Governo admite que não controla PCC na cadeia.

Marcola, líder do PCC.

Marcola, líder do PCC.

Documento do governo paulista, enviado à Vara de Execuções Penais e assinado pelos secretários da segurança e da administração penitenciária, admite que as autoridades não têm condições de controlar as atividades da liderança do Primeiro Comando da Capital (PCC) dentro das prisões. O ofício, descoberto pelo repórter Sandro Barbosa, do Jornal da Band, exibido com exclusividade pela emissora, solicitava a transferência de quatro dos comandantes da organização criminosa para um regime de isolamento.
Marcos Herbas Camacho, o Marcola, Cláudio Barbará da Silva, o Barbará, Célio Marcelo da Silva, o Bin Laden, e Eduardo Marcondes Machado, o Du Bela Vista, considerados os mais importantes chefes da facção, foram transferidos da penitenciária de Presidente Venceslau para a de Presidente Bernardes, onde foram isolados. Nessa última cadeia funciona o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), pelo qual os presos ficam trancados em celas solitárias 23 horas por dia. Têm direito somente a uma hora de banho de sol, sozinhos num pátio. Só recebem visitas de 15 em 15 dias e não podem ler jornais, ouvir rádio ou ver televisão. É o mais duro regime penal do país, que muitos juristas consideram desumano e inconstitucional. Os líderes do PCC foram trancados no RDD no dia 11 de março, após a descoberta de um plano de fuga.
Pois bem: os advogados dos criminosos entraram com pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça paulista, alegando que eles não tinham nada a ver com nenhum plano de fuga e que não representavam ameaça para a sociedade, porque já estavam presos. O desembargador Péricles Piza aceitou os argumentos e mandou os chefes do PCC de volta a Presidente Venceslau, onde estão agora, convivendo normalmente com a massa carcerária. Como já disse, no meio jurídico, o regime de prisão solitária é questionado por se tratar de um castigo severo demais.
Não nos cabe discutir a decisão do juiz. Mas a confissão de incompetência do governo é estarrecedora. Se não é possível controlar o PCC dentro da cadeia, que dirá fora!

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Paraquedistas ocupam a Maré e ficam até o fim da Copa.

Militares na Maré, em foto do UOL.

Militares na Maré, em foto do UOL.

A Brigada Paraquedista do Exército, a mais bem treinada força militar do país, ocupou neste sábado (5 abril) o conjunto de favelas da Maré, na zona norte do Rio. Apoiados por fuzileiros navais e homens do Bope, os paraquedistas devem ficar na região até o fim da Copa do Mundo de futebol. Ao todo, 2.700 militares constituem a força de intervenção, a maior já reunida desde o regime militar. Boa parte desses militares já estiveram em missão de combate no exterior, como no Haiti e em Miamar.

Blindados e armas pesadas nas favelas. Foto UOL.

Blindados e armas pesadas nas favelas. Foto UOL.


Não são esperados conflitos armados nessa operação, até porque, nos últimos dias, os bandos de traficantes se retiraram para outras áreas da cidade. Três grupos diferentes – e rivais – atuam na Maré: o Comando Vermelho, o Terceiro Comando e a milícia Liga da Justiça. Os órgãos de inteligência dizem que as facções criminosas têm (ou tinham) mais de 600 homens armados na região. O tráfico no Complexo da Maré, segundo a polícia, teria influência econômica sobre mais de 10% da população local. Ou seja: mais de 13 mil habitantes. O movimento da venda de drogas naquela área, antes da ocupação, era estimado em 60 milhões de reais/ano. Após a invasão policial-militar do Complexo do Alemão, em novembro de 2010, as favelas da Maré se transformaram em quartel-general das facções criminosas.
O projeto de ocupação do Complexo da Maré, completado em poucas horas e sem incidentes, fazia parte do plano de segurança da Copa do Mundo. Pela região passam as principais vias de acesso ao Rio. E o aeroporto internacional Tom Jobim é vizinho das favelas. Segundo o site de notícias do UOL, nos últimos 15 dias a polícia matou 16 pessoas na região, deixando ainda oito feridas. Mais de 100 armas e 2.300 cartuchos de munição, além de drogas, foram apreendidos.

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O desastre anunciado das UPPs: crime organizado dá o troco nas áreas ocupadas.

Confrontos diários nas áreas ocupadas pelas UPPs.

Confrontos diários nas áreas ocupadas pelas UPPs.

O governo do Rio ocupou mais uma área controlada pelo tráfico de drogas. Dessa vez foi no Complexo da Maré, um conjunto de 15 favelas e bairros pobres com mais de 130 mil habitantes. A ação contou com tropas de elite da Polícia Militar, apoiadas por forças federais. Blindados da Marinha, helicópteros, agentes federais e até um drone (avião não tripulado) foram empregados na ocupação, destinada a implantar a 38ª. Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na capital fluminense. Agora são aguardados batalhões do Exército para completar o serviço. Como a ocupação foi anunciada pela TV, não houve confronto.
Para desencadear a nova invasão do território do crime organizado, o governador Sérgio Cabral foi a Brasília pedir ajuda à presidente Dilma Rousseff. Várias áreas de UPPs estavam fora de controle: ataques de bandos armados, onze policiais mortos, dois comandantes feridos a bala, UPPs incendiadas, um caos. Cinco anos após o início da nova política de segurança no Rio, parece que tudo desandou. Mas o que foi que aconteceu? É simples: o projeto original das UPPs previa a retomada das áreas controladas pelo tráfico e o posterior “choque de civilização”, com grandes investimentos públicos na urbanização, saúde, transportes, saneamento e geração de emprego nas comunidades atingidas, além da segurança propriamente dita. Essa segunda parte ficou só nos discursos.
A nova política resultou apenas na precária ocupação policial e na constante violação de direitos dos moradores, como um pequeno “estado de sítio”. Mais de uma centena de militares e policiais foram punidos por abusos, sendo o caso mais notório aquele da tortura e morte do pedreiro Amarildo, na Rocinha. Além do mais, inúmeros agentes da lei foram corrompidos pelo tráfico. A bandidagem se reorganizou e tomou a ofensiva no processo, a partir de táticas de guerrilha urbana. Ou seja: um desastre!
A história recente já demonstrou que combater o crime não é apenas um problema para a polícia. Mas nossos governantes insistem no erro. E daí para a frente só vai piorar.

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STF absolve mais dois réus do “mensalão” e condena especulador financeiro por lavagem de dinheiro.

Confirmando tendência mais liberal, o Supremo Tribunal Federal (STF) absolveu o ex-deputado do João Paulo Cunha (PT), que chegou a ocupar a presidência da Câmara dos Deputados, da acusação de lavagem de dinheiro na última sessão da ação Penal 470. Absolveu também o ex-assessor do Partido Progressista (PP), João Cláudio Genu, considerado um simples intermediário no pagamento de propina a integrantes do meio parlamentar. No entanto, manteve a condenação de Breno Fischberg, dono de uma corretora de valores usada no esquema. Fischberg era conhecido por uma forte atuação no mercado especulativo, principalmente de câmbio.
A última sessão do mensalão foi rápida e sem os habituais confrontos de opinião. Na maior parte do tempo, não contou com a presença do presidente da Corte, Joaquim Barbosa, o que talvez explique a “tranquilidade”. O ministro, aliás, esteve ausente da votação que absolveu João Paulo Cunha e Cláudio Genu, mas apareceu no final, quando Breno Fischberg foi condenado. Coincidência? O fato é que o STF está bem diferente daquilo que vimos no ano passado. Com a chegada de dois novos ministros, Luís Roberto Barroso e Teori Zavascki, a corte passou a ter maioria contra as posições de Joaquim Barbosa.
Se essa mesma composição estivesse presente nos sete anos iniciais do processo, o resultado teria sido muito diferente? Na maioria das condenações, provavelmente não. Mas seria diferente nas penas, muitas das quais são tidas como “exageradas” no meio jurídico. E é provável que o ex-presidente do PT, José Genoíno Neto, que não deu nem recebeu propinas, tivesse sido absolvido. O ministro Luís Roberto Barroso, numa das sessões, chegou a fazer elogios a Genoíno.
Seja como for, o chamado “processo do mensalão” é um marco no judiciário brasileiro. Talvez pela primeira vez, gente muito poderosa foi condenada e mandada para a cadeia. Vamos ver o que acontece agora com o “mensalão mineiro”, que envolve o principal partido de oposição, o PSDB. O relator é o ministro Barroso.

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Negociações de paz chegam a impasse na Colômbia: EUA querem vitória militar.

Negociadores das FARCs em Havana.

Negociadores das FARCs em Havana.

As conversas entre o governo colombiano e as FARCs, a guerrilha comunista que domina um terço do país vizinho, estão emperradas e podem fracassar. As negociações, iniciadas pelo presidente Juan Manoel Santos no ano passado, deveriam atender a três pontos principais: uma ampla reforma agrária; anistia para os guerrilheiros condenados ou presos; e a participação do movimento comunista nas eleições ao parlamento. O acordo deveria resultar ainda num cessar fogo entre as partes combatentes.
Da pauta de reivindicações, apenas o primeiro ponto resultou em entendimento. Ficou acertada uma nova política agrária para a Colômbia, beneficiando lavradores sem terra e protegendo proprietários produtivos. Centenas de milhares de lavradores pobres receberiam lotes para trabalhar. E as fazendas economicamente ativas estariam a salvo de invasões e ataques da guerrilha. No entanto, há forte resistência do judiciário em relação à anistia de integrantes das FARCs. Mais resistência ainda à participação dos comunistas nas eleições, especialmente porque o mandato de Juan Manoel Santos acaba esse ano. Os segmentos conservadores do país, representados pelo ex-presidente Uribe, que é candidato, não querem nem saber de guerrilheiros disputando votos.
Ou seja: impasse total. E a situação é agravada pela divisão de opinião nas forças armadas locais. Boa parte dos militares acredita numa vitória contra a guerrilha no campo de batalha. Isso, porém, parece improvável a curto prazo. Nos últimos seis anos, as FARCs sofreram duros reveses, com a parda de suas mais importantes lideranças. O comandante Manuel Marulanda Vélez, que iniciou a guerrilha em 1964, morreu de ataque cardíaco (26 de março de 2008). Raul Reyes, o segundo em comando, foi abatido numa espetacular ação da Força Aérea, que localizou e bombardeou um acampamento guerrilheiro na fronteira entre a Colômbia e o Equador (1º. de março de 2008). Ivan Ríos, o número três das FARCs, foi assassinado por dois traidores, que eram guarda-costas dele (3 de março de 2008). Alfonso Cano, que substituiu este último, foi morto num ataque de tropas governamentais (4 de novembro de 2011). Os órgãos de inteligência americanos afirmam que mais de 20 líderes das FARCs foram eliminados. Mas a guerrilha ainda dispõe de cerca de 15 mil homens no campo, além de um número desconhecido agindo nas cidades – e isso sem falar na soma inimaginável de simpatizantes, especialmente entre a juventude. O grupo continua operacional e tem a iniciativa dos combates em várias partes do país. Se não fosse assim, não haveria nenhuma conferência de paz.

O comandante Alfonso Cano.

O comandante Alfonso Cano.

As vitórias militares sobre a guerrilha foram impulsionadas pelo apoio decisivo da Casa Branca, tanto no governo de George W. Bush, quando na administração Obama. Os Estados Unidos mantém um plano secreto de atuação na Colômbia, que foi denunciado pelo jornal The Washington Post em 23 de dezembro do ano passado. De acordo com o diário americano, desde o ano 2000, os colombianos têm acesso em tempo real às informações da CIA sobre o paradeiro dos líderes rebeldes, inclusive com vigilância via satélite. A partir de 2006, o Pentágono iniciou o fornecimento de armas ultramodernas e dispositivos de guerra eletrônica. Tais dispositivos fizeram enorme diferença na correlação de forças.
A reportagem do Washington Post revela que os colombianos receberam um tipo de GPS que serve para direcionar com precisão as bombas lançadas pela aviação. Muitas baixas entre os guerrilheiros foram causadas pelo equipamento. Pequenos mísseis inteligentes, que podem ser disparados de terra ou do ar, também foram entregues aos colombianos. A arma mais poderosa, no entanto, é um sistema de controle de comunicações, capaz de monitorar todas as linhas telefônicas do país, desenvolvido pela Agência Nacional de Segurança (NSA). A mesma agência americana que andou espionando a presidente Dilma Rousseff. Nos últimos 14 anos, os Estados Unidos já gastaram 9 bilhões de dólares na Colômbia. E continuam acreditando numa vitória militar.

Manifestação contra as FARCs em Bogotá.

Manifestação contra as FARCs em Bogotá.

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Sai a 13ª. edição de “CV-PCC – A irmandade do crime”.

CV PCC

A Editora Record acaba de lançar a 13ª edição do livro “CV-PCC – A irmandade do crime”, segundo volume da minha trilogia sobre violência urbana e crime organizado no Brasil. Publicado originalmente em 2004, tornou-se um best seller sobre o tema. A nova edição já está nas livrarias e pode ser encontrada também em formato e-book, através da Internet, no endereço eletrônico http://www.record.com.br . A seguir, você confere texto de divulgação da Editora Record sobre o livro:
“CV-PCC – A irmandade do crime, do jornalista Carlos Amorim, é um mergulho no submundo. Além de descrever as operações de grupos armados como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), o livro investiga as origens históricas do crime organizado no país. ‘As organizações criminosas não estão limi-tadas a nenhuma geografia específica, a nenhuma periferia urbana, fazem parte do cotidiano de toda uma nação’, explica o autor. Ele analisa a violência urbana instalada no Brasil e mostra como o crime organizado pretende unificar o tráfico de drogas sob um comando único. Define, ainda, o quadro das operações criminosas que já colocam o país como o segundo maior mercado mundial de consumo de drogas ilegais”.

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Absolvição de Dirceu, Genoíno e Delúbio mostra STF mais tolerante.

Ministro Teori: voto decisivo

Ministro Teori: voto decisivo

Por seis votos a cinco, o Supremo Tribunal Federal (STF) absolveu nesta quinta-feira (27 fev) oito réus do “mensalão” acusados de formação de quadrilha. Entre os acusados absolvidos, já condenados por outros crimes e cumprindo pena, estão o ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente do PT, José Genoíno Neto e o tesoureiro do partido, Delúbio Soares. A decisão da Suprema Corte, em meio a forte discussão, revela uma face mais tolerante do tribunal. A nova composição do plenário, com a chegada dos ministros José Roberto Barroso e Teori Zavascki, dá a entender que o equilíbrio de forças mudou, ao menos no caso da Ação Penal 470.
Os dois novos ministros afirmaram que o crime de formação de quadrilha, se existiu, já estava prescrito. Portanto, votaram a favor da aceitação do recurso da defesa (embargos infringentes), o que significava a absolvição dos réus neste crime em particular. Teori e Barroso arguiram a tese de que o STF não pode se dobrar a pressões ou inclinações políticas. Deve ser um tribunal técnico e desapaixonado. Pelas leis brasileiras, os embargos infringentes são o último recurso da defesa, admitido apenas pela Suprema Corte do país. E, como se trata de iniciativa exclusiva da defesa, o resultado não pode piorar a situação dos réus. Foi o que se deu.
Com essa decisão, Dirceu e Delúbio escapam da prisão em regime fechado – e ficam como estão, cumprindo pena no modelo semiaberto, podendo deixar a cadeia para trabalhar e tendo o direito de passar quatro semanas por ano em liberdade vigiada, para visitar a família etc. No caso de Genoíno, fica tudo como está. Vale lembrar: não há mais nenhuma possibilidade de recurso. A decisão desta quinta-feira é agora inquestionável.
Quarenta pessoas foram acusadas no processo do “mensalão”. Quinze foram despronunciadas (acusação retirada), absolvidas ou tinham penas prescritas. Vinte e cinco foram condenadas e, destas, onze tiveram o direito de apresentar embargos infringentes (oito por formação de quadrilha e três por lavagem de dinheiro, estando estes últimos casos pendentes de decisão). E com isso acaba a Ação Penal 470. Para sempre.
Quem gostou, muito bem. Quem não gostou, azar.

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Tribunal de Justiça manda Sérgio Gadelha para a cadeia.

Hiromi protesto 2

Nove meses depois de ter matado a socos e pontapés a própria mulher, Hiromi Sato, o advogado Sérgio Brasil Gadelha finalmente vai para a prisão. Réu confesso, preso em flagrante, o criminoso passou apenas 30 horas atrás das grades, beneficiado por prisão domiciliar. Mas os desembargadores da 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, na última quinta-feira (30 jan), julgando recurso apresentado pela promotora do caso, Solange Beretta, revogaram a decisão que dava ao advogado o direito de aguardar o julgamento em casa. Sensíveis à comoção provocada pelo assassinato de Hiromi, os desembargadores reconheceram, implicitamente, a periculosidade de Sérgio Gadelha. Agora ele vai em cana!
O crime aconteceu no dia 20 de abril de 2013. Foi no apartamento do casal, na Rua Pará, bairro de Higienópolis, na capital paulista. A brutalidade desse homicídio provocou muitas reações, inclusive com manifestações em frente ao prédio onde Sérgio Gadelha “cumpria pena”. Numa dessas demonstrações contra a impunidade, o assassino chegou a chamar a polícia, reclamando de “perturbação da ordem”. É muita cara de pau!
A decisão da 6ª Câmara Criminal não significa a imediata prisão do acusado. No judiciário brasileiro há recurso para tudo. Mas, quando a decisão foi lida, as pessoas que ocupavam a plateia se levantaram e aplaudiram de pé.
Uma hora e meia após a publicação deste post, recebemos a notícia de que Sérgio Gadelha havia sido preso. Ele agora está no 31 Distrito Policial, na Vila Carrão, em cela comum.

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Conflito no sul do Amazonas pode criar a mais grave crise indígena das últimas décadas.

A violência em Humaitá, em foto do Estadão.

A violência em Humaitá, em foto do Estadão.

O ressentimento entre moradores e índios na região de Humaitá e Apuí, no sul do Amazonas, pode se transformar num conflito de grandes proporções, produzindo a mais grave crise indígena das últimas décadas. Quem faz essa advertência é o bispo católico da região, Dom Francisco Merkel, que está à frente das negociações para reduzir as tensões. O clima ficou pesado depois do desaparecimento de três homens na reserva dos índios Tenharim, no dia 16 de dezembro, em um posto de pedágio “informal” controlado pela tribo na rodovia Transamazônica. O suposto sequestro seria uma represália à morte do cacique Ivan Tenharim, que teria sido atropelado na Transamazônica, duas semanas antes.
A revolta dos moradores explodiu no dia de Natal, quando grupos incendiaram a sede da Funai, destruíram veículos do Governo Federal e tocaram fogo numa grande embarcação que fazia a travessia do Rio Madeira. Dom Francisco Merkel declarou a jornalistas que a polícia local não tinha recursos para conter a confusão. Segundo ele, quando a população local atacou as instalações em Humaitá, havia uma insatisfação com as autoridades. “Três homens de bem sumiram e tudo apontava para os índios, mas o que fizeram as autoridades? Nada. Então, o principal alvo da explosão foi essa inércia do governo”.
No último fim de semana (4-5 jan), a Força Nacional de Segurança, com comando da Polícia Federal e apoio do Exército, localizou partes carbonizadas do carro que os três desaparecidos usavam quando sumiram. Deles, nem sinal. O Comandante Militar da Amazônia, general Eduardo Villas Boas, sobrevoou a área do conflito para decidir se autorizaria ou não o emprego de tropas especiais (Batalhão de Infantaria de Selva) nas buscas. Esses pedágios montados pelos índios ao longo da Transamazônica são motivo de tensão permanente.
Para entendermos um pouco melhor todo esse conflito, publicamos a seguir um artigo da secretária de agricultura, comércio, indústria e turismo do Mato Grosso do sul, a engenheira-agrônoma Teresa Cristina Dias, uma estudiosa da questão indígena. O artigo, resumido, expressa opiniões da secretária – e não necessariamente deste site. Teresa Cristina acredita que há um fundo político e ideológico nesse tipo de confronto. Acompanhe:

“É preciso deter a marcha da insensatez”.
Teresa Cristina Dias

“Os acontecimentos de Humaitá, no Amazonas, são um alerta a todos que têm algum envolvimento com a marcha da insensatez, que se avoluma e que chama às responsabilidades autoridades e mentores de desenvolvimentos políticos, administrativos e judiciais nesses espaços. A execução de três reféns seria o preço para a retaliação pela morte de um cacique atropelado por “brancos” não identificados. Estes acontecimentos encerram, com êxito, a retrospectiva de uma escalada de confrontos que rompem um equilíbrio que vinha se consolidando há mais de um século.
“Em Humaitá, fazia 125 anos que as comunidades indígenas e lusófonas tinham encontrado uma forma de convivência pacífica. O mesmo se pode dizer de Mato Grosso do Sul, onde, desde o final dos anos 1870, ainda no Império, D. Pedro II deu aos Guaicurus um status que consolidava a presença dos indígenas em suas terras, como prêmio por sua participação na Guerra do Paraguai, combatendo, sob a bandeira brasileira, a seus inimigos milenares, os índios Guaranis paraguaios. Tudo isto parece que hoje se afoga no ativismo político e ideológico.
“Enquanto o conflito de Humaitá evolui, não se pode prever como esse fato terminará. De um lado, os militantes da chamada causa indígena vão empurrando com a barriga, na esperança de que a suposta violência contra os três homens desaparecidos na rodovia Transamazônica seja jogada debaixo do tapete. Neste caso, daqui a dias aparecerá alguém dizendo que os silvícolas foram vítimas de um capitalismo cruel. Entretanto, será difícil passar por cima de três cadáveres, caso se confirme a morte dos desaparecidos. Como justificar a execução exemplar de inocentes capturados ao acaso numa rodovia federal, certamente abatidos a golpes de borduna? Será um impasse tão grave que põe em risco as políticas compensatórias que vêm sendo introduzidas no País desde o governo de Fernando Henrique Cardoso.
“Aqui em Mato Grosso do Sul todos os que têm responsabilidades nesta área, especialmente nosso governador, que delega prudência e inteligência a seus negociadores, dentre os quais me incluo, até agora conseguem limitar a violência a níveis mínimos. Por isto advertimos aos mentores do confronto, de ambos os lados, que reflitam ao insuflar uma escalada nos conflitos entre indígenas e fazendeiros aqui no Estado. Os fatos de Humaitá ainda não se esgotaram. Ainda permanecem encobertos por uma nuvem de silêncio de lideranças e entidades que deveriam ter responsabilidade nos acontecimentos, o que nos permite suspeitar que fatos muito graves ainda possam advir.
“Minha posição no governo do Estado justifica minha cautela. A questão indígena está aí a desafiar nossa capacidade política e a criatividade para recolocar o diálogo, trazer de volta o bom senso a uma sociedade plural. O importante é não chegarmos a uma situação limite como vivem nossos colegas governantes do Amazonas. Aqui como lá, o poder local não detém todos os meios para evitar o descontrole, mas certamente é sobre governadores e prefeitos que recairá o ônus de acontecimentos trágicos como os que vemos em Humaitá”.

A secretária Teresa Cristina.

A secretária Teresa Cristina.

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Gripen NG: não foi uma ótima escolha, mas dá pro gasto.

gripen ng

O Ministério da Defesa e a presidente Dilma Rousseff finalmente decidiram dar a partida no projeto de reaparelhamento da Força Aérea. O país vai investir 4,5 bilhões de dólares nos próximos anos para adquirir 32 caças Gripen NG, produzidos no Brasil pela Saab sueca. O avião não é nenhuma Brastemp, mas dá para o gasto, especialmente num momento de quase total sucateamento da Aviação de Combate brasileira. É um avião moderno e ágil, que começou a ser fabricado após o fim da Guerra Fria. Não foi concebido para estratégias de guerra global. E nisso há uma boa notícia: é uma arma de defesa territorial ou para operações agressivas pontuais.
Num país de 8 milhões de quilômetros quadrados, como o nosso, o Gripen pode não ser o caça ideal. Com seu peso de 7 toneladas, carregando mais 6 toneladas de armamentos, lotado de combustível, só consegue voar 1.100 quilômetros em linha reta. Saindo de São Paulo, jamais chegaria a Belém sem reabastecimento. Mas isso também é uma boa notícia: o Gripen deverá ter emprego tático, baseado em comandos aéreos regionais. Voa pouco, comparado com o F-18 Hornet, americano, ou com o Sukoy, russo. Mas é rápido – pode tingir 2,7 mil km/hora – e maleável no ar. Possui dez estações de armas na fuselagem. Pode disparar metralhadoras, canhões, foguetes e bombas inteligentes. É um interceptador supersônico, mas pode realizar missões de bombardeio. Para as nossas necessidades, está de bom tamanho.
Estamos comprando 32 desses aviões, que só começarão a sair do chão em 2018. Mas a fábrica estará em território nacional. Uma grande vantagem. E essa conta poderá, em contratos futuros, chegar a 160 aeronaves desse tipo. Distribuídas em três ou quatro pontos do país, teremos um excelente sistema de proteção do espaço aéreo. Mas será necessário construir estruturas operacionais em terra, controle via satélite e aperfeiçoar os nossos modelos de abastecimento em voo.
O Gripen NG serve para combates aéreos, ataque ao solo e para missões de observação. Como ponto desfavorável, pode-se dizer que o caça sueco nunca participou de combates. As únicas missões militares reais desenvolvidas com ele foram de informações (fotos, levantamentos para mapas digitais etc) e de reconhecimento de posições inimigas e prováveis alvos durante a guerra civil na Líbia, onde o Gripen deu apoio às forças da Otan. Está bem assim, ou não? No cenário político brasileiro, não há qualquer hipótese visível de uma guerra de verdade no continente americano. Mesmo assim, é preciso não esquecer que a diplomacia tupiniquim pretende obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Isso nos obriga a ter uma força militar de intervenção rápida.

gripen nh 02
E por falar nisso, é bom lembrar que o Gripen NG pode ter uma versão para ação embarcada. Operando a partir do porta-aviões São Paulo – ou de outro que venha a ser construído em estaleiros nacionais – será muito útil na proteção das reservas de petróleo do pré-sal e na defesa dos oito mil quilômetros de litoral atlântico do país, por onde chegam drogas e armas para o crime organizado.

gripen ng 03

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