Exagero da Lava-Jato cria fato político: Lula é levado para depor de camburão. Foi um balde de gasolina na crise. A mídia internacional chegou a dizer: Lula está preso.

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Lula, após detenção, faz pronunciamento.

                                   A operação “Em busca da verdade” (Aletheia, em grego) da Polícia Federal, desencadeada às seis horas da manhã desta sexta-feira (4 mar) em São Bernardo do Campo (SP), onde mora o ex-presidente Lula, se transformou em um espetáculo impressionante. Ocupou todas as emissoras de rádio e televisão, além da mídia digital, durante o dia inteiro. A 24ª fase da Lava-Jato teve o líder metalúrgico como alvo principal. Sob mandado de condução coercitiva, assinado pelo juiz Sérgio Moro, Lula foi levado de casa. Esse tipo de ordem judicial é uma medida de força, aplicável quando um acusado ou testemunha se recusa a prestar esclarecimentos, sendo conduzidos pela polícia.

                                   Luís Inácio já havia prestado dois depoimentos à PF. Só que desta vez não foi intimado. O juiz optou por uma forma branda de detenção. A explicação: a polícia comunicou por escrito ao juiz da Lava-Jato ter informações de que haveria séria perturbação da ordem pública com o depoimento de Lula, o que obrigaria ao recurso do mandado de condução. Pior: ao invés de ser levado para a sede da Superintendência da Polícia Federal paulista, como seria óbvio, Lula foi conduzido ao Aeroporto de Congonhas. Por que? Segundo a PF, pelo mesmo motivo de evitar perturbação da ordem. Foi interrogado na ala destinada às autoridades, durante mais de três horas.

                                   Curioso: por volta das duas da manhã desta sexta, alguns jornalistas foram informados da 24ª fase da Lava-Jato. Tanto que alguns deles postaram mensagens na Web. E quando a operação começou, havia câmeras por todo lado. Na casa de Lula, na sede da PF e até – pasmem – no Aeroporto de Congonhas. Como, se a ideia era o sigilo absoluto para evitar confrontos? Em frente ao aeroporto  havia inclusive fogos de artifício, instalados para protestar contra o ex-presidente. E houve confrontos, é claro, com gente ferida, repórteres agredidos, câmeras quebradas etc.

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Manifestantes atacam repórteres.

                                   Não quero aqui discutir as suspeitas dos federais a respeito do ex-presidente. Eles acreditam: Lula chefiava a organização criminosa que saqueou a Petrobras. Já ouvi isso, pessoalmente, diversas vezes. Dizem que Lula recebeu benefícios pessoais antes, durante e depois da Presidência. Que era o poder oculto por trás de José Dirceu. E que as empresas públicas foram “aparelhadas”. Não sou petista e apoio as investigações, desde que estejam de acordo com o Estado de Direito. Pague quem tiver que pagar. Mas o que ocorreu hoje, no entanto, foi um ato político coercitivo e deliberado, destinado a aprofundar o desgaste do governo Dilma e do PT. E com vistas a um golpe de estado. Até o Aécio Neves disse coisa parecida na tarde de hoje, alertando para que divergências não se transformem em violências e rupturas da ordem constitucional e democrática. Hoje já vimos uma miniatura disso, com grupos opostos se agredindo na rua – e com a polícia batendo em todos. Daí para um conflito em larga escala é só um passo.

                                   Como a maioria dos brasileiros, concordo: o governo Dilma é péssimo. Com profundas divergências ideológicas, sem programa definido, com o loteamento de cargos e funções, é incapaz de propor soluções para a crise. Não resolve nem a política, nem a economia, que amargou redução de 3.8% no ano passado.  Está enredado no lamaçal da política de coalizões, lidando com um Congresso oportunista. E é bom lembrar: os presidentes das duas casas do Parlamento são acusados de crimes graves. Entre os parlamentares, 160 deputados e 31 senadores respondem a algum tipo de ação penal. O país se envergonha dos seus políticos, já comparados com os ratos em uma antiga pesquisa de opinião.

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A PM tentou separar os manifestantes de cada lado.

                                   E é preciso dizer também: a Lava-Jato não é a solução dos nossos problemas, apesar de que, em tese, devemos apoiá-la, por ser a maior devassa contra a corrupção que este país já viu, somando bilhões e bilhões de reais desviados do bolso do contribuinte. Sérgio Moro não é, supostamente, candidato a nada. Está condenando bravamente alguns poucos corruptos atingidos pelas leis comuns. Não chega aos potentados, que têm foro privilegiado. O próprio termo já revela o conteúdo – o privilégio. Sérgio Moro e a sua Lava-Jato ficam pelas bordas. Agora há pouco, o ministro Marco Aurélio Mello, da Suprema Corte, um conservador, disse que o juiz de Curitiba atropelou as regras no caso de Lula. É verdade.

                                   Precisamos entender que as soluções não virão pela via judicante. O judiciário é um regulador de coisas já existentes. Lida com o passado, o crime já cometido. Não enxerga o futuro. As soluções virão pelo entendimento político. É a política, como ciência, e não como mendicância, que vê o futuro. As soluções virão por meio de um grande pacto nacional de todas as forças envolvidas. Englobam a situação, a oposição, os independentes – menos os criminosos. Caso contrário, teremos um golpe. Já vimos esse filme em vários outros tempos.

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O juiz Sérgio Moro, que comanda a Lava-Jato.

                                   Na tarde dessa sexta-feira fatídica, a opinião de Aécio Neves chamou a minha atenção. Não gosto dele. É um precário herdeiro de Tancredo Neves. Mas teve a visão correta: se não agirmos agora pelo entendimento, o golpe será inevitável. E como o golpe, de fato, vai começar? É simples: as divergências se transformam em ódio e violência, que se espalham pelas ruas; a violência exige a intervenção das forças que possuem armas; os atingidos também procuram as armas; e o conflito se generaliza.

                                   Desse modo, o Patropi ensolarado vira uma Colômbia.

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Eduardo Cunha perde de 10 a 0 no STF. Mas agora a crise política atende pelo nome de Delcídio do Amaral. O senador do PT envolve Lula e Dilma na Lava-Jato.

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Eduardo Cunha: Supremo aceta denúncias por unanimidade.

 

O Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade (dez votos a zero, já que um ministro estava ausente), aceitou as denúncias do procurador-geral Rodrigo Janot contra o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). É a primeira vez que um presidente da Câmara Federal se torna réu em uma ação criminal na Suprema Corte. O deputado agora responde por corrupção passiva e lavagem de dinheiro (Inquérito 3983 da PGR). Se condenado, ainda pode ser penalizado pelos crimes de peculato, sonegação fiscal e formação de quadrilha, que somam dezenas de anos de prisão. Cunha foi acusado de receber 5 milhões de dólares em propinas relativas a contratos da Petrobrás.

O STF também aceitou as denúncias contra a ex-deputada federal Solange Almeida (PMDB-RJ), atual prefeita da cidade fluminense de Rio Bonito. Oito dos 10 ministros afirmaram que há indícios de que ela foi cúmplice dos crimes atribuídos ao presidente da Câmara. Em voto eminentemente político, o ministro Celso de Mello, decano da corte, afirmou que a Lava-Jato investiga a maior organização criminosa do país, cujo objetivo é se apoderar das instituições. O plenário da corte seguiu o voto do ministro-relator Teori Zavascki, cujo conteúdo técnico e sóbrio ganhou a unanimidade.

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Delcidio do Amaral: bomba-relógio em Brasília.

A crise política ficou ainda mais grave nesta quinta-feira (3 mar) com a revelação de que o senador Delcídio do Amaral (PT-MS), ex-líder petista no Senado e homem de confiança de Lula e Dilma, estaria negociando uma delação premiada com o Ministério Público. Delcídio foi preso em novembro do ano passado. Ficou 87 dias na cadeia. Neste período, segundo a revista IstoÉ, teria prestado seis depoimentos aos federais, relacionando Lula e Dilma aos crimes investigados pela Lava-Jato. A notícia-bomba, que havia sido antecipada por O Globo, explodiu hoje de manhã em Brasília, provocando enorme confusão.

Delcídio se considera abandonado pelo PT, que chegou a suspender a filiação partidária do senador. O ministro José Eduardo Cardozo, agora na Advocacia Geral da União, disse aos jornalistas que se trata de uma retaliação, acrescentando que o provável delator “não tem credibilidade”. Declaração forte, especialmente contra um parlamentar que privou da confiança do Planalto por vários anos. A suposta delação de Delcídio do Amaral é dinamite pura. E já inflamou a oposição: PSDB e DEM querem que os tais depoimentos sejam incluídos no pedido de impeachment da presidente, aceito por Eduardo Cunha e que está parado por decisão do STF. Cunha tentou atropelar a Constituição e foi barrado pela Suprema Corte.

Esta quinta-feira, dia em que o IBGE anunciou que a economia brasileira encolheu 3,8% em 2015, vai deixar consequências na vida política nacional. Em primeiro lugar, a oposição se anima para fazer avançar o impeachment da presidente Dilma, cujo governo está acuado. Em segundo lugar, deve resultar na cassação de Delcídio pelo Conselho de Ética do Senado. E, em terceiro, pode (ou deve) resultar na queda de Eduardo Cunha. De acordo com o voto do ministro Celso de Mello, antecipando um julgamento de mérito, um parlamentar acusado de crimes tão graves não pode ter mandato – muito menos chefiar um dos poderes da República.

Mas as leis do Patropi são generosas.

 

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Está na mesa da presidente Dilma a lei brasileira contra o terrorismo. A nova legislação diz que manifestações políticas, religiosas ou étnicas não são atos de terror.

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A sombra do terrorismo na Olimpíada do Rio.

                                   Com um ano de atraso, e sob forte pressão internacional, o Congresso aprovou na última quarta-feira (24 fev) o projeto de lei contra o terrorismo no Brasil. O texto deixa bem claro que manifestações políticas, sociais, sindicais, religiosas e étnicas não serão enquadradas como atos de terror. Isto é uma garantia ao Estado de Direito no país, porque assegura a liberdade de expressão e permite protestos até mesmo contra o governo.

                                   Então, o que é terrorismo? Pela nova lei, é o seguinte:

                                   Usar ou ameaçar usar, transportar, guardar, portar ou trazer consigo explosivos, gases tóxicos, venenos biológicos, químicos ou nucleares ou outros meios capazes de provocar danos ou promover destruição em massa serão considerados crimes de terrorismo.

                                   Incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou quaisquer bens públicos ou privados serão considerados atos de terror. Da mesma forma, interferir, sabotar ou danificar sistemas de informática ou banco de dados, os chamados crimes virtuais, também entram na lista. Atentados contra a vida e a integridade física das pessoas é terrorismo.

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Câmara aprova lei contra o terrorismo.

                                   A lei ainda prevê punições contra atos de sabotagem que visem impedir ou controlar com violência (ou grave ameaça) os meios de comunicação, transporte, as redes de computadores, portos, aeroportos, hospitais, estádios, bancos e instalações petrolíferas. As penas: de 12 a 30 anos de prisão em regime fechado. E podem ser combinadas com outros artigos do Código Penal.

                                    Evidentemente, a nova legislação se destina especialmente à segurança dos Jogos Olímpicos do Rio. O Brasil vinha recebendo pesadas críticas do exterior. Países que vão mandar delegações ao país, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Rússia e Israel, entre outros alvos do terrorismo internacional, estavam pressionando. Mas a nova lei, preocupada (e com razão) com o direito de opinião, evitou cuidadosamente citar palavras como “extremismo”, “fundamentalismo”, “islamismo” e coisas mais.

                                   Além disso, deixa um tanto vaga a ação legal em relação às associações transnacionais com o terrorismo. Por exemplo: um brasileiro que se filie ao Estado Islâmico, mas que não cometa atentados no país, não será considerado um terrorista. Quero dizer: o sujeito tem o direito de se associar ao ISIS, desde que não cometa crimes no Brasil. E se ele cometer um atentado fora do território nacional? Ah, isso não é problema nosso. E há outro problema: nossos legisladores também evitaram definir o terrorismo em escala global. Portanto, quem é terrorista?

                                   A diplomacia brasileira não considera o Hezbollah e o Hamas como organizações terroristas. Trata-os como partidos políticos legais, contrariando a opinião de meio mundo. Condena as ações da Al Qaeda e do Estado Islâmico, mas, ao contrário dos Estados Unidos, afirma que as FARCs colombianas são “parte beligerante” numa guerra civil. E por aí vai, cumprindo a pauta de um país neutro. Particularmente, acho que o Itamaraty tem razão de ficar ao largo desses conflitos, mas a nossa lei antiterror ficou um tanto capenga. A França, a maior democracia do mundo, suspendeu algumas liberdades individuais para combater o extremismo, como prender sem ordem judicial. E o povo francês aprovou.

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Falhas na nova lei: não há definição do terrorismo internacional.

                                   É claro que estamos muito longe do verdadeiro cenário do terrorismo. Fomos a primeira nação a reconhecer a existência do Estado de Israel, em 1948, por obra do chanceler Oswaldo Aranha. Há uma rua com o nome dele em Tel Aviv. Agora defendemos a criação do Estado Palestino. E condenamos os massacres israelenses contra os povos de Gaza e da Cisjordânia. A diplomacia brasileira apoia a autodeterminação dos povos. E isso é ótimo. Só que as Olimpíadas nos colocam ao centro dos acontecimentos. Os terroristas seguem a mídia. Eles atacam onde as câmeras estão.

                                   Recentemente, um porta-voz do Estado Islâmico postou na Web: “Brasil, você é o nosso próximo alvo”.

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ISIS monta exército de crianças para combater na Síria e no Iraque. O número de baixas fatais entre menores jihadistas triplicou nos últimos dez anos.

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O drama das crianças na guerra.

A milícia extremista islâmica ISIS (ou Daesh, como é mais conhecida no mundo árabe – ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante, em inglês) está recrutando um exército de crianças para combater em nome de Alá. Os soldados-meninos estão em operação no norte do Iraque e nos territórios da Síria ocupados pela facção. Têm entre 6 e 14 anos, são filhos de milicianos ou órfãos de guerra. O ISIS dá a essas crianças uma tarefa assustadora: são agora os principais propagandistas da organização, participando de execuções e explodindo carros cheios de reféns. Também são usados para intimidar a população civil, patrulhando as zonas ocupadas junto com os adultos. E tudo vai sendo filmado para exibir na Internet e nas emissoras de televisão de todo o mundo.

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Jovem combatente afegão.

Um estudo do Centro de Combate ao Terrorismo, da academia militar de West Point (EUA), publicado na semana passada, nos dá a exata medida deste novo drama da guerra moderna. Acompanhe:

“A força ideológica do discurso jihadista sobre diferentes gerações é um dos principais caminhos percorridos pelos menores de 18 anos ao interior dos campos de batalha. Apenas no último ano, 89 ‘jovens mártires’ conquistaram o status de heróis pelas suas operações de guerra nas propagandas da insurgência e foram estudados pelo Centro de Combate ao Terrorismo. Dentre eles, 67% vinham de diferentes regiões na Síria e no Iraque — embora o poder do Estado Islâmico também chegue às camadas mais jovens de países como Iêmen, Arábia Saudita, Tunísia, Líbia, Reino Unido, França, Austrália e Nigéria”. (Edição online de O Globo de 19 de fevereiro)

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Ele quase não consegue segurar o AK-47.

Em todos os tempos, crianças foram usadas nos campos de batalha. Durante a invasão nazista da Rússia (1941-1943), percorriam as áreas de conflito para recolher cápsula de balas destinadas a serem recarregadas. No Vietnã, estavam na guerrilha contra os invasores estrangeiros, japoneses, franceses e americanos. Nas guerras tribais da África, meninos eram sequestrados e incorporados à força nas milícias. Mas foi nos enfrentamentos com os palestinos, no Oriente Médio, que a atual crise teve início. Crianças-soldados eram vistas com frequência nas fileiras do Hezbollah (Líbano) e do Hamas (Gaza).

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Crianças combateram na Rússia.

Mas, em termos de brutalidade, o ISIS superou tudo isso. As crianças viraram “a face da insurgência”. São exibidas como heróis e mártires. Algumas participaram da execução dos próprios pais. Na propaganda radical islâmica, a mensagem é clara: “Viemos para ficar. A próxima geração de combatentes já está aqui”.

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Brasil mobiliza 85 mil agentes para a segurança das Olimpíadas deste ano. Mas o governo teme ataque terrorista em agosto. A sombra de Paris ronda os jogos no Rio de Janeiro.

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O Centro Integrado Antiterrorismo, em Brasília;

O governo brasileiro finaliza o esquema de segurança para os Jogos Olímpicos no Rio. Será a maior operação policial e militar já vista no país, reunindo duas vezes o efetivo de proteção usado em Londres no ano de 2012, que era o recorde. Serão 85 mil homens e mulheres das Forças Armadas, polícias estaduais, federal e defesa civil. Mesmo não havendo registros de ações terroristas no país nos últimos 35 anos, as autoridades esperam “o pior cenário”. Após os ataques da Al Qaeda e do Estado Islâmico na França, no ano passado, o terrorismo é agora a principal preocupação.

Um especialista no tema, Pascal Boniface, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos de Paris, declarou à Folha de S. Paulo (edição online de 4 de fevereiro): “Não podemos esquecer que os terroristas procuram impactar a opinião pública. O risco terrorista acompanha as câmeras”, que vão registrar os jogos. Mesmo ressaltando que o Brasil está distante dos conflitos que envolvem o Islã, o professor alerta: o perigo é real. Por causa da imensa repercussão do esporte olímpico.

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Policiais treinam para atuar nas Olimpíadas 2016.

Até ocorrerem os ataques em Paris, a estratégia brasileira, baseada nas experiências da Copa das Confederações, da visita do Papa Francisco e da Copa do Mundo, estava focada em ações do narcotráfico, roubos e sequestros e manifestações políticas violentas. Agora tudo mudou: o governo conta com a chegada de extremistas, até porque, durante as Olimpíadas, vai haver uma série de facilidades para conceder vistos para turistas. No dia 16 de novembro do ano passado, segundo a Folha, um porta-voz da milícia radical islâmica ISIS (EI), o jihadista francês Máxime Hauchard, procurado em todo o mundo, postou na Internet: “Brasil, você é o nosso próximo alvo”.

O Brasil não possui uma legislação específica para punir atos terroristas, desde que a Lei de Segurança Nacional (LSN), dos tempos do regime militar, caducou. Há projetos neste sentido tramitando a passos de tartaruga no Congresso. Aparentemente, falta vontade política para transformar tais projetos em leis. Em entrevista às emissoras de televisão, a presidente Dilma Rousseff já disse que precisamos aprovar essas medidas. Não fizemos nada até agora. Mas firmamos importantes acordos internacionais, ligados ao alerta mundial antiterrorismo. Já temos um sistema que permite saber, em tempo real, quem está embarcando em direção ao país de qualquer ponto do planeta.

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Força de choque para reprimir manifestações políticas.

Recentemente, foi criado em Brasília um Centro Integrado Antiterrorismo, controlado pela Polícia Federal. Centenas de agentes policiais estrangeiros vão atuar no país, incluindo a CIA, o DEA, o FBI e a Europol.  Mas o tabuleiro da crise de segurança é complicado: temos mais de 15 mil quilômetros de fronteiras terrestres, por onde entram drogas e armamento sofisticado para o crime organizado. Nunca foi possível deter esse movimento. Em 2016, a responsabilidade aumenta: vamos receber 10 mil atletas de mais de 200 países, além de milhões de amantes dos esportes olímpicos. As transmissões de televisão devem chegar a 2 bilhões de pessoas em todo o mundo.

É o cenário perfeito.

 

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Confronto entre facções deixa 52 mortos e 12 feridos graves em penitenciária do México. É a guerra dos cartéis das drogas. O tráfico corrompe as polícias, os tribunais e os governos locais.

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Parentes de presos, desesperados, tentaram invadir presídio. Foto AP.

                                            Um dia antes da visita ao México do Papa Francisco, o mundo é surpreendido com a notícia de um massacre na penitenciária de Topo Chico, interior do país. O confronto entre bandos de traficantes rivais presos, representando duas das maiores facções criminais mexicanas, Los Zetas e o Cartel do Golfo, resultou, até agora, em 52 mortos e 12 feridos graves. Presos foram decapitados, enforcados e atirados do alto das galerias. Alguns foram incinerados. Depois do Carandiru (111 mortos em 1992), em São Paulo, este pode ser o segundo maior massacre penitenciário do continente.

                                            Um dos temas da visita do Sumo Pontífice ao México, país de maioria católica, é justamente a questão penitenciária. Francisco tem presença confirmada no presídio de Ciudad Juarez, onde deve falar sobre superlotação, direitos humanos e as tragédias do narcotráfico. Agora já não se sabe se a visita vai se realizar. A guerra dos cartéis é antiga e já provocou milhares de mortes. Hoje os traficantes mexicanos são os maiores compradores da cocaína produzida na Colômbia – e são os responsáveis pela entrada da droga nos Estados Unidos e Canadá. Um negócio de vários bilhões de dólares por ano.

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Cocaína e maconha dos cartéis, apreendias pela polícia mexicana.

                                            Em janeiro de 2012, segundo a edição online da Folha de S. Paulo, Los Zetas haviam matado 31 traficantes do Cartel do Cabo. Foi no interior de um presídio federal superlotado. No mês seguinte, trucidaram outros 44 presos da facção rival. Como acontece aqui no Patropi, no México o crime organizado domina as cadeias. Um relatório do governo daquele país, datado de 2013, afirma que são os presos que decidem quem vive ou morre atrás das grades: entre 101 penitenciárias, as facções controlem 65 delas.

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Membros das gangues na cadeia.

                                            E a guerra das drogas se estende às ruas das cidades do México. Lá as Forças Armadas estão na linha de frente do combate. Contam com apoio financeiro e logístico dos Estados Unidos – e mesmo assim não conseguem controlar a situação. Uma das causas desse fracasso é a enorme corrupção patrocinada pelo narcotráfico, que está infiltrado nas polícias, nos tribunais e nos governos.  

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Investigadores do DHPP prendem gangue de matadores e acabam com o mito do “serial killer” do Grajaú. No final das contas, era só um bando de vingadores.

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Tatiane, 23 anos, que a polícia acusa de pertencer ao grupo de matadores. Foto Estadão.

                                             A delegacia de homicídios de São Paulo solucionou as mortes misteriosas ocorridas no extremo sul da capital. Os seis homicídios, inicialmente com características da ação de um assassino em série, foram esclarecidos em poucos dias. A polícia descobriu uma testemunha, mantida em segredo, que levou à prisão do bando. Era um grupo de moradores pobres que invadiu um terreno no bairro do Grajaú e construiu barracos de madeira. Cansados dos frequentes roubos, praticados por viciados em drogas, fizeram justiça com as próprias mãos. Quatro mulheres e dois homens foram enforcados pelo bando. E o DHPP ainda descobriu um sétimo homicídio atribuído aos vingadores.

                                            Como todos os crimes aconteceram numa área de três quilômetros de extensão, por três quilômetros de largura, e com as mesmas características, surgiu o mito do “serial killer” do Grajaú. Foram presos uma mulher, dois homens e um adolescente, que confessaram os crimes. Dois ainda estão foragidos.  Não que isso seja melhor do que um “serial killer”, mas dá um certo alívio.

                                            A área invadida por 600 pessoas pertence à CDHU, empresa de habitação do governo paulista. Estava destinada à construção de imóveis populares.      

 

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Assassino em série assusta a zona sul de São Paulo. Depois de seis homicídios em uma mesma área, polícia monta força-tarefa para pegar o “Serial Killer do Grajaú”.

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Um “serial killer” na periferia de São Paulo?

                                            Um criminoso selvagem e misterioso está matando uma pessoa a cada cinco dias no bairro do Grajaú, extremo sul da capital paulista. Entre 26 de dezembro do ano passado e 31 de janeiro deste ano, foram dois homens e quatro mulheres. Os crimes, brutais, estão sendo investigados pela Homicídios (DHPP) e mais quatro delegacias da região. A polícia diz que se trata de um assassino em série, porque identifica várias características comuns aos seis casos, como se os crimes tivessem apenas um autor.

                                            A principal marca de um “serial killer” é a sua “assinatura”: em todos os ataques ele repete o mesmo tipo de agressão (modus operandi) e suas vítimas têm semelhanças físicas ou comportamentais. Na mente de um “serial killer”, mesmo que tenha eliminado 50 pessoas, ele está sempre “matando” a mesma vítima, como se fosse a mesma pessoa. No caso do Grajaú, as seis vítimas estão envolvidas com drogas e prostituição.

                                            As quatro mulheres eram garotas de programa – entre os homens mortos, um era travesti. Todos tinham cordas, ou fios elétricos ou cabos metálicos amarrados ao pescoço, indicando algum grau de esganadura. Os peritos encontraram sinais de violência sexual. Alguns tiveram partes dos corpos carbonizadas. Apenas uma mulher tinha ferimento compatível com um tiro na cabeça. O criminoso não tentou esconder os corpos. Ao contrário, uma das vítimas foi largada no meio da rua, como se fosse de propósito. Essa é outra característica do “serial killer”: ele quer reconhecimento público para a sua “obra”.

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O mais famoso “serial killer” do país ainda está preso.

                                            Mais um detalhe curioso, que aumenta o mistério em torno do criminoso: as ruas onde os corpos foram encontrados têm nomes incomuns, até estranhos. Uma delas se chama Estrela que Brilha, outra é a Rua Constelação do Caranguejo, ou a Rua Constelação do Erídano, ou a Rua Ana Velha. Observei os nomes ao estudar o mapa da área em que os corpos foram encontrados. Pode não significar nada, mas é bem esquisito.

                                            Antes dos crimes, o Grajaú já era um dos piores lugares para se viver em São Paulo. O distrito é pobre, com iluminação deficiente e lá não existe aquela abundância de câmeras de vigilância que se observa em lugares mais abastados. Não há testemunhas e não foi possível fazer um retrato falado do assassino. Dentre as seis vítimas, cinco eram conhecidas da polícia: drogas e prostituição. A área dos crimes é relativamente pequena (cerca de 10 km2) e concentra a marginalia: viciados, traficantes, travestis, prostitutas, catadores, moradores de rua. É a “boca do lixo” do extremo sul.

                                            O bairro começou a crescer nos anos 1950. Hoje tem mais de 50 mil habitantes e pelo menos uma centena de favelas, com milhares de casebres e barracos. O ‘Mapa da Desigualdade”, elaborado pela “Rede Nossa São Paulo”, informa que o Grajaú é o pior lugar da capital paulista, tal a quantidade de problemas: da violência às inundações de verão. Entre 55 indicadores de qualidade de vida, o Grajaú tem 32 com a pontuação mais baixa. E agora, para completar o circo dos horrores, tem um “serial killer”.

                                            O FBI, a polícia federal americana, tem estudos aprofundados a respeito dos assassinos em série. Apesar de terem apenas 5% da população mundial, os Estados Unidos concentram 84% de todos os casos do gênero desde 1980. Os federais americanos dão algumas dicas importantes. O primeiro homicídio, por exemplo, geralmente ocorre em um lugar que o predador conhece bem, porque mora ou trabalha nas vizinhanças – ou porque o local faz parte de suas memórias de infância, ou porque é passagem obrigatória para o assassino. O “serial killer” tem distúrbios mentais ou neurológicos, ou as duas coisas, que o colocam na categoria das psicoses agudas, inclusive com delírios. Ele acredita que está cumprindo uma missão – e muitas vezes pode estar ligado a igrejas ou instituições sociais.

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Os mais famosos na história do FBI.

                                            Na imensa maioria dos casos, os assassinos em série sofreram maus tratos e abusos na infância. Pode ser (ou foi) interno de entidades que cuidam de menores. Quando era jovem, entre 8 e 10 anos, praticou violência contra outras crianças ou animais. Um dos pistoleiros de aluguel da Cosa Nostra, a Máfia americana, conhecido como “o homem de gelo” (Richard Kuklinski, 1935-2006 ), matou todos os cães e gatos do bairro pobre em que nasceu, na cidade de Nova Jersey. O gangster, que entrou para a lista de “serial killers” do FBI, disse ter assassinado mais de 200 pessoas.   

                                            A aparência pacata normalmente esconde o criminoso cruel, já que o assassino em série descrito pelos especialistas do FBI não tem emoções como as pessoas comuns. Não tem medo, nem pena de ninguém, nem arrependimento. Muitas vezes alega receber orientação divina. Ou diabólica. É provável que esteja ou já tenha estado em tratamento psiquiátrico. Vale observar se há hospitais ou ambulatórios psiquiátricos na região dos crimes, porque o matador pode ser um de seus pacientes.

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Ao centro, Charles Mason. Ele comandou massacres na Califórnia.

                                            O FBI recomenda dar ampla publicidade aos crimes, por meio dos jornais, rádios e televisão. Além de eventualmente atrair alguma testemunha, a divulgação mexe com a cabeça do criminoso. Como o sujeito, em seu delírio, está em busca de reconhecimento, pode ser levado a cometer erros que ajudem na investigação. Alguns deles  procuram familiares das vítimas, escrevem cartas misteriosas e tentam “explicar” a sua brutalidade. Outros fazem contato com a polícia. Há em suas mentes, segundo os pesquisadores, um desejo de ser apanhado. Só assim o mundo entenderá a sua “obra”. Quem espera que o nosso criminoso em série seja  notável, pelo físico ou inteligência, está enganado: é um cara comum, parecido com qualquer outro.  

 

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BC mantém a Selic em 14,25%, com medo de que o remédio amargo mate o doente. Mas o governo não faz nada para deter a escalada dos juros nos bancos privados do país. As taxas já passaram de 431% ao ano.

 

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Juros de 431% nos cartões de crédito.

                                   A política econômica pós-Levy está baseada no seguinte: aumentar impostos, baixar juros, ampliar o crédito para agricultura, exportações, pequenas e médias empresas e facilitar a compra da casa própria. O governo diz que vai injetar 83 bilhões de reais na economia, através dos bancos públicos. Assim pretende quebrar o ciclo negativo na economia, beneficiando três pilares do emprego: a construção civil, o agronegócio e as empresas com faturamento de até 30 milhões de reais por ano, que são os maiores empregadores fora do governo.

                                   Por outro lado, o Planalto pretende impedir o crescimento da taxa oficial de juros – a Selic -, que já está em 14,25% ao ano. Pouco mais de 1% ao mês. O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) estacionou a Selic e deve começam a dar marcha à ré. Pelo que se ouve em Brasília, a meta é ficar abaixo de 10% até o fim do ano. Mas, afinal de contas, para que serve essa taxa oficial de juros, que ninguém respeita? Serve quase exclusivamente para regular a dívida pública e os títulos do governo. Não existe nenhuma instituição financeira do país que empreste dinheiro ou faça qualquer financiamento com base  na Selic.

                                   Os bancos privados praticam uma política de extorsão contra quem os procura em busca de crédito. As menores taxas do mercado estão em torno de 60% ao ano, quando se trata de empréstimo pessoal. Um relatório do BC, referente à semana de 12 a 18 de janeiro de 2016, mostra que os juros de cheque especial para pessoa jurídica atingiram a extraordinária marca de 354,9%/ano (Banco Santander, que cobra 13,4% ao mês). E não para por aí: o rotativo do cartão de crédito foi a 431% ao ano, segundo o mesmo relatório do BC. No fim de 2015, o “The New York Times” publicou reportagem com a seguinte afirmação: “Os juros bancários no Brasil fariam um agiota americano sentir vergonha” (Portal G1 – 22 dez).

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BC trava Selic em 14,25% ao ano.

                                   Como explicar a diferença estarrecedora entre a Selic e a taxa real dos bancos, comumente chamada de “spread”? As instituições financeiras dizem que nessa diferença de valores estão: os juros que os bancos pagam para captar dinheiro; as taxas internas de administração:  os seguros que fazem  contra eventuais calotes (a inadimplência no país é de 6%); e a margem de lucro das instituições. Essa conta não fecha de jeito nenhum. Tudo indica que o jornal americano tem razão: o que falta mesmo é vergonha na cara.

                                   O mais impressionante é que o governo deixa o barco correr. Não apenas este governo, mas todos os anteriores também. Não há nenhuma tentativa de conter a escalada de juros. O que os economistas dizem é que o próprio mercado deve regular essa questão, por meio da livre concorrência. Qual livre concorrência? Quem pode competir com os bancos? Só o governo e o Congresso poderiam atuar nesse caso. O primeiro, estabelecendo limites (que tal 5 vezes a Selic, 71,25%, como teto?) e oferecendo taxas menores nos bancos públicos; o segundo, votando as leis complementares que deveriam regulam os juros e que não foram votadas.

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                                   É bom saber que a Constituição de 1988 tentou limitar os juros reais em 12% ao ano, ou 1% ao mês, conforme o parágrafo 3º do artigo 192. Fez isso para evitar o descalabro. Não colou: a Emenda Constitucional 40/2003, aprovada na Câmara Federal e confirmada pelo Senado, derrubou o parágrafo 3º. Os bancos ficaram liberados. Agora cobram até 1,18% ao dia, como no rotativo do cartão de crédito.

                                               Se a história da aprovação da EC 40 for escrita, será uma das páginas mais escuras do Parlamento brasileiro.  

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Marina Silva, perdida como cego em tiroteio, dá sinais de reaparecer. Não se sabe se é parte da nova direita – ou se é uma nova esquerda saindo da direita. Confusão total.

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Marina Silva reaparece.

Meu amigo Pinheiro do Vale, velho combatente do jornalismo épico, porém aposentado, é uma figura célebre em Brasília. Conversa com ministros, frequenta gabinetes refrigerados, troca emails com os detentores do poder. Entre as nossas afinidades está essa mania desagradável de entender as coisas da política com base na história do país. Vale acaba de me mandar correspondência comentando a reaparição de Marina Silva. Ela deu entrevistas para rádios e televisões, apareceu nos grandes jornais. Pinheiro acompanha tudo. E – fiel às origens – faz paralelos com o passar do século. O amigo sempre tem uma abordagem nova sobre a política – mas não necessariamente concordo com tudo o que ele escreve. No entanto, aposto que o leitor do site vai se deleitar com a narrativa fluente e sarcástica. É claro que ele não me autoriza a publicar. Aí está a graça do jogo. Acompanhe o último comentário:

“Conservar melhorando. Era o lema dos jovens radicais republicanos que formavam um clube subversivo na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo, nos idos de 1880. Um de seus líderes mais consequentes era um jovem gaúcho gago, Júlio de Castilhos. A Faculdade de Direito foi o berço da República Velha, que vigorou entre 1894 e 1930. Todos os presidentes desse período foram graduados nessa escola. Também foi Castilhos quem fez uma leitura muito particular das teorias do filósofo francês Auguste Conte e implantou um regime político que mudou o Brasil, o Castilhismo”.

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A candidata precisa explicar a que veio.

Pinheiro do Vale acrescenta:

“Dito isto, passo a falar da entrevista da candidata Marina Silva, em Ribeirão Preto, São Paulo. Reverberou em todo o país pelas redes sociais e nas mídias eletrônicas, antes de chegar à imprensa de papel. A entrevista relançou a líder ‘sustentabilista’ na linha de frente. Na visão castilhista, o lema ‘conservar melhorando’ seria expresso hoje pelo vocábulo ‘sustentabilidade’. A expressão se opõe ao ‘desenvolvimentismo’, uma visão humanista (ou utilitária) do uso dos recursos naturais.

“Para os conservadores (ou conservacionistas), a natureza é um patrimônio do planeta. Para aqueles outros, ditos desenvolvimentistas, o planeta pertence à espécie humana e deve estar a serviço de seu bem estar. Ou seja: seus recursos devem ser explorados até que o último humano tenha assegurada sua inclusão no extrato mais elevado da humanidade. Nos padrões brasileiros de hoje, como diz a presidente Dilma, seria algo como possibilitar a todos uma casa mobiliada e equipada com eletrodomésticos e um automóvel na garage. Um país de classe média, ela enfatiza.

“Para Marina, a agenda é outra. Casa comida e roupa lavada são consequência de um novo conceito de equilíbrio. Ela não se opõe ao crescimento –  em si -, mas este deve estar condicionado à demanda de todo o planeta. Sustentabilidade é crescer melhorando, como diziam os castilhistas. No limite, as populações que ainda não chegaram lá, devem esperar um pouco. Até que a exploração dos recursos naturais sejam submetida aos requisitos de novas tecnologias e equilíbrios. A produção maciça de alimentos e bens já passou do limite. Insistir nisso é levar o planeta à uma condição que pode destruir, em vez de promover, a maior parte da humanidade.

“Marina não é aceita à esquerda. É difícil saber o que ela pensa. Entretanto, o pessoal da sustentabilidade não tem, neste momento, outro nome para apresentar (aos eleitores) num prazo curto. Um ponto de contato ideológico entre os ‘neocastilhistas’ com a esquerda convencional é a rejeição ao capitalismo, mas o projeto da Rede não fala em luta de classes, um mantra das correntes esquerdistas de herança marxista. Contra ela, podem vir os nomes que se apresentam: Aécio Neves, Geraldo Alckmin ou, no limite, José Serra. Talvez um Ciro Gomes. Ou, inesperadamente, um Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF no caso do ‘mensalão’.

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Ela reaparece com disposição de entrar na briga: mas qual é o projeto?

“O Império acabou, entre muitas outras razões, pela falência dos partidos e o esgotamento dos agentes políticos tradicionais. A República presidencialista estaria em final de ciclo pela mesma razão? Melhor seria dizer o fim do presidencialismo de coalizão, caminhando para um parlamentarismo ao estilo europeu. O sistema atual parece derreter-se, porque não consegue mais dar respostas às necessidades políticas do Estado. Estamos diante do fim de uma Era, às vésperas da ‘Terceira República’, dessa vez sustentabilista?”.

Vejam, caros leitores, que o nosso Pinheiro do Vale propõe questões a perder de vista. Coisas como a mudança de regime, com base na experiência histórica brasileira: sem rupturas traumáticas. Marina Silva e a salvação da Amazônia – ou a salvação dos empregos e da renda com base em políticas econômicas mais agressivas? Quem viver, verá!

 

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