Ficou feio demais: indicação de Moro a superministro de Bolsonaro lança sombras sobre o destino da Lava Jato e do combate à corrupção. De repente – não mais que de repente – o herói nacional ficou nu.

sergio oro 01

Juiz e acusador ao mesmo tempo.

 

                                   Aconteceu tudo muito rápido. Até demais. Três dias após o segundo turno, em um encontro que durou apenas 40 minutos, Sérgio Moro e Jair Bolsonaro firmaram um pacto que transformou o “Xerife da Lava Jato” em um dos mais importantes ministros do novo regime. O magistrado não tinha grandes questões a apresentar ao presidente eleito? Ou já tinham um acordo tácito à distância? Será que se identificavam tanto, que bastariam 40 minutos de entendimento? Nem as crianças do primário acreditam nisso.

                                   O trabalho de Moro à frente da maior devassa anticorrupção da história deste país deu a ele a maior credibilidade entre todos os brasileirinhos. Muitas pesquisas o apontavam como a personalidade de destaque. Foi capa de jornais e revistam ao redor do mundo. Poderia ser eleito para qualquer cargo público. Venceria disparado. Mas o próprio Sérgio Moro descartou solenemente tal hipótese, dando a entender, em várias entrevistas, que isto desmoralizaria o magistrado dele. No entanto, rapidamente, numa conversa de pouco mais de meia hora, o juiz abandonou a judicância e entrou de cabeça na política. Jogou fora 22 anos de carreira e um salário nada desprezível, que inclui uma série de mordomias que faltam ao trabalhador ordinário.

                                   Aqui, neste site, o juiz já foi elogiado, pela rapidez na condução dos processos e pela dura aplicação da lei. Condeno 140 pessoas na Lava Jato, entre as quais o político mais popular do país, Lula. Com o passar do tempo, fomos percebendo que Moro tinha – digamos – uma predileção por acusados ligados ao PT e às causas populares. Era só uma impressão. Agora há sombras sobre tudo isso.  Então, o tempo todo, Moro concordava com a plataforma ultraconservadora e militarista de Bolsonaro? O capitão é contra pesquisas com células-tronco embrionárias; contra o direito da mulher em relação ao aborto; contra os casais homoafetivos; contra a liberdade de expressão e a mídia que não o interessa; pela redução da maioridade penal (eu também); pela liberação da venda e porte de armas (acho que o cidadão tem direito de possuir uma arma, mas não de portá-la); acha que o homossexualismo é uma doença que pode ser curada pela fé, contrariando a ciência; diz que o Brasil não é um Estado laico, mas cristão.

                                   Ao que tudo indica, Sérgio Moro é um adepto dessas ideias. Caso contrário, não teria aceitado tão rapidamente o convite para ser o arquiministro da Justiça e da Segurança Pública. Salvo chuva e salvo engano, Moro não sabe nada de (in)segurança pública. Nunca andou em favelas e periferias. Não viu de perto a cara do povo. Não faz ideia do poder das facções criminosas, que, aliás, nunca foram citadas pelo novo líder. Mesmo assim, concordou com o projeto em meia hora. Pode isso?

                                   O capitão Bolsonaro, ao atrair Sérgio Moro para o novo regime, marcou um gol de placa. O cara é popular e verdadeiramente adorado nas classes médias, que, historicamente, definem os rumos da política no Patropi. Tem cara de bom moço, cabelinho bem cortado, é branco e com diploma universitário. O tipo ideal para se tornar um sucessor no novo regime. Os generais que apoiam Bolsonaro são velhos, feios e mal encarados. Todos com um pezinho na ditadura militar que infelicitou o país. Moro, não!

                                   Esse é o cara!

Anúncios
Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Sérgio Moro põe a corda no pescoço: convidado por Bolsonaro a ocupar o Ministério da Justiça, diz que se sente honrado e promete pensar.

moro e aecio

Moro e Aécio, tratam do inimigo comum, o PT. Foto portal IstoÉ.

                                    O controverso juiz federal Sérgio Moro, mais conhecido como o “Xerife da Lava Jato”, foi convidado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro a ocupar o Ministério da Justiça. É bom lembrar: uma semana antes do primeiro turno das eleições, Moro quebrou o sigilo das delações de Antônio Palocci contra Lula, com cobertura exclusiva do Jornal Nacional. Outro mar de lama sobre o petista preso em Curitiba. Foi tão escandaloso, que a corregedoria da Justiça Federal intimou Sérgio Moro a prestar esclarecimentos.

                                   Obviamente, a denúncia tinha alvo certo: desmoralizar ainda mais a campanha do PT. É claro que o partido tem enorme parcela de erros a espiar – e o próprio Lula não é mais nenhum inocente. Até as pedras do calçamento sabem disso. Mas um juiz federal – ícone da mídia – tomar tal iniciativa cheira a algo podre. Pior: é convidado a integrar o ministério do arqui-inimigo de Lula. E promete pensar, honrado pelo chamamento pátrio. Em qualquer lugar do mundo civilizado, já teria sido suspenso da função judicante.

                        O juiz é escravo da lei, como Bolsonaro se disse escravo da Constituição. Mas o juiz é um ser humano como outro qualquer e tem direito à interpretação subjetiva do rigor penal. Isto também está escrito nos códigos. Pode moderar as penas, pode considerar circunstâncias individuais de vida. Pode assentar: o sujeito roubou um quilo de arroz porque estava com fome. Mas interferir no processo eleitoral é muito diferente. Supostamente, Sérgio Moro é um cara esclarecido. A ele não cabe tal tipo de “engano”. Tanto não cabe que foi intimado a se explicar. Mas, como sabemos, a maior punição que pode ser imposta a um magistrado é a aposentadoria com todos os vencimentos. Trata-se de uma casta de intocáveis.

                                   Honrado pelo clamor bolsonarista, Sérgio Moro pode abandonar a magistratura e entrar na política. Seria um excelente sucessor do capitão. Aclamado pelo povo!  

  

 

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Vitória de Bolsonaro foi menor do que se esperava. Obteve 57 milhões de votos válidos, mas 42,4 milhões de eleitores não apareceram para votar ou votaram branco e nulo. Somando os votos em Haddad, chega-se a 89,3 milhões que não aprovaram o candidato do PSL.

bolsonaro02

Bolsonaro vitorioso. Imagem do Portal Tribuna do Ceará.

                             Jair Messias Bolsonaro venceu. É o novo presidente do Brasil. Ele conseguiu uma vitória quase inacreditável. Começou sozinho, não era apoiado por nenhum grande partido. Só tinha 8 segundos de tempo de TV no primeiro turno e teve que se virar nas redes sociais. Atravessou todas as dificuldades porque o discurso ultraconservador dele caiu no gosto de 34,6% dos 147,3 milhões de brasileiros e brasileiras aptos para votar. Pelo entusiasmo da campanha do PSL no segundo turno, arrastando multidões para as ruas mesmo sem a presença do candidato, tinha-se a impressão de que haveria uma vitória arrasadora. Não foi o que se deu.

                            O capitão ganhou, mas o resultado do pleito mostrou a ele e a seus auxiliares que é preciso baixar a bola, moderar o tom, porque ele não é uma unanimidade nacional. No discurso da vitória, que teve ares de culto evangélico, Bolsonaro mostrou a Bíblia, a Constituição e um livro que lembrava uma biografia de Winston Churchill. Uma curiosa combinação. Mas Bolsonaro assegurou ao país que será presidente de todos os brasileiros e que as leis e os direitos civis e políticos serão respeitados. Jurou por Deus: a Carta da República será cumprida e preservada. Muita gente respira aliviada.

                            O resultado da votação, ao contrário do que parecia, não teve nada muito diferente de outros embates recentes. Bolsonaro obteve cerca de 11 milhões de votos a mais do que o petista Fernando Haddad. Lula, em 2006, ficou mais de 20 milhões de votos à frente de seu desafiante do PSDB, Geraldo Alckmin (60,8% contra 39,1%). A história das eleições pós-regime militar mostram um cenário muito parecido: dois terços dos eleitores estiveram contra ou não se interessaram pelos vencedores. Portanto, a eleição de domingo, que teve 31 milhões de ausentes, não mostra nada muito diferente. A soma de brancos, nulos, ausentes e votos petistas no segundo turno (89,3 milhões) sinaliza o presidente eleito que ele tem muito trabalha pela frente para consolidar o apoio do povo. Hoje o capitão tem apenas um voto em cada três.

                                   De outro lado, é preciso dar uma olhada no campo do adversário. O PT não foi destroçado como se podia imaginar. As urnas deram ao partido, além do bom desempenho presidencial, a maior bancada na Câmara dos Deputados (56 cadeiras), seis senadores (o PSL fez 4) e 4 governadores (o PSL fez 3). O PT vai governar 30,6 milhões de pessoas. Mas apanhou feio no centro-oeste, no sudeste e no sul do país. As vitórias estão concentradas nas regiões norte e nordeste. Em termos econômicos, ficou ainda mais caracterizado como partido dos mais pobres. Além disso, os demais partidos do campo progressista também obtiveram resultados: outros 6 governadores eleitos pelo PSB, PDT e PCdoB; outros 9 senadores, dos quais 5 da REDE; outros 80 deputados. Tudo isso soma um bocado de votos.

                                   Jair Messias Bolsonaro não vai ter vida fácil.                                  

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Para tentar se reeleger na presidência da Câmara, Rodrigo Maia faz acenos a Bolsonaro. Oferece colocar em votação, já em janeiro, o projeto de lei que facilita a venda e o porte de armas de fogo.

rodrigo-maia-01

Rodrigo Maia: vai vender a alma? Imagem da TV Cultura.

                                    Rodrigo Maia (DEM-RJ) quer continuar presidindo a Câmara dos Deputados, que o torna o terceiro homem na sucessão ao Planalto. Para tanto, precisa pacificar o “centrão” e se aproximar do PSL, o crescente partido bolsonarista. Como moeda de troca, deseja oferecer ao capitão colocar em votação o projeto de lei que flexibiliza o Estatuto do Desarmamento, aprovado em 2003. E isso já em janeiro. Com o gesto generoso, Maia atende a uma das principais propostas de campanha de Bolsonaro: armar a população contra o crime. Em um país em que matamos 63.880 pessoas no ano passado, parece que o projeto dá início à guerra civil que os radicais tanto esperam.

                                   O projeto de lei 3722/2012, do deputado Rogério Peninha (MDB-SC), já foi aprovado em uma “comissão especial” da Câmara. Mas vem sendo mantido em banho-maria por Rodrigo Maia. Agora parece ter chegado a ocasião mais oportuna, em troca da qual Maia e o “centrão” esperam se beneficiar com cargos e vantagens. É o famoso toma-lá-dá-cá que Bolsonaro jurou extinguir. Se a lei for aprovada, o que muda?

1.      A idade mínima para a compra de armas de fogo cai de 25 para 21 anos. O comprador não poderá ter antecedentes criminais, mas fica dispensado o exame psicológico para saber se o sujeito pode ter uma arma nas mãos.

2.     O registro da arma na Polícia Federal se torna permanente, enquanto hoje vale por apenas 3 anos. O proprietário ainda tem que comprovar atividade profissional e residência fixa. Mas poderá adquirir várias armas de diferentes calibres (revólveres, pistolas, carabinas e rifles), com a munição regulada em cotas anuais.

3.     Para obter o porte de arma (ou o direito de sair armado na rua), terá que apresentar uma justificativa à Polícia Federal. Mas isto também pode ser “flexibilizado” durante a votação, porque muitos deputados da “bancada da bala” acham que, se o comprador cumpriu as exigências na aquisição do armamento, fica dispensado de novas obrigações para obter o porte.

4.     O artigo 78 da nova lei revoga expressamente o Estatuto do Desarmamento e cria o Estatuto de Regulamentação das Armas de Fogo.

Ao contrário do que pensam alguns otimistas, este não é um povo ordeiro e pacífico. Os fatos históricos e a epidemia de violência desmentem a tese. Em números absolutos, somo o país que mais mata violentamente no mundo, a cada ano. Sessenta e tantos mil homicídios, 40 mil desaparecidos e outras dezenas de milhares no trânsito, que também é uma forma de violência. Somos o segundo maior consumidor de cocaína em pó do planeta, o primeiro em crack. O narcotráfico é uma praga incontrolável, envolvendo particularmente as elites do país, incluindo os altos escalões da República, como já afirmou Fernando Henrique Cardoso, em entrevista a O Estado de S. Paulo, durante o segundo mandato dele.

                                   As facções criminosas são uma realidade assustadora, controlando o sistema penal e organizando a atividade criminal nas ruas. Elegem representantes pelo voto dos mais carentes e corrompem a polícia. Governam comunidades pobres onde vivem milhões de brasileiros. Contra esse estado de coisas não vemos políticas públicas. Um ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, durante o “levante” do PCC, em 2006, declarou à imprensa que quem sustenta o crime organizado é “a burguesia e a pequena-burguesia”. Ou seja: a elite econômica e a alta classe média.

                                   Se o crime organizado está nos altos escalões da República – vide as denúncias da PGR contra Lula, Dirceu, Temer e dezenas de parlamentares e ministros-, como resolver o problema armando a população? O bandido carrega armas todo o dia. Alguns assaltantes realizam até 10 ações por dia. São experientes, corajosos, muitas vezes por causa de drogas e álcool. Em 70% dos casos de crimes violentos, drogas e álcool estão presentes. Como o cidadão comum vai enfrentar esse tipo de agressão?

                                   De outra parte, precisamos examinar quem se beneficia com a escalada bélica proposta por Bolsonaro. Certamente, a indústria de armamentos. Aqui temos 3 delas: a Taurus (revólveres, pistolas e metralhadoras), a CBC (fabricante de munição) e a Imbel (produtora de armas militares). Na bolsa de valores, após o crescimento da candidatura do capitão do PSL e seus filhos agitados, as ações da Taurus se valorizaram 140% este ano, segundo o site Negócios. O capital estrangeiro correu para comprar. A aprovação da nova lei nos coloca em uma posição parecida com a dos Estados Unidos, onde a venda de armas é quase liberada. Mas resulta em atos terroristas e massacres nas escolas.

                                   Em um país repleto de contradições sociais, marcado pela desigualdade, o que será de nós?

    

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Com a mão na faixa, Bolsonaro continua sem projeto de governo. Os aliados dele assustam o país com declarações estapafúrdias e ameaças à democracia e ao bem-estar social. Mas o capitão continua liderando as intenções de voto em todas as regiões.

 

                                   O PT espera uma “virada difícil, mas não impossível” na votação do próximo domingo. Pela pesquisa divulgada hoje (CNT-MDA), o capitão tem 57% dos votos válidos e Haddad tem 43%. Algo como 18 milhões de votos de diferença. Faltando cinco dias para a votação, é uma situação arrasadora para o único candidato sobrevivente da esquerda. Tal sobrevivência, aliás, é quase um prodígio. Mas o PT errou – de novo – ao insistir no culto à personalidade de Lula, foi incapaz de negociar uma candidatura única do campo progressista, que poderia ter virado o jogo logo de saída. E não fez nenhuma autocrítica convincente das lambanças perpetradas nos últimos anos.

                                   No entanto, o candidato do desconhecido PSL e seus aliados assustam o país com ameaças e declarações cada vez mais perigosas para a estabilidade política e social do Patropi. Jair Bolsonaro já disse que, pelo voto, não se vai resolver nada no país e que era preciso uma guerra civil com uns 30 mil mortos. Disse que se devia fuzilar a “petralhada”. O filho dele, Eduardo, declarou em uma palestra: para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) não precisava nem de um jeep. Bastaria “um cabo e um soldado”. A truculência militarista causa espanto na parte do Brasil que ainda pensa. E essa parte, a se confiar nas pesquisas, representa 43% dos brasileiros votantes. Após a divulgação da ameaça, o ministro Alexandre de Morais, do STF, disse que se tratava de uma afirmação irresponsável e pediu à PGR a abertura de um inquérito contra Eduardo Bolsonaro, com base na Lei de Segurança Nacional.   

                                   A divisão de opiniões políticas, morais e ideológicas no país iniciou-se com os grandes protestos populares de junho de 2013. Resultaram em 4 mortos, dezenas de feridos e centenas de prisões. Ali o PT deveria ter acordado para o fato de que havia um enorme descontentamento entre os cidadãos e o sistema. Aquele era o ponto para uma repactuação política, abrir o governo para o segmento progressista. O PT insistiu em reeleger Dilma Rousseff, em 2014. Venceu por apenas 3,27% dos votos válidos, especialmente no Nordeste. E o PSDB de Aécio Neves, hoje apoiador de Temer e aderente a Bolsonaro, ao pedir a recontagem dos votos, inaugurou a crise política que resultou no impedimento de Dilma e na assunção de Temer, o pior governo da República, na avaliação popular.

                                   O descontentamento popular com a política em geral, agora corporificado em Jair Bolsonaro, altera a balança política no país. Antes era Lula e FHC. Ou o PT e o PSDB, entre a esquerda e a centro-esquerda. Agora é entre a extrema direita e uma esquerda dividida, quase muda. Lula já era. FHC já era. Aparece o tal do PSL, que açambarca o descontentamento popular.

                                   E ninguém sabe muito bem, fora as ameaças, o que Jair Bolsonaro pretende para o país.

                                            

                                                                       

  

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Teremos 2º turno, mas a onda conservadora varre o país. O eleitor jogou fora figuras execráveis da política – e elegeu outras parecidas. O desejo de mudança pode ter saído pela culatra. A nota mais forte da eleição é o antipetismo. Verdadeiro plebiscito.

 

                                   Antes de mais nada, o voto popular, livre e independente, graças a Deus, se manifestou sem conflitos e sem violência. A vontade das urnas, em um país dividido, apontou o desejo de resolver a eleição para presidente em dois turnos. Bolsonaro e Haddad vão se reencontrar no dia 28 deste mês. O Brasil volta a dar uma demonstração ao mundo de ser o país que apurar mais rapidamente uma eleição que envolve 144 milhões de votantes. Tudo em ordem. Trata-se de uma marca do amadurecimento da democracia em nosso país.

                                   Mas a voz das urnas é rouca.

                                   Jair Bolsonaro, militar da reserva do Exército, com uma plataforma radical de direita, defensor de políticas extremistas, obteve 46% dos votos. Em um país assolado pela corrupção, com uma violência epidêmica, ele conseguiu catalisar o sentimento popular de impotência e revolta. Provavelmente, a seguir as coisas como estão, será o novo chefe do governo brasileiro. Não se sabe muito bem quais são as propostas dele para o país, já que não apareceu no horário político e foi vítima de um atentado terrorista que o feriu gravemente. Por pouco não morreu. Evitou o debate público. Não é um orador convincente. Costuma fazer mais ameaças do que propostas. O silêncio tem sido a melhor estratégia do capitão Bolsonaro.

                                   No campo oposto está Fernando Haddad, candidato do PT, tido como sucessor de Lula, o líder popular mais famoso do Brasil. Professor universitário, ex-prefeito de São Paulo, Haddad consegui 29% dos votos válidos, garantindo o 2º turno nas eleições. Mas o candidato é visto como um espantalho de Lula. E o antipetismo é o sentimento mais forte no cenário eleitoral. O PT, subordinado ao culto à personalidade de Lula, atrasou o lançamento da candidatura de Haddad por semanas, comprometendo o resultado. Chegar ao 2º turno é uma proeza que se deve ao desempenho do próprio candidato e ao fato de os governos petistas terem beneficiado o povo pobre, especialmente no Nordeste, única região onde Haddad venceu. A memória coletiva em relação à Era Lula foi fundamental.

                                   É preciso fazer uma reflexão relacionada com o fato de um candidato medíocre como Bolsonaro ter alcançado um resultado tão significativo. A grande maioria silenciosa da classe media, cheia de rancores e ódios de classe, finalmente encontrou uma forma de expressão. Primeiro nas redes sociais, onde podia falar quase anonimamente. E – depois – por meio de um político que representava os seus interesses de revanchismo contra aquele bando de petistas, sindicalistas e comunistas de um modo geral. Como se ainda existissem comunistas no Brasil. (Você conhece algum?) O fato é que Bolsonaro se tornou o porta-voz de toda essa gente. A maioria silenciosa, cheia de rancores, encontrou uma expressão política.

                                   É quase impossível barrar esse movimento.                                  

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário

Imprensa internacional diz que democracia no Brasil está ameaçada. Cresce nas redes sociais uma terceira via, de centro-esquerda, com Ciro. Dá tempo?

                                    A grande mídia internacional vem alertando: a jovem democracia brasileira está em perigo, uma vez que a eleição de domingo está polarizada entre extremos, descartando quase completamente o centro. As agências de risco americanas, que balizam investimentos em nosso país, chegam a dizer que a situação é crítica e que o desenvolvimento econômico por aqui será adiado por muitos anos. Alguns observadores levantam a hipótese de conflitos graves, que podem levar à violência e choques armados, sugerindo ruptura institucional.

                                   Pode parecer um exagero. Mas a campanha deste ano já se deu em um cenário conturbado. As redes sociais, em tom raivoso, influenciaram mais o eleitor do que o rádio e a TV, a ponto de o campeão nas pesquisas nem aparecer para o grande público. Não foi sequer ao debate na TV Globo, esnobando a Vênus Platinada, enquanto dava entrevista para uma emissora evangélica. A discussão política na Web, se é que se pode dizer assim, foi na base de socos e pontapés. Muitas amizades foram desfeitas e a raiva tomou conta. Infelizmente, a Internet também esteve cheia de mentiras e notícias falsas, confundindo as pessoas. A Justiça Eleitoral fracassou redondamente no combate às fake news. E o ódio e a intolerância chegaram ao limite do suportável, dando a entender que, de fato, como alertam os analistas estrangeiros, a violência pode transbordar para as ruas. É bom não esquecer que Bolsonaro sofreu grave atentado e que um candidato ao governo de São Paulo foi emboscado a tiros em uma estrada do interior do estado.

                                   A polarização entre Bolsonaro e Haddad, ambos vistos como radicais, assusta a classe media. Isto talvez explique o surgimento de um movimento nas redes sociais em busca de uma terceira via, de centro-esquerda, encabeçada por Ciro Gomes. Supostamente, Ciro teria mais chances de vencer o capitão Bolsonaro no segundo turno. Para tanto, o pedetista teria que desbancar o candidato do PT, o que parece quase impossível em apenas dois dias. A oportunidade para um frente do campo progressista já passou. Isso teria que ser negociado antes, com projeto político comum, conciliando interesses. Agora é tarde.

                                   Mesmo diante da iminente vitória do capitão, Haddad ainda pode virar o jogo, se receber uma ampla transferência de votos de Ciro, Boulos, Marina e Alckmin. Destes, o PT pode contar apenas com os votos do PSOL. Ciro já declarou que não tem negócio com o PT. O PSDB de Alckmin debandou rumo a Bolsonaro. O eleitor de Marina é uma incógnita. Ou seja: mais uma vez, incapaz de se reunir, o campo progressista caminha para uma nova derrota. E olha que foram muitas na história recente do país.  

                                    

Publicado em Politica e sociedade | Deixe um comentário