Ataques da coalizão árabe-ocidental contra o ISIS não impedem crescimento do terror e o avanço das tropas radicais islâmicas na Síria e no Iraque.

Militantes do ISIS no Iraque;

Militantes do ISIS no Iraque;

Ao completar três meses, os ataques aéreos da coalizão árabe-ocidental contra o ISIS (o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, em inglês), que reúne mis de 40 países, não foram suficientes. Foram realizadas mais de 700 missões de bombardeio nas áreas ocupadas pelos rebeldes nos dois países. O grupo islâmico radical, que já instituiu um Califado do Levante, com dezenas de milhares de quilômetros quadrados, entre a Síria e o Iraque, combatendo em uma centena de cidades e vilas, não dá o menor sinal de ter sido abalado pelos ataques de aviação. Os principais alvos da ofensiva foram refinarias de petróleo, por meio das quais o grupo teria obtido a quantia de 13 milhões de dólares/dia com a venda clandestina de combustíveis para os países vizinhos. Os alvos secundários seriam campos de treinamento de novos militantes islâmicos.

O líder do ISIS, califa al-Bagdadh.

O líder do ISIS, califa al-Bagdadh.

A mídia ocidental garante que uns 300 integrantes da organização terrorista foram mortos nesses ataques. No entanto, essa mesma mídia dá conta de que o ISIS dispõe de 15 mil combatentes estrangeiros: 5 mil britânicos, 3 mil franceses, 500 norte-americanos e o restante de várias partes do mundo, inclusive com a suspeita de alguns latino-americanos e até brasileiros. O fato é que, mesmo com tamanha pressão, o ISIS avança sobre o território iraquiano e ameaça a sobrevivência do governo de Assad na Síria, uma ditadura impiedosa. A coalizão árabe-ocidental, liderada pelos Estados Unidos, armou e treina a etnia curda, na fronteira entre a Turquia e o Iraque. E a CIA está enviando armas e equipamentos de comunicação e vigilância eletrônica para um suposto grupo rebelde independente na Síria. Cerca de 1.500 instrutores militares americanos estão no Iraque. Nada disso parece bastante para conter a ofensiva do ISIS. E a Turquia se prepara para uma guerra total.
O grupo terrorista dá o troco com um terror inimaginável: matança de minorias, crucificações, decapitações e outras atrocidades. Recentemente, num episódio de pura barbárie, realizaram diante de câmeras a execução coletiva de militares sírios capturados. Entre os algozes, que não usavam máscaras e portavam facas, os órgãos de inteligência ocidentais identificaram ingleses e franceses. O ISIS pretende atrair os “infiéis” para um guerra total na região, cumprindo o que seria uma secular profecia do Islã. Em Washington, os líderes militares americanos declaram publicamente, contrariando a vontade do presidente Barak Obama, que seria necessário enviar uma força militar de 80 a 100 mil homens, em terra, para derrotar o ISIS.
É tudo o que eles querem.

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Lançamento de “Araguaia – Histórias de amor e de guerra” reúne jornalistas, ex-combatentes, críticos e TV.

O autor, em entrevista à Band.

O autor, em entrevista à Band.

“Araguaia – Histórias de amor e de guerra”, novo livro do jornalista Carlos Amorim, lançado ao público nesta terça-feira (10 nov), agitou a Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. O evento reuniu jornalistas, críticos, produtores cinematográficos e ex-combatentes da Guerrilha do Araguaia. Contou com a presença de representante da Pastoral da Terra e da Fundação Maurício Grabois, que trata da preservação da memória da luta armada no Sul do Pará, o maior movimento de resistência à ditadura militar no Brasil.

Rioco Kayano, ex-guerrilheira, no lançamento do livro.

Rioco Kayano, ex-guerrilheira, ao centro,  no lançamento do livro.

Em entrevista à TV Bandeirantes, o autor declarou:

_ Escrever sobre o movimento armado no Araguaia foi um desafio profissional, porque se trata do evento mais importante da resistência ao golpe militar e é – no entanto – o menos conhecido.

Amorim e Palmério Dória, jornalista que escreveu o prefácio do livro.

Amorim e Palmério Dória, jornalista que escreveu o prefácio do livro.

O livro do jornalista, duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, o maior certame de literatura do país, já está sendo distribuído às maiores livrarias do país.

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Nesta segunda: lançamento de “Araguaia – Histórias de amor e de guerra”, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.

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O jornalista Carlos Amorim recebe amigos e convidados – e quem mais vier -, para noite de autógrafos na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, São Pulo, a partir das 18 hora, no piso térreo. Ainda em novembro,  haverá lançamentos no Rio e em Brasília, em datas a serem definidas. O encontro no Rio, com apoio da OAB/RJ e da Comissão da Verdade, terá um debate público sobre os episódios da guerrilha no Araguaia. A equipe deste site vai manter os leitores informados sobre os detalhes.

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Araguaia: em entrevista à jornalista Cláudia Lamego, autor revela novos detalhes sobre o livro. Fala da violência do conflito e diz que vai transformar o tema em documentário de longa metragem.

araguaia_02_capa                    Acompanhe, a seguir, os trechos mais importantes da entrevista de Carlos Amorim à jornalista Cláudia Lamego, do Grupo Editorial Record:

Cláudia – O livro abre com uma descrição detalhada da região do Araguaia, cenário da luta armada e da derrota fragorosa dos militantes do PCdoB. A riqueza de informações e o painel que você traça não apenas da região, mas de um tempo de lutas no país, lembra a estrutura escolhida por Euclides da Cunha para contar, em Os sertões, a história da Guerra de Canudos. Esse clássico foi uma inspiração para você?

Amorim – Evidentemente, Euclides da Cunha e sua obra monumental são sempre uma fonte de inspiração. Mas longe de mim qualquer comparação com “Os Sertões”. A estrutura do meu livro de fato se parece com a estrutura da narrativa de Canudos. Porque Euclides era um repórter e não um literato. E um repórter escreve a partir daquilo que vê, ouve e estuda. A minha descrição do conflito armado no Araguaia segue esse mesmo roteiro pragmático. Escrevi com simplicidade e sem preocupações literárias. Foi um texto intuitivo, em alguns momentos impregnado de emoção. Como a maior parte da minha formação profissional está ligada à televisão, a história acabou ganhando involuntariamente uma narrativa cinematográfica. E isso facilita a compreensão para leitores que nunca ouviram falar da guerrilha.

Claudia – Depois de contar a história do crime organizado (Comando Vermelho, PCC, Assalto ao Poder), por que decidiu escrever sobre a Guerrilha do Araguaia?

Amorim – Depois da trilogia sobre violência urbana e crime organizado, fiquei com a impressão de que tinha esgotado o assunto. Pelo menos do ponto de vista do meu interesse como jornalista e pesquisador. Mas queria continuar a escrever sobre eventos da história contemporânea do país. A guerrilha no Araguaia logo me veio à cabeça, até porque tenho sonhos recorrentes com a floresta amazônica, que conheci de perto. Então, lentamente, me rendi ao tema da luta armada no Araguaia. Tenho pesquisado essa matéria há mais de dez anos, reunindo informações, publicações, lendo relatórios oficiais (alguns secretos até hoje), ouvindo pessoas envolvidas. No início de 2012, ofereci o projeto à Editora Record, a minha casa editorial deste 1993. E passei dois anos gravando entrevistas e escrevendo, compilando imagens e fotos, ouvindo relatos inéditos. Não existe uma “história oficial” sobre o Araguaia. Essa foi a maior dificuldade – e, ao mesmo tempo -, o melhor desafio.

Ângelo Arroyo, último comandante da guerrilha, morto pela repressão em São Paulo.

Ângelo Arroyo, último comandante da guerrilha, morto pela repressão em São Paulo.

Cláudia – O Araguaia já era uma região conflagrada quando os militantes do PCdoB a escolheram para fazer a guerrilha. Os conflitos que opunham posseiros, índios e garimpeiros aos novos fazendeiros, políticos e investidores eram vistos pelos guerrilheiros como um motivo para a conquista do povo do lugar, já oprimido. Mas, em seu livro, você mostra que não deu certo.

Amorim – A chamada área estratégica para implantação da guerrilha rural foi muito bem escolhida. A bacia do Rio Araguaia, entre três estados (Goiás, Pará e Maranhão), era uma região de conflitos permanentes. E era um fim de mundo distante, onde o Estado moderno simplesmente não estava presente. Com densa cobertura de selva, o Araguaia tinha saída para cidades ao longo da rodovia Belém-Brasília e uma área de recuo em direção ao Alto Xingu, ao norte e ao sul. A guerrilha operava em 7.200 quilômetros quadrados de florestas e grandes rios, com flora e fauna abundantes. Não era difícil sobreviver só da floresta, mas era extremamente difícil para o governo militar entrar ali com grandes tropas. Só que a zona guerrilheira era um labirinto verde sem habitantes. Em toda aquela área não havia nem 20 mil moradores. Na verdade, não existia uma “massa popular” para ser conquistada pela ação dos comunistas. Na estratégia do PCdoB, aquilo se transformaria numa zona liberada para a operação guerrilheira, atraindo os militares para uma armadilha, como de fato se deu inicialmente. A luta política dos comunistas seria travada em combinação com grandes centros urbanos do país. Ou seja: luta armada no campo e luta política nas cidades. Não deu certo. O Brasil não ficou sabendo que havia uma guerrilha na Amazônia. Eles ficaram isolados e foram destruídos.

José Genoíno Neto, o primeiro guerrilheiro apanhado pela repressão.

José Genoíno Neto, o primeiro guerrilheiro apanhado pela repressão.

Cláudia – Outro erro de visão do PCdoB apontado no livro: o Brasil era um país capitalista e a guerra camponesa só tinha se mostrado frutífera em países onde a atividade agrícola primitiva constituía a base da economia e as relações de trabalho eram quase escravagistas. Alguns militantes, muito jovens na época da luta armada, já fizeram uma revisão crítica de suas posições. Mas, no caso específico do PCdoB, a guerrilha foi uma opção de dirigentes experientes, na luta política desde a década de 40. Havia uma espécie de cegueira em relação ao quadro social, econômico e político do país?

Amorim – A luta armada foi uma consequência da truculência do regime político iniciado em 1964. A ditadura rompeu todo o arcabouço legal do país, a ponto de não existir o habeas corpus. Todo o ímpeto transformador da juventude foi emparedado, produzindo desesperança, rancor e radicalização. Hoje é fácil fazer uma autocrítica daquele período, porque a história cuidou de revelar os profundos enganos e ilusões da luta armada. Mas naquela quadra violenta da vida nacional, essas conclusões eram quase impossíveis. Os dirigentes do PCdoB eram comunistas experimentados, com longa tradição de luta política. Mas não foram capazes de perceber exatamente que país era aquele. Entre a intelectualidade brasileira prevalecia a ideia de que éramos “dois brasis”: um capitalista dependente e outro semifeudal, convivendo na mesma geografia. E isso era um erro teórico desastroso, que conduziu à guerrilha rural na “parte feudal” do Brasil. Enquanto isso a luta política se daria na “parte capitalista” do país. A articulação das duas formas de luta levaria ao processo revolucionário. Engano desastroso.

Cláudia – No livro, você analisa também outros erros estratégicos da guerrilha, como a subestimação das forças do Estado para enfrentar o foco guerrilheiro. Por que você acha que se mostraram tão “inocentes”?

Amorim – Sem dúvida, hoje é mais confortável analisar a questão. Não vivemos sob nenhuma tirania, a sua casa não vai ser invadida a qualquer momento, supostamente não há mais tortura e assassinato como políticas de Estado. É tudo mais fácil. Mas a guerrilha estava terrivelmente mal preparada para o tamanho do conflito que provocou. Sobreviventes do movimento, com quem conversei, me disseram que a guerrilha não estava pronta quando as tropas federais chegaram ao Araguaia. Mas é uma ingenuidade supor que um governo onipresente não iria descobrir um movimento armado que envolvia centenas de pessoas. O que acontecia com aqueles jovens é que eles estavam tão convencidos da justeza de sua luta, que desconsideraram o resto. É o que se chamou de “voluntarismo”: ousar lutar, ousar vencer. Só que a história não funciona assim. Você não faz uma revolução porque decide fazer, a qualquer preço, mesmo heroicamente. O movimento social transformador decorre de causas objetivas, que quase independem da vontade de algum indivíduo. E os comunistas não souberam perceber que a mudança no Brasil viria da urbanização acelerada e do crescimento da massa trabalhadora nos centros urbanos, como se deu. Acreditavam na força do exemplo revolucionário, que iria empolgar o Araguaia e o país. Que nada!

Uma família do interior de São Paulo perdeu três filhos na guerrilha. Este é um deles.

Uma família do interior de São Paulo perdeu três filhos na guerrilha. Este é um deles.

Cláudia – Além dos guerrilheiros, você falou muito também das vítimas que estavam do outro lado da luta, entre os militares. A esquerda diz que sofrer baixas faz parte da carreira militar. Você acha que eles merecem também mais destaque na imprensa, por exemplo?

Amorim – Sou um pesquisador independente. Não tenho filiação partidária nem patrocinadores. No meu entendimento, a verdade não tem cor. Não tive o menor constrangimento em dizer que aquilo foi uma guerra, com violência e crimes de parte a parte. Acho que as Forças Armadas trataram muito mal seus combatentes do Araguaia, impedindo inclusive que seus mortos tivessem qualquer tipo de reconhecimento público. Comunicados oficiais diziam que o sujeito tinha “sofrido um acidente”. As famílias eram proibidas de abrir os caixões, que chegavam lacrados. Em todo conflito, há razões opostas. E havia gente corajosa e abnegada nos dois campos da batalha. E, sim: acho que a mídia e os historiadores deveriam dar uma olhada mais de perto nos dois lados da luta no Araguaia.

Cláudia – Conte um pouco do processo do livro como documentário. Quando você começou a filmar as entrevistas, já tinha esse projeto em mente? A própria narrativa do livro, fragmentada, com muitas cenas entrecortadas, indica que você tinha esse projeto. Você escreveu um roteiro? Como será a montagem?

Amorim – Quando estava gravando entrevistas para o livro, decidi utilizar câmeras de alta definição para registrar os depoimentos. Quando o livro ficou pronto, extraí dele um roteiro para um documentário de longa metragem. Gravei mais de 20 horas de depoimentos, além de recolher imagens da época e alguns filmes feitos pelos militares. Há também um farto registro fotográfico. Apresentei um projeto para a Agência Nacional de Cinema (Ancine) e fui aprovado para captar investimentos com base nas leis de incentivo ao audiovisual. Agora pretendo fazer uma expedição ao Araguaia e revisitar as trilhas da guerrilha.

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“Araguaia – Histórias de amor e de guerra” começa a ser distribuído às livrarias de todo o país. No dia 10 de novembro haverá noite de autógrafos na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.

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O novo livro do jornalista Carlos Amorim, que trata da luta armada no Sul do Pará durante o regime militar, já está sendo distribuído pela Editora Record às livrarias de todo o pais. A obra traz uma visão nova sobre o conflito, com depoimentos, documentos da época e um encarte de fotos, alguns dos quais nunca chegaram ao conhecimento da opinião pública. A guerrilha nas matas da bacia do Rio Araguaia, entre Maranhão, Pará e Goiás (hoje Tocantins), de 1966 a 1975, foi o maior e mais feroz evento de resistência contra a ditadura. No entanto, é o episodio menos conhecido. Para enfrentar o núcleo guerrilheiro comunista no Araguaia, organizado pelo PCdoB, as Forças Armadas realizaram a maior mobilização de combate desde a Segunda Guerra Mundial, empregando um efetivo estimado entre 10 e 15 mil homens.

O movimento armado do Araguaia foi duas vezes maior do que a guerrilha do Che Guevara na Bolívia, com consequências ainda mais graves. Até hoje não se sabe quantas pessoas morreram nos combates entre guerrilheiros e militares, sendo que o número de feridos jamais foi contabilizado. Até agora há dezenas de desaparecidos, incluindo moradores e lavradores pobres. Mesmo tendo como ponto de partida um projeto político equivocado, que continha erros lamentáveis de interpretação da realidade brasileira, o movimento guerrilheiro se transformou na maior ameaça enfrentada pelo regime militar.

O primeiro militar morto em combate.

O primeiro militar morto em combate.

“Nunca tive a pretensão de contar a história completa da guerrilha, por que isso é impossível” comenta o autor. “A luta armada naquela região se deu durante o período mais radical da censura: o país não ficou sabendo o que estava acontecendo nas matas – e todos os documentos oficiais foram considerados ultrassecretos e mais tarde destruídos pelo regime”, acrescenta Carlos Amorim. “Dei ao livro o título de histórias de amor e de guerra porque já sabia que não conseguiria contar uma história acabado sobre a guerrilha”. O jornalista diz mais:

_ Em dez anos de pesquisas, pude verificar que houve violência e crimes de parte a parte. Foi uma guerra suja: os guerrilheiros mataram moradores locais e podem ter executado seus próprios companheiros; os militares conduziram uma campanha de extermínio, cortando cabeças e deixando corpos insepultos. Também observei que houve bravura e sacrifícios em ambos os campos da batalha. Aquilo lá foi um pesadelo em meio à beleza da Amazônia.

Carlos Amorim recebeu duas vezes o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. É autor da primeira trilogia sobre violência urbana, crime organizado e terrorismo no Brasil. “Araguaia – Histórias de amor e de guerra” (Ed. Record, 504 páginas) tem apoio da Livraria Cultura, da Ordem dos Advogados e da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro. O prefácio é de Palmério Dória, com comentários de José Antônio Severo.

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A oposição perdeu a eleição. Mas não perdeu o rebolado. Transforma o fracasso nas urnas em vitória retumbante. Os resultados do governo, que sempre estiveram além de 72% de aprovação popular, são apresentados como fracasso inquestionável. A oposição chegou ao desatino de pedir auditoria nas eleições.

Manifestantes pedem a volta dos militares.

Manifestantes pedem a volta dos militares.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em largo artigo publicado na edição dominical de O Globo (2 nov), diz que vai passar um longo tempo até que os acenos de diálogo da presidente reeleita, Dilma Rousseff, possam ser levados em conta. FHC garante, com o resultado apertado das urnas, que o país não vai aceitar uma pauta política impositiva. Enquanto isso, os cronistas em geral discutem o país dividido pela votação de 26 de outubro. Arnaldo Bloch, de pena leve, escreveu que uma mocinha de classe média, “com cara de nojo”, assegura que Dilma venceu por causa das “empregadinhas domésticas, do porteiros e dos nordestinos”.

Um depoimento no Facebook, gravado em vídeo, mostra uma loura que nos informa que vai deixar o país e morar na Holanda. A garota diz que tem posses e pode residir no exterior, onde o pai dela já mora. Irritada, tropeçando no vernáculo, nos informa que o PT vai transformar o Brasil em Cuba ou em Venezuela. E conclui: aqui só vão ficar os pobres. No último sábado (1 nov), um protesto na Avenida Paulista reuniu 3 mil pessoas que pediam o impeachment da presidente Dilma, por causa das denúncias de corrupção na Petrobrás. Entre os manifestantes, algumas faixas exigiam: “golpe militar já!”. O sábio Luís Fernando Veríssimo, também num artigo de O Globo, escreveu, resumidamente, o seguinte: havia chegado de viagem, após as eleições, e não entendia o que estava acontecendo no país das maravilhas, o Patropi.

E o que está acontecendo no Patropi. Rigorosamente, nada. A presidente eleita “pelas empregadinhas, os porteiros e os nordestinos”, como se ela não tivesse obtido metade dos votos do “Sul Maravilha”, saiu de férias. Foi descansar com a família  – acreditem – numa base militar na Bahia. Se ela estivesse sob ameaça de um golpe, teria se rendido. Aécio Neves, o oponente, sumiu, deixando para FHC a árdua tarefa de comandar a oposição. A base aliada mercantil do governo, já se rebelou, em busca de cargos e privilégios. Nenhuma novidade. Conhecemos esses caras desde o fim do Império. E esse Império, aliás, não é a novela da TV Globo – é o regime espúrio surgido com a “independência” do Brasil. Foi quando o Rei Dom João VI, de volta à Europa, sugeriu a seu filho, o Príncipe Pedro I, que desse um jeito nessa bagunça chamada Brasil. O resto é pura maracutaia.

Ah, sim: para concluir. Um advogado do PSDB, coordenador jurídico da campanha de Aécio Neves, entrou com um pedido no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que fosse realizada uma “auditoria” nos resultados das urnas eletrônicas, insinuando que poderia ter havido alguma fraude no resultado. O ministro encarregado de examinar o pedido mandou que ele fosse catar um coco. Nada de novo. Esse é o nosso paizinho de sempre. Quente e úmido. Mas com uma seca atroz no sul e no sudeste.

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Justiça italiana dá o troco no Brasil e rejeita o pedido de extradição de Henrique Pizzolato, condenado no “mensalão”. O ex-diretor do Banco do Brasil pegou 12 anos de prisão, mas fugiu. Foi uma revanche pelo caso Cesare Batisti.

Henrique Pizzolato está solto.

Henrique Pizzolato está solto.

Quase quatro anos após o governo brasileiro se recusar a extraditar Cesare Batisti para a Itália, onde estava condenado a prisão perpétua por terrorismo e homicídio, os italianos deram o troco. Nesta terça-feira (28 out), a justiça daquele país se recusou a mandar de volta ao Brasil o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, condenado no processo do “mensalão”. Pizzolato, que tem dupla cidadania, brasileira e italiana, fugiu da sentença do Superior Tribunal Federal (STF), que o havia condenado a 12 anos e 7 meses de prisão em regime fechado.

A prisão, em Modena, onde Pizzolato estava detido.

A prisão, em Modena, onde Pizzolato estava detido.

Para escapar, o funcionário do BB usou documentos falsos, inclusive um passaporte italiano em nome de um de seus irmãos, já falecido. Por isso foi preso numa pequena cidade próxima de Modena, em fevereiro deste ano. Os italianos não deram a menor bola para o pedido de extradição feito pela Procuradoria Geral da República (PGR). E ontem mandaram soltar Pizzolato, que vai responder em liberdade à acusação de falsificação de documentos, um crime de menores consequências. O pano de fundo da decisão foi, sem dúvida, o caso Batisti, que estava atravessado na garganta do governo italiano.

Militante de extrema esquerda nos anos 1970, integrante de um certo “Proletários Armados pelo Comunismo”, grupo considerado terrorista, Cesare Batisti recebeu, em dezembro de 2010, o status de refugiado político no Brasil. Ao mandar soltar Henrique Pizzolato, a Corte de Apelação de Modena não fez nenhuma referência ao caso anterior. Mas aceitou todos os argumentos da defesa do réu.

No centro, Cesare Batisti.

No centro, Cesare Batisti.

Em primeiro lugar, segundo os advogados, Pizzolato foi julgado pela Suprema Corte brasileira, tribunal para o qual não existe recurso em instância superior. Em segundo lugar, ainda segundo a defesa, deveria ter sido processado pela justiça comum, uma vez que não tinha foro privilegiado, o que lhe teria conferido o status de “criminoso político”. E, finalmente, o argumento definitivo: a defesa de Pizzolato, citando parecer da ONU, alegou que as prisões brasileiras são “masmorras desumanas”, onde os direitos e salvaguardas internacionais não têm qualquer valor.

Pois bem: a justiça italiana carimbou o passaporte de Henrique Pizzolato para a liberdade, aceitando a tese de que no Brasil os presos são submetidos a tratamento desumano e torturas. Estão errados? Seja como for, o governo brasileiro vai apresentar recurso à Suprema Corte italiana, numa tentativa quase inútil de reverter a decisão.

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3,27%. Essa foi a diferença de votos entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Em números absolutos, o Partido dos Trabalhadores obteve 3.459.963 votos a mais que os adversários. Bateu na trave.

Dilma e Lula comemoram em Brasília.

Dilma e Lula comemoram em Brasília.

A mais difícil eleição da história recente do Brasil transcorreu em paz. Num país desse tamanho, não se registraram conflitos nem violência. Foi também a mais rápida apuração de votos presidenciais. Às oito horas da noite deste domingo (26 out), 94% das urnas já estavam apuradas. E ninguém contestou o resultado. Aécio Neves, visivelmente emocionado, se apressou a reconhecer a derrota. Dilma, quase sem voz, mas entusiasmada, fez de improviso um de seus melhores pronunciamentos.

A presidente reeleita conclamou o país ao diálogo entre todas as forças da sociedade. Mas não citou o adversário nem o seu partido. Disse que recebeu do povo brasileiro o mandato para continuar o programa de governo que o PT vem praticando nos últimos 12 anos. Mas disse ter entendido a voz das urnas: “o Brasil quer mudanças”. Ainda não sabemos quais mudanças serão essas, mas a presidente adiantou que vai começar com uma ampla reforma política, baseada num referendo popular. É a mesma proposta que apresentou no ano passado, durante as grandes manifestações que sacudiram as ruas, uma proposta que o Congresso barrou. Agora, com um capital eleitoral de 54.5 milhões de votos, será capaz de dobrar a resistência dos políticos brasileiros? Fará ela mesma um apelo às ruas?

Aécio Neves reconhece a derrota para o PT.

Aécio Neves reconhece a derrota para o PT.

Fala-se em reforma política no Brasil há décadas. E há décadas o Congresso dá um jeito de engavetar as mudanças. Nossos políticos legislam em causa própria e jamais aprovam leis que possam cair sobre as suas cabeças. Se a presidente estiver realmente disposta a pesar a mão, vai ser um cabo de guerra no Congresso. Mas não vamos esquecer que Dilma venceu não apenas Aécio Neves, tido como candidato das elites, fartamente apoiado pela grande mídia, mas também uma ampla articulação de centro, pontificada por Marina Silva. A vitória dela foi contra tudo e contra todos.

Dilma sai da disputa com a imagem pública reforçada. A mulher que encara qualquer um e bate forte. A militância passou a chamá-la de “Coração Valente”. E o próprio PT reabilitou uma foto da presidente nos tempos de guerrilheira, quando participou da luta armada contra a ditadura. Por coincidência, o jornal O Globo de hoje, um dos mais conservadores do país, publicou uma foto em meia página de Dilma Rousseff, aos 23 anos, sentada no banco dos réus de um tribunal militar. Na foto em que está jovem e bonita. Os juízes, fardados, aparecem de cabeça baixa.

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Aécio Neves encerra a disputa como o homem forte da oposição. Mas a imagem pública dele fica um pouco arranhada. Na reta final da campanha, certo de que ia vencer, teve uma atitude arrogante. Chamou a presidente de mentirosa e leviana, durante debates transmitidos ao vivo pela televisão. Essa postura machista, certamente, custou a ele muitos votos a menos. Especialmente num país onde a maioria dos eleitores é formada por mulheres.

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Surpresa total: Ibope e Datafolha refazem as contas e apresentam Dilma Rousseff como favorita para a votação de domingo. E com larga vantagem!

Para surpresa de todos, nesta quinta-feira (23 out), último dia da campanha presidencial pelo rádio e televisão, os dois maiores institutos de pesquisas do país apresentaram novos resultados para a corrida eleitoral: Dilma Rousseff (PT) surge na frente, com larga vantagem. O candidato Aécio Neves (PSDB), que vinha liderando, desabou repentinamente. Acompanhe os números para votos válidos, começando pelo Ibope: Dilma: 54% – Aécio: 46%

Segundo o Datafolha, os números são um pouco diferentes, mas a vantagem de Dilma permanece: Dilma: 53% – Aécio: 47%

Oscilando entre 6% e 8% de intenções de voto a mais do que Aécio, a candidata do PT venceria por uma diferença irrecorrível. No primeiro turno, votaram cerca de 102 milhões de brasileiros, com mais de 29 milhões de brancos, nulos e ausentes. De acordo com o Ibope, Dilma seria reeleita com 8.1 milhões de votos a mais do que Aécio. Pelas contas do Datafolha, a presidente obteria 6.1 milhões de votos a mais. Este resultado, alterando radicalmente as pesquisas anteriores, fez com que o Jornal Nacional (TV Globo) proclamasse: “se a eleição fosse hoje, Dilma estaria reeleita”. Os institutos estavam errados – ou fizeram uma conta de chegar?

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O “predador urbano”, o bandido mais difícil de apanhar. Comete dezenas de crimes sem motivo. Não tem nenhum tipo de relacionamento anterior com as vítimas. Apenas mata. A polícia prende em Goiânia mais um “serial killer” brasileiro.

O "serial killer" brasileiro apresentado à imprensa;

O “serial killer” brasileiro apresentado à imprensa;

O nome dele é Thiago Gomes da Rocha. Tem  26 anos. É bem apessoado, fala com desenvoltura, revelando escolaridade. Trabalhava como vigilante em uma empresa de segurança em Goiânia, a capital no estado de Goiás. Foi capturado por uma força tarefe envolvendo a polícia civil, grupos de elite, psiquiatras forenses e psicólogos. A cidade estava vivendo com medo, após uma onda de assassinatos de mulheres, travestis e moradores de rua. Foram dezenas de crimes, aparentemente sem motivo algum.

Segundo a polícia goiana, Thiago confessou 39 homicídios, mas não se lembra de todos que matou. As autoridades acreditam que ele pode ter executado 50 pessoas. Saia pela noite, montado em uma motocicleta preta, usando jaqueta e capacete, para não ser reconhecido. Escolhia suas vítimas ao acaso, enquanto dirigia pelas ruas. Esse tipo de “predador urbano” é o criminoso mais difícil de capturar. Os ataques são aleatórios, não conhece as vítimas, não tem motivos. Isto torna a investigação extremamente complicada, porque não há pistas fora da cena dos crimes.

Países como Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha desenvolveram sofisticados mecanismos  para identificar um “serial killer”. O FBI criou há muitos anos um departamento de ciências do comportamento só para estudar esses assassinos em série. A principal ferramenta é traçar um perfil psicológico do criminoso, a partir dos métodos empregados, do tipo específico de brutalidade cometida e da “assinatura” deixada pelo predador. Esse nosso assassino tinha como assinatura: a forma de se vestir, a moto e o fato de usar a mesma arma em todos os crimes, um revólver calibre 38.

Retrato falado do criminoso, feito pela polícia.

Retrato falado do criminoso, feito pela polícia.

Os estudiosos desses matadores reúnem várias conclusões importantes a respeito do comportamento deles. São portadores de psicopatia aguda, um desvio mental e psicológico que os impede de ter emoções, piedade ou arrependimento. Algumas vezes, isso está associado a problemas neurológicos, mas não necessariamente. Têm um histórico de abusos na infância e na adolescência. Thiago disse aos investigadores que foi submetido a violência sexual por parte de um vizinho, durante um mês, quando era criança. Relatou “bullyng” na escola, perseguições por parte de colegas. O psicopata criminal (é bom dizer que nem todo psicopata é criminoso), se sente diferente de todo o resto do mundo e das pessoas. Ele não consegue se encontrar em nenhum lugar, a não ser no seu próprio isolamento.

No entanto, ele se considera melhor e acima dos outros. Tem uma sensação de superioridade. Alguns têm delírios religiosos, como se estivessem cumprindo uma missão divina. Isso, de certa forma, explica outro comportamento padrão do “serial killer”: ele quer ser apanhado para assumir seus crimes e ser reconhecido por isso. Deseja fortemente que o mundo saiba quem ele é. Nosso psicopata de Goiânia deu entrevista ao Jornal Nacional e à Globonews. Esta foi a sua realização. Quando perguntaram por que matava, respondeu de forma singela: “não sei, dá uma raiva e eu agrido verbal e fisicamente”. Parecia o “Homem de Gelo”, Richard Kubliski, assassino profissional da Máfia em Nova Iorque, acusado de 236 homicídios e que, na infância, matou todos os gatos e cachorros do bairro onde morava.

Perguntado se era um “serial killer”, Thiago respondeu com ar enfadonho e modesto: “não sei se posso afirmar isso”. Em seus olhos, vi a real afirmação: “é isso mesmo que eu sou!”.

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