A guerra civil brasileira: turistas ficam presos no bondinho do Pão de Açúcar, por causa de um tiroteio entre bandidos, policiais e soldados do Exército. Em Minas, mais de 100 ataques de traficantes ligados ao PCC em 38 cidades. Nas fronteiras, bandos armados desafiam a soberania nacional. Cadê o governo?

juan carlos abadia 01

Abadia, o traficante colombiano que fazia negócios com políticos no Brasil. Foto da PF.

                        É o cenário de uma guerra civil não declarada em nosso país. Desde o início do ano, em 22 estados, já foram registrados 12 mil homicídios. São números apenas do primeiro trimestre. E estão faltando 5 estados na estatística. Isto indica um novo massacre sem precedentes. No Rio, 55 policiais militares já morreram. Só não entende quem não quer entender. A violência está fora de controle e nossos governantes mais parecem bonecos idiotas, que não sabem o que fazer. Ou são cúmplices desse estado de coisas? Dois exemplos: um ex-presidente da Câmara dos Deputados se envolveu em negócios imobiliários com o chefe do Cartel del Norte, o maior produtor colombiano de cocaína, Juan Carlos Abadia, que vivia tranquilamente em São Paulo, suportado por uma caixinha de 2 milhões de reai por mês; um senador da República teve um helicóptero da família apreendido pela Polícia Federal com meia tonelada de cocaína pura. Vocês sabem quanto vale isso? Um grama de cocaína é igual a um grama de ouro. Façam as contas!

                                    E o que foi que aconteceu? A investigação inocentou a família do senador. O piloto do helicóptero foi preso e condenado. E? Recebeu o benefício de recorrer em liberdade. Sumiu. Foi preso novamente, envolvido em uma operação de execução de dois traficantes que desviaram dinheiro do PCC. Para ser mais claro: o ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, chegou a dizer que “quem consome drogas e sustenta o crime organizado é a burguesa e a pequena-burguesia”. Lembo esqueceu de dizer quem é que ganha dinheiro com o tráfico. Você acha que é o garoto descalço, porém armado, da favela?

                                   Dados da ONU informam que o dinheiro ilegal em circulação no mundo soma 4 trilhões de dólares. Um quarto deste total se refere ao tráfico de drogas e substâncias controladas. Ainda segundo as Nações Unidas, há 400 milhões de usuários de drogas em todo o planeta. É um negócio espetacular, feito com dinheiro à vista, maior do que a indústria do petróleo e o segmento automobilístico. Não seria possível movimentar tais quantias sem o sistema bancário e de troca de capitais. E você, leitor, acha que isso é coisa de favelado? Não! As elites econômicas e políticas estão por traz disto. É o negócio de maior liquidez do mundo.

                                   Os estudiosos do assunto, como este modesto autor, sabem que os investimentos no narcotráfico pagam juros de 1% ao dia em dólar. O investidor, cidadão acima de qualquer suspeita, não pega em armas, não suja a mão na farinha. A luxuosa casa dele não cheira a maconha. Ele não quer saber se está financiando a plantação de papoulas na Ásia Central (matéria prima do ópio e da heroína) ou das lavouras de coca na América Andina. Para ele, é só um negócio. Esse cara é quem alimenta o câncer dos nossos tempos. É um homem de bem, preocupado com a família e os filhos. Infelizmente, alguns dos filhos morrem de overdose.

                                   Tenho feito essas denúncias há muitos anos, através dos meus livros e milhares de artigos e entrevistas. E a coisa não muda. Por que será?      

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

PCC toca o terror no sul de Minas e na região do Triângulo Mineiro. Desde domingo, houve ataques em 17 cidades, incluindo a capital. Ônibus e carros foram incendiados. Prédios públicos foram atingidos por rajadas de tiros.

queima de onibus em MG 01

34 veículos queimados em Minas. Imagem Charles-everton.blogspot.com .

                              Este foi o cartão de visitas da maior organização criminosa do país aos mineiros. As autoridades do estado gostavam de dizer que nas Gerais não havia facções criminosas e que a bandidagem não conseguia se organizar. O Primeiro Comando da Capital resolveu mandar um desmentido público, atacando ônibus e prédios públicos. O PCC, alias, pegou carona no descontentamento popular com o anúncio de que as passagens nos coletivos iriam aumentar. Desde o inicio da onda de violência, mais de 30 pessoas foram presas, oito em flagrante. Um adolescente, que teria participado de um dos incêndios, ficou gravemente ferido. Ao todo, 34 veículos foram queimados.  

                                   No submundo do PCC, conforme uma fonte que consultei, há insistentes comentários de que a operação mineira foi iniciada no ano passado por um dos homens de confiança da cúpula da organização. O nome dele é Ismar, mais conhecido como “Jacaré”. É paulista do interior, tem 38 anos e uma longa folha criminal. Tem larga experiência com o tráfico e deu a partida à implantando dos pontos de venda de drogas em Minas, abastecidos através da rota que passa por Mato Grosso  do Sul. Os ataques em 17 cidades também teriam o objetivo de intimidar eventuais concorrentes. Mas o governo diz que crime organizado não existe!

Leiam as obras do autor. Nas lvrarias e na Internet.

As obras do autor estão nas livrarias e na Internet. Também em e-book. 

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Carmem Lúcia faz pronunciamento em defesa da democracia. Militares ressuscitam “elementos infiltrados”. Em meio à crise, Pedro Parente aumenta a gasolina de novo. Quem garante que o preço dos combustíveis voltará ao que era antes da greve? A greve soma 3 mortos.

 

carmem-lucia-01

Carmem Lúcia, do STF: pronunciamento em defesa da democracia. Imagem TV Justiça.

                                   A ministra Carmem Lúcia, na abertura da sessão de hoje (30 maio) na Suprema Corte, fez um longo pronunciamento em defesa da democracia no país. Afirmou que o judiciário estará pronto a garantir os direitos do povo brasileiro. Sabe-se lá o que ele quis dizer com isso. Ameaça de golpe militar? Ameaça às eleições livres em outubro? O ministro-chefe da Secretaria de Segurança Institucional, general Sérgio Etchegoyen, tratou de afirmar que os faróis dele estão voltados para o futuro e não para o passado, como a descartar qualquer conspiração militar.

                                   No entanto, há forte inquietação no meio militar. Oficiais generais imaginam o seguinte cenário: a Procuradoria-Geral da República apresenta uma terceira denúncia contra Michel Temer; o STF aceita, mas a Câmara dos Deputados recusa mais uma vez; o Alto Comando não consegue controlar a revolta nas casernas e decide assumir a liderança para evitar a quebra na hierarquia; impede Temer, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, todos suspeitos de corrupção. A saída é dar posse a Carmem Lúcia para um mandato tampão e garantir as eleições, que seriam transferidas para novembro. Tudo isso – evidentemente – é dito a boca pequena, discretamente.

                                   Trata-se, é claro, de uma violação dos ritos constitucionais. Mas teria significativo apoio popular, o que dá à violação um perfume sedutor. Não seria a primeira vez que o movimento militar iria se comprometer com eleições livres para breve. Em 1964, o general Humberto de Alencar Castelo Branco, chefe da conspiração contra Jango, prometeu eleições para o ano seguinte. O que houve foram 21 anos de trevas. Este é um país de memória curta – e muita gente acredita que uma intervenção militar é solução para os gravíssimos problemas do Brasil. Mesmo entre os pensadores em uniforme, há sérias dúvidas acerca do que fazer com um país desgovernado. Não há um projeto estratégico. Um golpe seria repudiado em todo o mundo. Verdadeiro tiro no pé!

                                   Na greve dos caminhoneiros, claramente estimulada pelo patronato de direita, até Jair Messias Bolsonaro correu a dizer que o caos não interessa nem a ele nem ao país. Apressado, Jair já se considera eleito. O ministro da educação ou cultura dele poderia ser o ator Alexandre Frota, um de seus conselheiros. Credo em cruz!

                                   Os órgãos de segurança, em pleno século 21, ressuscitaram a expressão “elementos infiltrados”, típica da ditadura. Só não dizem que são comunistas, porque não existem mais comunistas para servirem de bodes expiatórios. Quem, afinal, são esses infiltrados? O presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, uma das lideranças da greve, é tucano e chegou a disputar um cargo de deputado pelo PSDB, segundo a Folha de S. Paulo.

                                   Ainda há 200 pontos de concentração de caminhoneiros nas estradas brasileiras. Mas a greve chega ao fim e o abastecimento está sendo normalizado. Pedro Parente, em meio a tudo isso, decretou hoje mais um aumento da gasolina. E o desgoverno Temer não dá a menor garantia de que o preço dos combustíveis (fora o diesel) vá voltar aos níveis de antes da greve. Estamos entregues ao chamado “livre mercado”, mas isso quer dizer: entregues aos cartéis de empresas que determinam os preços essenciais.

                                   A greve também tem um saldo trágico: três pessoas morreram, duas atropeladas durante os protestos e um caminhoneiro assassinado a pedradas em Rondônia.

                                   E a TV Globo pergunta: que país você quer para o futuro?   

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Petrobras já perdeu 115 bilhões em valor de mercado. Está ficando baratinha para a privataria. E a greve continua nas estradas.

caminhoneiros 02

A greve continua. Imagem Maringá Post.

 

                                   A greve dos caminhoneiros e o locaute das transportadoras já deixou de ser apenas por razões econômicas. Há uma trama política por trás do movimento. Talvez para beneficiar o segmento radical de direita. Coisas estranhas: entre os grevistas há homens armados ameaçando os motoristas que desejam voltar ao trabalho, assim como há um sistema organizado de distribuição de água e comida. Postos de combustíveis em São Paulo, sob ameaça, estariam recusando abastecimento, como diz a Folha online.

                                   Ainda existem mais de 500 pontos de paralisação em rodovias de 25 estados e no distrito federal. O desgoverno de Michel Temer, apesar de alardear seguidos acordos com os caminhoneiros, é desmentido na prática. A coisa está fora de controle, causando danos incalculáveis ao país e à população. Não por acaso, o agronegócio foi o setor mais atingido, carro chefe da economia, justamente o seguimento que põe comida na mesa do brasileiro. Cheira a conspiração. Um golpe dentro do golpe.

                                   Não custa lembrar: o golpe militar que derrubou o presidente socialista Salvador Allende, no Chile, em 11 de setembro de 1973, foi precedido por um locaute de transportadoras e um severo desabastecimento. Aqui estamos perto do caos: sem falar nos combustíveis, falta comida (e os preços dispararam), escolas estão fechadas (inclusive universidades), os hospitais reduzem o atendimento, o transporte coletivo, já deficiente, está reduzido à metade. Tudo isso em apenas 9 dias. Se o movimento continuar, o país afunda em saques e violência. E diziam que o PT iria transformar o Brasil em Venezuela. Não! O antipetismo transforma o Brasil em Venezuela.

                                   O mais impressionante é o silêncio dos políticos. Fora os patéticos Carlos Marun e Eliseu Padilha, que assumiram a liderança do poder central, seguidamente desmentidos, o resto é silêncio. Entre os presidenciáveis, só Bolsonaro aparece para dizer que o caos não interessa a ele nem ao país, quando a cofusão só o favorece. O caos infla as velas dos radicais. E Bolsonaro é o maior de todos. O país caminha para um desastre ainda maior do que o de Dilma. Quem dizia “primeiro a gente tira a Dilma e depois a gente vê” deve estar mordendo a língua.

                                   E quem clamava por uma intervenção militar deve estar decepcionado: no Rio, foi um fiasco; agora é pior. Ao atender ao governo postiço, os militares estão se desmoralizando. Deveriam ter deixado Temer se afundar. E ele está mesmo afundando. No Congresso já se discute a substituição.  

                                   Este é um país de tragédias. Os avanços econômicos e sociais são perseguidos por retrocessos quase inevitáveis.  

                                   Até quando?

Publicado em Politica e sociedade | 1 Comentário

Greve de caminhoneiros empareda Temer e abre caminho para a privatização da Petrobras. As ações da petroleira desabaram no mercado financeiro, valorizaram o dólar e deram a partida para a entrada do capital estrangeiro. A Petrobras ficou barata. Que greve é essa, apoiada pelos patrões?

                                   O locaute das empresas de transporte de cargas, travestido de greve dos motoristas, está levando o país ao caos. Falta combustível, comida e remédios. O governo promete redução de preços, corte de impostos, em troca de sacrifícios para o contribuinte. A greve não é um movimento a favor dos trabalhadores do setor de transportes, até porque os motoristas autônomos representam menos de 30% do segmento econômico. A paralisação é das empresas transportadoras, que conseguiram mobilizar a categoria em todo o país.

                                   O desgoverno de Temer cede à chantagem, arrastando consigo o Congresso, a opinião pública e a grande mídia, que faz de conta que mão sabe o que está acontecendo. No fundo e no raso, trata-se de desvalorizar a Petrobras aos olhos do grande capital internacional. Em apenas quatro dias, a Petrobras deixou de ser a maior empresa pública do país, considerando a redução de seu valor nominal. Ficou barato comprar as ações da companhia.

                                   Para acabar com a “greve”, o desgoverno apresentou propostas de redução do preço do diesel, desconsiderando a gasolina e o álcool, que afetam a população em geral. Na mão direita, aponta para aumento de outros impostos, de modo a compensar um rombo de 14 bilhões de reais. Rapidamente, a Câmara dos Deputados, comandada por Rodrigo Maia, aprovou o fim da redução de impostos sobre a folha de pagamentos de 57 setores da economia. Isto quer dizer mais desemprego, que já atinge 27 milhões de brasileiros.

                                   Trata-se de um caos generalizado.         

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Greve mobiliza 1 milhão de caminhoneiros e paralisa o país. O movimento quer a redução do preço dos combustíveis e protesta contra governo corrupto. A paralisação é apoiada e incentivada pelos empresários do setor de transportes.

 

caminhoneiros 01

Caminhoneiros que protestaram contra Dilma pedem desculpas. Imagem Blog do Esmael.

                                   A greve dos caminhoneiros chega ao terceiro dia, provoca desabastecimento de produtos, aumento de preços e ameaça o governo Temer. Se durar mais, vai provocar um caos. Está faltado combustível de aviação em importantes aeroportos, como em Brasília, Recife e São Paulo. Em algumas regiões do país, a gasolina já foi vendida a 8,8 reais o litro. Cargas perecíveis paradas nas estradas já causam um prejuízo de 60 milhões de dólares por dia. Portos estão praticamente fechados. E já falta comida nos entrepostos que abastecem os supermercados.

                                   O movimento é incentivado pelo patronato do setor, mas conta com ampla adesão dos motoristas. É tão forte, que a Petrobras anunciou redução temporária de 10% no diesel. E Michel Temer pediu uma trégua aos grevistas para tentar encontrar meios de reduzir impostos dos combustíveis. Enquanto isso, ministros batem cabeça e o Congresso tentar aprovar medidas na contramão dos interesses do Planalto. É um desgoverno assombroso. A AGU precisou ir aos tribunais federais para obter “reintegração de posse em seis rodovias federais, inclusive com o uso da força”. Só falta chamar as Forças Armadas.

caminhoneiros 02

A greve no Paraná. Imagem Maringá Post.

                                   A greve, além da reivindicação econômica, serve de protesto contra a corrupção governamental. Vários caminhoneiros postaram mensagens contra Temer nas redes sociais. Muitos estão convocando uma greve geral. Outros pedem “intervenção militar já”. É uma barafunda sem tamanho. E o governo não tem nada a dizer. A política de preços da Petrobras, com oscilação diária, está transformando o consumidor em vítima. Pedro Parente, presidente da petrolífera, é um economista apenas preocupado com o balanço da empresa. Não quer saber do interesse público, mesmo estando no comando da maior empresa pública do país. Quando Dilma Rousseff subsidiava o preço dos combustíveis ao consumidor, gritava-se: “o PT está destruindo a Petrobras”. Agora a Petrobras está destruindo o país. Entre um extremo e outro, certamente deve haver uma política melhor, que também considere as necessidades da população.

                                   Este é um país sobre rodas. São os caminhões que movimentam o PIB brasileiro. Aqui não temos ferrovias para escoar a produção. Por que? Porque a indústria automotiva internacional e os exportadores de petróleo assim determinaram. Acabamos com as ferrovias e construímos estradas. Sinuca de bico.

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Segurança será tema central da campanha presidencial. O país que mais mata no mundo deseja um projeto contra a violência. E os candidatos, sabem o que fazer? Não!

moro e aecio

Uma justiça desigual. Foto portal IstoÉ.

                                   Este país ensolarado, às margens do Atlântico Sul, forrado de florestas, terra do samba e do futebol, quer dormir em paz. Mas os brasileirinhos não conseguem conciliar o sono ao som dos tiroteios. Os números oficiais informam que matamos 61,5 mil pessoas por ano (2016). Além disso, há mais 47 mil mortos no trânsito e 35 mil desaparecidos. A cada 12 meses registram-se 6 milhões de assaltos à mão armada. Um estupro a cada 15 minutos.

                                   O tráfico de cocaína é o segundo maior do planeta. E, no crack, somos campeões absolutos. Também somos campeões em fraudes bancárias e crimes cibernéticos, um por minuto. Batemos recordes mundiais em assaltos aos cofres públicos. O mundo diz que o Patropi é considerado um dos países mais corruptos, com o envolvimento direto de governantes, políticos e empresários que controlam o grande capital. A Receita Federal e o Ministério Público estimam que a sonegação fiscal e a corrupção podem alcançar a cifra absurda de 200 bilhões de reais/ano. Uma única empresa de bebidas teria sonegado 5 bilhões em impostos. Sem falar nas empreiteiras, montadoras de veículos e os bancos. Ah, sim: as grandes empresas de comunicação.

                                   Neste país bandido, o cidadão tem medo de ir à farmácia ou ao mercado, diariamente saqueados por adolescentes armados. O sinal de trânsito fecha e o medo arrepia os motoristas. Apenas 3% dos crimes cometidos resultam em condenações. No Rio e em São Paulo, há quase 300 mil mandados de prisão a serem cumpridos. E olha que temos 100 milhões de processos nos tribunais. O sistema prisional também está falido: o sujeito entra batedor de carteiras e sai chefe de quadrilhas ligadas às facções criminosas.

                                   Enquanto tudo isso acontece, as altas cortes liberam o pessoal do colarinho branco, alegando valores humanitários e respeito às leis. A execução penal segue uma dissimetria de classe: cadeia é para pobre, preto e favelado. Temos algo como 700 mil prisioneiros, superlotando “masmorras medievais”, como já assentou a Suprema Corte. E 42% deles nunca foram condenados. Alguns jamais viram um juiz. Pior: parte desses miseráveis já cumpriu as penas e continua atrás das grades. Um mutirão recente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) libertou 22 mil dessas infelizes.

                                   Só que Aécio Neves, Paulo Maluf, Romero Jucá e uma infinidade de outros foram salvos por decurso de prazo, porque os crimes deles prescreveram. Ou seja: as penas seriam menores do que o tempo decorrido na investigação e no processo. Simples assim! No caso de Maluf, coitado, foi para a luxuosa mansão nos jardins paulistas porque estava velho e doente. Este é um ícone da impunidade. Mas o bandidinho vagabundo, preso com 40 gramas de maconha, está em cana. Ele não pode pagar advogados. Veja só, leitor: os tribunais que condenaram Lula atropelaram todos os prazos. No TRF-4, o julgamento foi colocado à frente de centenas de outros processos. É assim que funciona.

                                   O brasileirinho anda esperando o surgimento de um messias, um salvador da pátria, que vá apresentar soluções para a questão da violência urbana, do crime organizado e da corrupção. Ainda não apareceu. A não ser o maluco do Bolsonaro, que disse que se poderia bombardear os pontos de venda de drogas na Rocinha, como se não houvessem uns 100 mil civis ao redor.

                                   Os candidatos à Presidência da República estão devendo aos eleitores um projeto concreto de segurança pública. Eles sabem o que fazer? Não! O desastre da intervenção federal no Rio é prova disto. O Brasil já teve duas políticas de segurança nas últimas muitas décadas. A primeira foi no Estado Novo (1937), a ditadura de Getúlio Vargas, cujo objetivo era proteger o governo e a própria figura do ditador. A segunda foi a Lei de Segurança Nacional (LSN) do regime militar (1964-1985), também voltada à proteção do estado de exceção.

                                   Agora, trata-se de proteger o cidadão. E nenhum deles sabe o que fazer. Estamos entregues ao desmando. Vivemos em cidades sem lei. Este é – miseravelmente – o país do medo. O medo da violência física e do desrespeito à cidadania. No país,   os direitos individuais começam a partir de uma renda familiar de 10 salários mínimos. Abaixo disto é um salve-se quem puder.     

                                  

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

O fiasco da intervenção no Rio: o número de tiroteios na Cidade Maravilhosa aumentou 86% em relação ao mesmo período do ano passado. Um a cada 40 minutos.

violencia-no-es-01

Soldado do Exército faz papel de polícia. Foto Agência Brasil.

 

                                   A intervenção federal no Rio de Janeiro, com militares assumindo o comando do combate à criminalidade, é um fracasso sem tamanho. As organizações civis que monitoram a violência no estado acabam de divulgar um levantamento que mostra forte aumento dos índices de ações criminosas. Só os enfrentamentos armados aumentaram 86%. Tornaram-se uma rotina tão banal quanto trágica. Os militares sequer apresentaram um plano de operações, uma especialidade deles.

                                   Na verdade, as Forças Armadas não queriam participar da farsa de intervenção montada ardilosamente pelo governo de Michel Temer. Diante da perda vertiginosa de popularidade (é o presidente pior avaliado da história), em face de derrotas importantes no Congresso, a trinca governante (Temer, Moreira Franco e Padilha) urdiu um novo golpe. Como não conseguiriam aprovar uma reforma da previdência conta os interesses dos trabalhadores, em ano eleitoral, inventaram a intervenção.

                                   A tal reforma tinha como foco o interesse do patronato. Já que não daria certo, a troika governante optou pela intervenção no Rio. Com um dos estados da federação sob intervenção, não  é possível aprovar emendas à Constituição, como no caso da previdência. Saída pela direita. Um artifício legal para evitar uma derrota fragorosa no Congresso.

                                   Evidentemente, usados como massa de manobra, os militares não ficaram nada satisfeitos. Custaram a reagir. Ganharam tempo para que surgisse um consenso no Estado Maior. Minhas fontes em uniforme dão conta de que a decisão foi não desenvolver operações de combate contra traficantes e milicianos, por causa dos danos colaterais. Esse tipo de enfrentamento produziria danos à imagem das Força Armadas. No Brasil de hoje, as Forças Armadas são as instituições melhor avaliadas pelo povo brasileiro, junto com bombeiros e paramédicos. Por que danificar essa imagem a favor de um governo supostamente corrupto, acusado de crime organizado?

                                   Os militares optaram por uma intervenção administrativa, resolvendo problemas, arrumando o fluxo de caixa. Mais dinheiro e menos balas. Até porque o Exército não tem munição para dois meses de combate aberto. Em muitos casos, os recrutas são treinados com carabinas de chumbinho. Essas Forças Armadas, desprezadas pelos governos civis pós-ditadura, não recebem o apoio necessário para defender o país. E agora foram convocadas por um governo bastardo para encobrir um grande desastre político chamado Temer.

                                   Pouca gente em nosso país perde tempo refletindo sobre geopolítica. Exemplo: somos vizinhos de dois países, Colômbia e Venezuela, que mostram condições ameaçadoras. Outro exemplo: parte das reservas do pré-sal estão além das 200 milhas de águas territoriais na costa brasileira. Podem ser questionadas por potências estrangeiras. O Brasil deveria ter uma força militar de dissuasão. Não tem! Ainda não!       

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Lançada a 14ª edição de “CV-PCC: A irmandade do Crime”. O livro faz parte da primeira trilogia nacional sobre violência urbana e crime organizado, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

 

001

“Assalto ao Poder” e “CV-PCC: A irmandade do crime”.

                                   A série de publicações sobre o tema, iniciada em 1993, já acumula 24 edições vendidas até agora, sendo uma de bolso. O primeiro livro, “Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado”, foi vencedor do Prêmio Jabuti de 1994, na categoria reportagem. O segundo, “CV-PCC: A irmandade do crime”, chegou às livrarias em 2004. O terceiro volume, “Assalto ao poder”, publicado em 2010, venceu o Jabuti no ano seguinte. Trata-se da primeira trilogia brasileira sobre violência urbana e crime organizado, revelando detalhes sobre a expansão das facções criminosas.

                                   O trabalho de pesquisas e redação consumiu metade da minha vida. De lá para cá, a situação só fez piorar, diante da insensibilidade dos governantes em relação ao drama da segurança pública. Um drama que vitima, especialmente, as camadas mais desfavorecidas da população. Em 2016, registramos um recorde de violência, com 61,6 mil homicídios e 37 mil desaparecidos. Em números absolutos, somos o país que mais mata no mudo. As guerras modernas, como na Colômbia e na Síria, são fichinha diante da sanha assassina no Brasil.

                                   Somos hoje o maior consumidor de crack no planeta. O segundo lugar em consumo de cocaína em pó. Acumulamos recordes em matéria de crimes de internet e fraudes bancárias. Sem falar em violência doméstica e crimes contra as mulheres. Acumulamos números absurdos em matéria de estupros e corrupção sexual de crianças. De alto a baixo, somos uma nação corrompida. A corrupção começa no guarda de trânsito – e termina no alto empresariado, em todos os escalões da República e num conluio criminoso que soma as oligarquias políticas e os governantes.

                                   A primeira frase de “Assalto ao poder” afirma: “O crime organizado pretende a tomada do poder”. Quando olhamos a Brasília de hoje, nada mais adequado. As organizações criminosas estão encasteladas no poder. Após um exaustivo trabalho de esclarecimento, através dos meus livros, tenho a impressão de que foi tudo inútil. Com mais de três mil páginas publicadas em livros e artigos, não vejo nenhum avanço no processo civilizatório brasileiro. Nosso sistema penal, que já acumula mais de 700 mil prisioneiros, é desigual, deseducador e insalubre. Um dos piores do mundo. Ali não se recupera ninguém. O sujeito entra como ladrão vulgar e sai como chefe de quadrilha ligado às facções. Pior: o crime organizado detém o controle da vida carcerária.

                                   Enquanto isso, mesmo quatro anos após o início da Lava Jato, políticos e empresários continuam roubando, como se não houvesse amanhã. Influenciados pela grande mídia, somos induzidos a acreditar que crime organizado é aquela garotada em cima das lajes das favelas, portando fuzis automáticos. Ledo engano. O crime organizado porta paletós e gravatas. E vai até Wall Street, a capital financeira do mundo.

                                   Só para desbaratar a “Célula R” do PCC, em São Paulo, também conhecida como “Sintonia das Gravatas”, a polícia prendeu e acusou 41 advogados e o Secretário Estadual de Direitos Humanos. Todos estariam a serviço da liderança da organização, chamada de “Sintonia Geral”. O grupo daria assistência jurídica ao núcleo dirigente do PCC e faria “tarefas de inteligência”, como descobrir parentes e endereços de diretores de presídios e agentes penitenciários. Ou seja: paletós e gravatas somados às armas do crime.

                                   Após a publicação de “Assalto ao Poder”, resolvi me despedir do tema. Mas ele me persegue, com base na realidade crescente da atuação criminosa, que hoje está no poder. Fiel à minha vocação de escrever sobre história contemporânea do Brasil, publiquei um novo livro em 2015: “Araguaia – Histórias de amor e de guerra”, sobre o maior, o mais longo e feroz enfrentamento entre a esquerda e o regime militar. Como esta publicação, estive mais uma vez entre os finalistas do Prêmio Jabuti. Mas não levei. Os outros autores eram muito melhores.

                                   Agora comemoro tristemente a 14ª edição de “CV-PCC”, em um país de poucos leitores.  

            

Publicado em Politica e sociedade | 2 Comentários

O projeto conservador que derrubou Dilma Rousseff tinha objetivos claros: impedir a presidente eleita, assegurar um governo postiço com base na banda podre do Congresso, prender Lula e cassar o registro eleitoral do PT. Está perto da vitória.

                                    Dilma caiu. Não conseguiu 172 votos na Câmara para salvar o mandato obtido com milhões de votos. Instalou-se um governo destinado a realizar reformas com vistas ao benefício do grande capital e do patronato. Sem falar nas tentativas de venda do patrimônio público, disfarçadas pela alcunha de privatizações. Quis vender inclusive reservas florestais, para beneficiar mineradoras, algumas estrangeiras.

                                   O passo seguinte foi desmoralizar e prender Lula, cujos processos correram acelerados, contrariando a lerdeza do judiciário. O ex-presidente está atrás de barras invisíveis, porque a porta da cela não tem grades. Está preso sob silêncio do país dividido. O PT, que errou demais em 13 anos de governo, contrariando as suas origens, não conseguiu mobilizar os trabalhadores para defender o cara que é tido como o governante mais popular do Brasil. E errou por que? Ao chegar ao poder, aliou-se com o que havia de pior a política, misturando-se à porcaria circundante. Não há como explicar tal coisa.

                                   O partido da ética na política esqueceu seus princípios. Caiu na armadilha prevista: quem faz aliança com o diabo termina maldito. E a maldição está em curso. Uma legião de juristas procura brechas para cassar o registro eleitoral do partido das massas. Tem mais de um milhão de filiados. Isto, no entanto, não assegura a sobrevivência do PT. Está dividido internamente. Perdeu o líder maior. E não formou novos quadros. Sem Lula, não tem um nome forte para a corrida presidencial. E Lula caiu.

                                   No discurso de despedida, em São Bernardo do Campo, o metalúrgico nordestino, duas vezes presidente do Brasil, apontou para novas lideranças: Fernando Haddad (PT), Madalena D’ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL). Como a dizer: no segundo turno das eleições estaremos todos jutos. Parafraseando o pastor luterano Martim Luther King Jr, ícone da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos (“eu tive um sonho”), Lula disse: “eu tive um sonho de distribuir renda, levar comida à mesa dos pobres”. Há mais de 50 anos entre um discurso e outro.

                                   Lula e o PT estão isolados socialmente. Não há um movimento popular para libertá-lo. O que há é um silêncio impressionante.                      

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário