governo em uma semana.

Li na coluna da jornalista Helena Chagas (portal Os Divergentes de hoje), ela que foi ministra da Secom sob Dilma, que magistrados do STF estão mandando insistentes recados a Eduardo Cunha (nada publicável, é claro), dando sinais que a corte vai afastá-lo da presidência da Câmara dos Deputados. Sinalizam para que ele renuncie ao cargo antes do STF bater o martelo. O STF não deseja interferir no afastamento de um presidente de outro poder, que já responde a processo no Conselho de Ética da Câmara. Teori Zavascki, relator dos processos da Lava-Jato, teria dito, segundo Helena, que vai levar o caso de Cunha ao plenário do tribunal nas próximas sessões. E o tribunal, devedor de explicações à opinião pública, vai crucificar o deputado. O mesmo Teori é o ministro responsável por aceitar ou não as novas denúncias de Rodrigo Janot.

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José Serra, nos tempos da resistência contra a ditadura. Imagem: Arquivo Nacional-EBC.

Em meio a essa turbulência, como se comporta o partido presidido por Aécio Neves? O PSDB se reuniu nesta terça-feira para decidir: na reunião plenária dos tucanos, Aécio defendeu que o partido não se envolva diretamente com o provável governo Temer, um desastre anunciado. Na saída, Aécio disse aos jornalistas que os tucanos apoiam Temer no ambiente do Congresso. Mas sem reivindicar cargos no governo. Pura mentira. Na verdade, o PSDB resolveu: quem for convidado para o ministério de Temer não vai sofrer nenhuma sanção do partido. Ou seja: vai participar do chamado “governo de salvação nacional”. E com ao menos 3 ministros, entre os quais José Serra, nas relações exteriores. Diga-se: o Chanceler do Brasil, cuja missão é explicar ao mundo que não houve um golpe parlamentar no país. Vocês acreditam, leitores, que José Serra, ex-presidente da UNE, exilado durante a ditadura, vai se dar a um papel como esse?

Não acredito. Mas pode. Serra, outra tragédia brasileira.

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Dilma já disse: se perder no dia 11, é carta fora do baralho. E ninguém gosta de jogar com carta fora do baralho. Vale como explicação para Lula não ter ido ao Anhangabaú?

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Separados pelo palanque. Foto do Portal Alagoas 24 Horas.

Recebemos do jornalista Pinheiro do Vale, antigo frequentador dos bastidores planaltinos, uma versão no mínimo curiosa para a ausência de Lula no palanque do 1º de maio. Trata-se de um atento frequentador dos círculos do poder em Brasília. Acompanhe a tese de Pinheiro do Vale:

                                   “Em boca fechada não entra mosca. Foi atentando a esse ditado popular que o ex-presidente Lula tomou a decisão de não comparecer ao palanque oficial do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, no Primeiro de Maio.
As grandes expressões das forças remanescentes da Base Aliada subiram e se postaram ao lado da presidente Dilma Rousseff, num ato político contra o impeachment, mas que, também, poderia ser qualificado de semioficial, uma vez que ela anunciou ali algumas medidas de governo, como o aumento do Bolsa Família e nova fórmula para o Imposto de Renda.

                                   “Falar manso depois de tudo que Lula andou dizendo em outros palanques pareceria incoerente ou sugeriria um recuo. Abrir a boca seria correr um risco desnecessário. O exemplo é o seguinte: o líder da Contag, Aristides dos Santos, dias antes fora chamado a depor na comissão especial do INCRA e FUNAI da Câmara dos Deputados.
Aristides fez uma daquelas bravatas comuns nos discursos de lideranças sem-terra. Mas a bravata foi dita no Palácio do Planalto, em frente à presidente da República. Deu pretexto à bancada da direita. Se fosse ao Anhangabaú, Lula iria falar num palanque que tinha a bordo a presidente. Seria muito arriscado.

“Lula pautou-se pela análise de custo-benefício daquele evento. As suas palavras não mais poderiam mudar nada. Na Comissão do Senado as cartas já estão abertas. O resultado dessa fase está selado. O que ele falar daqui por diante já estará noutro contexto: será parte da campanha eleitoral. Correr o risco de depor na Câmara, acusado de incitar violências, seria uma exposição infantil. Os exemplos estão fresquinhos: convocações inúteis de depoentes protegidos por habeas corpus para se negarem a responder a perguntas muitas vezes capciosas. É só vexame inútil. Melhor não se expor.

“A garganta de Lula anda mal, constituindo-se num álibi perfeito para justificar a ausência. A campanha das eleições está na rua. No domingo à noite, a TV Brasil já botou no ar um cartão pedindo antecipação das eleições presidenciais. É quase uma proposta oficial. Há um movimento forte entre essas correntes no sentido de que a presidente Dilma Rousseff encaminhe o quanto antes, enquanto ainda está na presidência, uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) mudando as regras e convocando eleição imediata.

“Há dúvidas se uma PEC pode mexer numa cláusula pétrea, como o mandato presidencial. Mas seu encaminhamento, originado no Executivo, tem força suficiente para botar o assunto no espaço político-legislativo. A interrupção do mandato viria no bojo de uma reforma política mais ampla, mexendo em toda a legislação política. No caso das prerrogativas do governante, daria ao chefe do Executivo a faculdade de chamar eleições sempre que perdesse a viabilidade política, como no caso presente, sem a necessidade de um trauma como o impeachment.

“É nas crises que se fazem as mudanças.
Por isto, Lula teria ponderado: como Aristides Santos, teria que ouvir calado ofensas a título de inquirição, proferidas com violência. Tudo diante das câmeras, assistido na tevê por sua família, amigos e correligionários. Uma verdadeira cadeira do dragão. Por outro lado, responder àquelas afirmações de deputados protegidos pela imunidade, seria um verdadeiro tiro no peito. Melhor não ir ao comício”.

 

Como podemos observar pelas palavras do jornalista Pinheiro do Vale, não há colher de chá na luta política. Só os muito ingênuos e os idealistas acreditam que o interesse público há de prevalecer. Nada disso. É pau puro. Aqui, neste site, defendemos a convocação de eleições gerais. Não é possível que a mudança fique nas mãos de um Congresso capitaneado por Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Como expressão da mídia independente, não confiamos em Michel Temer e no PMDB.   

 

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1º de maio levou trabalhadores contra e a favor do impeachment a manifestações em todo o país. Dilma discursou em São Paulo denunciando um golpe. E anunciou reajuste no Bolsa Família e na tabela do Imposto de Renda.

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São Paulo – Manifestação de 1° de Maio organizada pela CUT, no Vale do Anhangabaú, conta com a presença da presidente Dilma Rousseff (Rovena Rosa/Agência Brasil)

                                    A presidente Dilma anunciou neste 1º de maio, Dia do Trabalho, um reajuste médio de 9% para o  Bolsa Família, o projeto de distribuição de renda que é a marca do governo petista. Quarenta e oito milhões de pessoas serão beneficiadas pelo aumento. O anúncio foi feito em manifestação convocada pela CUT, a Frente Brasil Popular e o os movimentos por moradia, que os organizadores afirmam ter reunido 100 mil pessoas no Vale do Anhangabaú, centro da capital paulista. Lula não apareceu. Dilma repetiu a tese de que está sendo vítima de um golpe. Disse que um governo de Michel Temer e do PMDB iria acabar lentamente com a Bolsa Família. Segundo ela, 36 milhões de brasileiros ficariam sem o benefício.

                                   No mesmo ato, Dilma também anunciou uma correção de 5% na tabela do Imposto de Renda. Isto significa: quem ganha até 1.990 reais fica isento do imposto. A oposição reagiu imediatamente: seria uma vingança de Dilma contra o impeachment, aumentando o rombo fiscal do país. A presidente, em seu discurso de meia hora, acusou Temer de querer “privatizar tudo o que for possível”. E avisou: “A primeira vítima dessa lista (de privatizações) será o pré-sal”. Ou seja: mais um episódio da luta política instalada no país.

                                   A partir desse 1º de maio, começa a contagem regressiva para o fim do governo petista. Faltam só 10 dias para a votação do afastamento da presidente pelo Senado. No Planalto, quase ninguém acredita que ela vá escapar. O PT aposta que o futuro do partido está na candidatura de Lula em 2018. E ele é uma das maiores forças polícias atuando no cenário, seguido de Marina Silva e Aécio Neves, nessa ordem, de acordo com as pesquisas eleitorais. O PT e os movimentos sociais prometem continuar com as manifestações de rua, que devem crescer até 11 de maio.

                                   Como dizem os torcedores, haja coração!  

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Janaína Pascoal, advogada autora do pedido de impeachment de Dilma, dá depoimento estapafúrdio à comissão do Senado. Desequilibrada. Foi ouvida em silencio acachapante pelos senadores. Ninguém acreditava no que estava ouvindo.

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Imagem se divulgação Janaína .

 

                                   Um dos depoimentos à comissão do impeachment no Senado Federal, nesta quinta-feira (28 abril), pela oposição à presidente Dilma, surpreendeu pelo desequilíbrio emocional. Janaína Paschoal, advogada, signatária do processo, parecia inteiramente fora de si. Chorou. Gritou no plenário. Parecia fora de si. Alguns senadores comentaram que estava além da razão. Talvez bêbada ou drogada. Pode isso?

                                   Ao assistir ao depoimento, fiquei estarrecido. São esses os argumentos contra Dilma? Com esse tipo de interlocutora? Já vimos a bandalheira na Câmara, tudo em nome de Deus e da família. No Senado, esperávamos algo melhor. Pelo menos um português mais escorreito. Nada disso, caros leitores. Foi outro espetáculo de baixaria. E com essa advogada confusa, esfumaçada. Sabe-se lá do que. Penso que estamos perdendo a esperança. De vez. O depoimento da Janaína foi um desastre. Total. É nisso que estamos apostando?

  

 

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Dividido, PSDB não sabe o que fazer com o governo Temer. E o vice perdeu a timidez: antes um conspirador nas sombras do Planalto, agora está trabalhando abertamente para assumir sem ser votado.

 

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Sorridente, Michel Temer assume o papel de vencedor. Foto de divulgação.

                                   “Antecipar as eleições presidenciais é golpe”. A frase, dita por Michel Temer nesta terça-feira (26 abril), revela que o vice deixou de lado a timidez e resolveu assumir que deseja o Planalto. Ele desceu de um “silêncio respeitoso”, que na prática nunca existiu, para vestir a carapuça de que conspirou mesmo para derrubar o governo. Certo de que Dilma Rousseff será afastada pelo Senado no dia 11 de maio, trocou de máscara. Aparentemente, Temer tem razão na avaliação que faz da postura dos senadores: Dilma não terá nenhuma chance na votação. Há no Senado, a se confirmarem as pesquisas da mídia, hoje, pelo menos 50 dispostos a impedir o mandato da presidente. Só faltam 4 para o quorum necessário.

                                   Mas as dificuldades de Michel Temer estão apenas começando. Para formar o que chama de equipe de “salvação nacional”, ele precisa atrair a parte confiável da oposição. Ou seja: os tucanos. “Quero o PSDB inteiro” – Temer também declarou nesta terça. Caso contrário, a  “salvação” será composta apenas pela ratatuia do PMDB e mais alguns oportunistas de última hora. Pobre Temer. Se isto se confirmar, o governo dele será um desastre colossal. Aos mais íntimos, costuma dizer que os 54 milhões de votos da Dilma também foram endereçados a ele. Acredita mesmo nisso?

                                   O projeto econômico do PMDB, liderado por Michel Temer e referendado por Delfin Neto, Armínio Fraga e Henrique Meireles, vai exigir medidas altamente impopulares. A “Ponte para o Futuro” aposta na recuperação a partir do aprofundamento da recessão – o modelo monetarista clássico. Aumento dos juros e dos impostos, contenção de salários e benefícios, revisão constitucional de conquistas trabalhistas que vem de Vargas e Jango. Acha que pode desindexar o salário-mínimo e as aposentadorias. Quer cortar ministérios e cargos de confiança. Vai atingir o coração do funcionalismo público, um dos setores mais reativos da massa trabalhadora. Encrenca pura. E isto significa perda de votos. Ah, sim: pretende redimensionar os programas sociais do PT, o que, na prática, significa redução de gastos. E mais perdas de votos.

                                   Certa vez, no ano passado, quando rolou nas redes sociais a informação de que a Bolsa Família iria acabar, centenas de milhares de pessoas, em todo o país, correram às agências dos bancos públicos. Era só um boato. Dilma teve que ir à TV desmentir. A Bolsa Família beneficia algo como 48 milhões de brasileiros. Se você quiser quebrar o sistema financeiro, promova uma corrida aos bancos. Lá não existe dinheiro de verdade, que possa ser sacado na boca do caixa. É tudo uma ficção contábil.

                                   Este é o dilema de Michel Temer. Aponta para uma conflagração social de larga escala.

                                   E os tucanos, o fiel da balança da crise? Estão divididos. José Serra defende a ideia de que deve aceitar um cargo importante na transição. Talvez a saúde ou a educação, vistosas vitrines eleitorais. Aécio Neves, derrotado por pouco em 2014 (3,27% dos votos válidos), pensa diferente. Acha que o partido pode apoiar Temer no Congresso, mas não se confundir com ele na prática política. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, parece que vai  na mesma linha: apoiar sem se compromete. Eles têm a intuição do desastre. O guru FHC ainda não se pronunciou. E os observadores da cena política dizem: Aécio e Alckmin fecharam um acordo. O mineirinho se candidata à presidência em 2018. Alckmin se candidata ao Senado, na mesma eleição. Com isso, isolam Serra. Ou sai do partido – ou vai brincar de outra coisa. E o famoso PSDB assume uma posição olímpica, que os eleitores jamais vão entender.

                                   Resta observar o oposto do tabuleiro: o PT. Dilma e Lula, que não será ministro nem terá foro privilegiado na Lava-Jato, se reuniram hoje. O tema: abandonar as perspectivas de continuar no governo e montar um movimento de resistência ao golpe. Isto quer dizer: voltar às origens do Partido dos Trabalhadores. Disputar as eleições municipais deste ano denunciando o golpe. Eleger prefeitos e vereadores. Recompor a base social do partido, devastada pelas denúncias de corrupção. Preparar o PT para 2018. Olham de frente para uma perspectiva sombria: foram vítimas de um golpe, mas ainda acreditam na sobrevivência da legenda, que terá que começar tudo de novo.  

  

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